Considerações sobre os Cuidados Paliativos no domicílio

A grande maioria dos familiares, e também dos próprios idosos em cuidados paliativos, teme a morte no domicílio. Por isso, é necessário conversar mais sobre ela.

Hannah Karoline de Vieira (*)

 

O presente artigo propõe refletir sobre o conceito de cuidados paliativos domiciliares e conhecer seus benefícios e importância para os idosos. O termo “cuidados paliativos” é utilizado para designar a ação de uma equipe multiprofissional a pacientes fora de possibilidades terapêuticas de cura. A palavra “paliativa” é originada do latim palliun que significa manto, proteção, ou seja, proteger aqueles em que a medicina curativa já não mais acolhe (HERMES, 2013).

Os Cuidados Paliativos foram definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1990, e redefinidos em 2002, como sendo uma abordagem que aprimora a qualidade de vida, dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados com doenças, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio de identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor, e outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual (HERMES, 2013).

A promoção dos cuidados paliativos no ambiente do lar permite aos idosos a possibilidade de continuar em seu contexto familiar e social, com atenção multiprofissional, disposta a oferecer suporte e orientação aos membros da família ou cuidadores, evitando internações recorrentes e muitas vezes desnecessárias. Assim, o idoso permanece em um ambiente familiar, com riscos diminuídos e assistência integral, o que contribui para a melhora e manutenção de sua qualidade de vida. Este artigo permite conhecer como ocorre a prática dos cuidados paliativos no lar e seus benefícios (VASCONCELOS, 2018).

Metodologia

Foi realizada revisão sistemática de literatura nos meses de outubro e novembro de 2018 para captação de artigos e construção desta reflexão. Os critérios de inclusão foram artigos em português com foco em cuidados paliativos e no recorte temporal de seis anos (2013 a 2018). As fontes de pesquisa utilizadas foram a BVS, incluindo Lilacs, Bireme e Scielo. Os descritores utilizados foram: Cuidados Paliativos, Atenção Domiciliar e Envelhecimento.

Discutindo os cuidados paliativos

Os cuidados paliativos são realizados em diversos âmbitos, como, dentro de hospitais, hospices, instituições de longa permanência, ambulatórios especializados ou em domicílio. Estes cuidados quando em domicílio, ainda são pouco praticados no Brasil, por isso, a necessidade de discussão e reflexão (VASCONCELOS, 2018).

A organização Mundial de Saúde preconiza oito passos para cuidados paliativos domiciliares de qualidade, são eles: avaliar necessidades dos pacientes e recursos disponíveis; estabelecer formalização da organização por meio de termos de referência e registro com autoridades; criar um plano de ação (quais recursos serão necessários, como se pode obtê-los, público alvo e serviços que serão cobertos); recrutar e desenvolver um programa de treinamento contínuo; mobilizar recursos; integrar dentro do sistema de saúde, associando com a atenção primária e a terciária de referência da operadora; divulgar o serviço; encorajar a participação de associações, grupos e estudantes, conforme assinala Vasconcelos (2018).

Apesar de pouco disseminado no Brasil, os cuidados de fim da vida no lar, fazem interface com a filosofia da morte contemporânea, que é marcada pelo empenho em tornar o fim da vida, não só do idoso, em um momento digno, em assisti-lo até seu último suspiro, dar voz ao mesmo, permitir escolhas, principalmente do lugar onde deseja morrer que, muitas vezes, representa a sua casa (SANTOS, 2017).

O atendimento a idosos em Cuidados Paliativos Domiciliares caracteriza-se por atividades destinadas à pessoa com doença avançada, em progressão, sendo necessário monitoramento, tratamento e controle de sintomas físicos, principalmente dor, além de cuidados aos aspectos psicossociais e espirituais.

Para que esse cuidado seja eficaz, são necessárias algumas condições, tais como plano terapêutico previamente estabelecido; possuir o acompanhamento de equipe multiprofissional; residir em domicílio que ofereça as condições mínimas para higiene e alimentação; ter cuidadores responsáveis e capazes de compreender e executar as orientações dadas pela equipe; além do desejo e permissão do paciente e cuidador para permanecer no domicílio.

Quando isso ocorre, é possível oferecer uma assistência integral, promovendo a continuidade do suporte técnico e medicamentoso associado à segurança e conforto domiciliar, além da companhia, carinho e afeto oferecidos pela família e amigos (DUARTE, 2013).

Portanto, podemos afirmar a importância e benefícios dos cuidados paliativos no ambiente domiciliar para o idoso, que se encontra dentro de um ambiente conhecido, mantendo sua intimidade, podendo realizar algumas tarefas laborais e mantendo alguns hábitos e atividades de lazer. A sua alimentação é mais variada e os horários são adequados as suas necessidades e querer. Além de fortalecer a autonomia deste idoso e sua integridade como pessoa (BRASIL, 2013).

