Comunidades de afeto e o longeviver

A realidade indica que a família, comunidade de afeto tradicional, não pode sozinha dar conta da complexidade de viver, envelhecer e longeviver, e novos espaços de afetividade e convívio devem ser estabelecidos. Muitas são as possibilidades e, naturalmente, todas apresentam aspectos positivos e negativos. Portanto, múltiplos espaços são necessários para que os idosos e suas famílias possam reconstruir-se solidariamente. Elencamos os grupos de convivência e as universidades abertas, os de voluntariado, leigos ou religiosos; as pastorais; os de práticas desportivas, entre outras possibilidades.

Vera Brandão *

 

comunidades-de-afeto-e-o-longeviverAs reflexões que aqui apresentamos brevemente resultam do processo de estudos e pesquisas na área da Gerontologia Social, do qual resultaram trabalhos apresentados em congressos, seminários, na elaboração de capítulo de livro, e como tema da aula inaugural da Universidade Aberta à Maturidade da PUC-SP, realizada em 01/08/ 2016.

Partimos da constatação que longevidade é um fato biológico e cultural – marca o século XXI – que se apresenta como progresso e, como tal, traz muitos desafios. A velocidade das transformações dos modos de viver na modernidade impacta em especial o segmento mais velho da população mundial que nasceu, cresceu e viveu parte considerável de suas trajetórias em comunidades mais estáveis, especialmente no Brasil.

Na Europa, as consequências da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945) trouxe mudanças importantes nos modos de vida, impostas pelos conflitos, gerando deslocamentos, mortes, fome, desagregação e degradação das relações. Alguns conseguiram recompor, ao menos minimamente, os grupos de referência afetiva, outros não. A população idosa que vive hoje nos países afetados pelo conflito, que se reergueram e progrediram, conta hoje com uma estrutura social de atendimento mais equilibrada, porém as marcas dessas sofridas experiências ficaram fortemente gravadas, e se agudizam na velhice avançada, especialmente entre os nonagenários e centenários.

O Brasil, com seus graves problemas estruturais, não enfrentou uma guerra, mas convive, desde sempre, com um desgaste cotidiano que só se acentua, mesmo com o progresso em algumas regiões do país. As mudanças na estrutura familiar foram, ao longo do tempo, acrescentando sofrimentos maiores àqueles inerentes à fragilização física e emocional imposta pelo passar do tempo.

Acreditamos, esta é uma realidade que pode ser parcialmente enfrentada com a revitalização das comunidades de afeto muitas vezes esgarçadas, mas não totalmente rompidas, com abertura de novos espaços, nos quais com micro ações de solidariedade todos podem se reencontrar e refazer laços.

Mas, como se define o que é comunidade?

O termo, do latim comunitas, está associado à experiência de grupos de pessoas que convivem e partilham espaços geográficos, língua e cultura, e/ou comungam ideias e ideais, e podem conectar-se em maior ou menor grau com os princípios e a dinâmica da sociedade ampla. Ele carrega um significado positivo e exprime a noção de aconchego, proteção e harmonia, como se houvesse um entendimento compartilhado por todos excluindo, idealmente, desacordos e desavenças.

Devemos ressaltar que essa relação não é natural, e deve ser construída por seus membros, com acordos internos resultantes de negociações e persuasão, sempre sujeitos à reflexão e à contestação, pactos a serem periodicamente renovados na busca de um entendimento comum sempre vigilante, pois disputas internas e externas ocorrerão com frequência, ameaçando a esperada estabilidade.

Não poderia ser esta uma consideração importante para repensar e repactuar as relações nas tradicionais comunidades de afeto ‘esgarçadas’, especialmente as famílias? Os pactos tradicionais não poderiam ser revistos e refeitos, com novo acordo intergeracional, mais amplo e flexível?

Vivemos hoje uma sociedade plural e hiperconectada na qual convivem muitas comunidades e gerações que se interligam nos espaços de trocas, com leis e normas que se sobrepõem e/ou complementam.

Estudando a evolução humana, tanto do ponto de vista biológico como social, verificamos que seu ponto de partida foi um sentimento compassivo, de ajuda mútua, que evoluiu para a gradual organização com regras, dispositivos normativos e leis, cada vez mais complexas que passaram a reger essa convivência comum – em sociedade e/ou comunidade – associações humanas que se articulam formando o que denominamos ‘nosso mundo’.

Essa organização trouxe progressos em várias áreas, que hoje não estão orientados para o bem comum e o desenvolvimento humano sustentável e integral, afastando-se dos sentimentos de solidariedade e ajuda mútua, em direção a seu contrário: exclusão, preconceito, injustiça, “um mundo sem coração” (Lasch,1991).

Verificamos, assim, que constituímos e fomos constituídos, cotidianamente, em comunidades de afetos. Vivemos hoje em uma sociedade em redes e devemos incentivar e fortalecer as diferentes comunidades de pertencimento, pessoais e virtuais, das quais todos fazem parte. Na maturidade é fundamental valorizar as comunidades afetivas já construídas e buscar novas conexões na perspectiva de um longeviver compartilhado e integrado.

É no seio das comunidades de pertencimento – família, escola, igrejas de diferentes credos, ou grupos de convivência espirituais ou sociais, de amigos ou colegas de trabalho – que vivemos as experiências que nos marcam, e nas quais os afetos vão se constituindo de modo único para cada um, e os resultados desses processos serão expressos em pensamentos-guias de atos e atitudes. As experiências do passado são revividas no presente – a sociedade hipermoderna – compostas por diferentes grupos e camadas etárias que viveram e vivem outras experiências, construíram visões de mundo diversas, que não se excluem e podem incorporar mudanças e novos modos de viver socialmente. Seriam as memórias de fatos e emoções vividas as matrizes dos afetos? Se assim for, como por meio delas resgatar as comunidades afetivas?

A solidariedade e a empatia são sentimentos valiosos ao longo da vida, mas se tornam imprescindíveis na longevidade quando as possibilidades econômicas, físicas, psicológicas e existenciais se fragilizam e os grupos de convivência próximos podem mostrar-se como únicos pontos de apoio. Neste período a família, mesmo que estável e receptiva, não preenche todas as necessidades dos idosos, e os grupos de convivência em senso amplo permitem a saudável expressão de outras faces da identidade múltipla que nos constitui. Os momentos de fragilização maior são aqueles nos