Cabe ressaltar benefícios também para familiares, que, têm maior satisfação por estar participando ativamente do cuidado do idoso. Sentem que respeitam a vontade do idoso de permanecer no domicílio, além de poder prevenir o luto patológico. Já para o sistema de saúde, também identificamos benefícios dos cuidados paliativos em casa, pois pode-se reduzir internações hospitalares longas e de alto custo, tratamentos desnecessários ou futilidade terapêutica, propiciando alocação adequada de recursos.

Os Cuidados Paliativos demandam basicamente boa comunicação, tratamento de sintomas – como dor e outros – no final da vida, geralmente de baixo custo, e ótima coordenação do processo do cuidado (BRASIL, 2013).

Portanto, ressalta-se que o idoso em cuidados paliativos merece e deve ser tratado como pessoa humana até morrer, ser cuidado por pessoas que mantêm o sentido da esperança, mesmo que ocorram mudanças, expressar, à sua maneira, sentimentos e emoções diante da morte, participar das decisões referentes aos cuidados e tratamentos, receber cuidados médicos e de enfermagem mesmo que os objetivos de cura assumam o sentido de objetivos de conforto, não morrer sozinho, ser aliviado na dor e no desconforto, ter suas questões (formuladas ou sugeridas) respondidas honestamente, após aceitar a morte, receber ajuda dos familiares e que estes também sejam ajudados, morrer em paz e com dignidade, conservar a individualidade e não ser julgado por decisões que possam ser contrárias às crenças dos demais, discutir e aprofundar a religião ou experiências religiosas, seja qual for o seu significado para os demais, esperar que o corpo humano seja respeitado e ser cuidado por pessoas sensíveis, humanas e competentes que procurarão compreender e responder a suas necessidades, além de ajudar a enfrentar a morte e garantir privacidade (BRASIL. 2013).

Conclusão

Conclui-se que os princípios dos cuidados paliativos incluem o respeito à vida, considerando a morte como processo natural, sem a intenção de apressá-la ou adiá-la, oferecendo um sistema de apoio para que os idosos em processo paliativo possam viver bem, com minimização dos sofrimentos físico, social, emocional e espiritual, até a sua morte.

No processo do fim da vida, é comprovado o benefício da prática do cuidado paliativo, pois promove o alívio da dor e de outros sintomas estressantes, reafirma a vida e vê a morte como um processo natural, não pretende antecipar e nem postergar a morte, integra aspectos psicossociais e espirituais ao cuidado, auxilia a família e os entes queridos a sentirem-se amparados durante todo o processo da morte.

O cuidado paliativo trata-se de uma filosofia de cuidado para todos os seres humanos, não só para idosos, que enfrentam sofrimentos com o avançar de suas doenças crônicas e proximidade com a morte, comumente abandonadas no modelo assistencial preponderante em nosso País. Morrer na própria casa é um desejo comum entre os idosos que se encontram no final da vida.

No entanto, a grande maioria dos familiares e cuidadores, e também dos próprios idosos, teme o evento no domicílio por diversos motivos. Por isso, é necessário conversar mais sobre a morte, desmistificar o momento de partida para reconhecer os limites da medicina e evitar o excesso de tratamento ou tratamento não adequado dentro de contexto tão específico, dentro dos conceitos da distanásia (morte com sofrimento que poderia ser evitado).

Referências
HERMES, H.B. et al. Cuidados paliativos: uma abordagem a partir das categorias profissionais de saúde. FIOCUZ, 2013.
VASCONCELOS, G.B. et al. Cuidados paliativos em atenção domiciliar: uma revisão bibliográfica. São Paulo, 2018.
DUARTE, I.V. et al. Cuidados paliativos domiciliares: considerações sobre o papel do cuidador familiar. Rio de Janeiro, 2013.
SANTOS, A. F. Cuidados Paliativos e dignidade no fim de vida. São Paulo, 2017.
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Caderno de Atenção Domiciliar. Brasília – DF, 2013.

(*) Hannah Karoline de Vieira – Graduada em Enfermagem pela Universidade Católica de Santos, pós-graduada em Terapia Intensiva e em Saúde Pública pelo Centro Universitário Lusíada. Já atuou como Enfermeira Assistencial em rede hospitalar e atualmente atua como Enfermeira Responsável Técnica no Programa Acompanhante de Idosos Vila Piauí na zona oeste da cidade de São Paulo. Texto escrito no curso de extensão Fragilidades na velhice: gerontologia social e atendimento, da PUC-SP/Cogeae, no segundo semestre de 2018. E-mail: hannahKaroline@hotmail.com

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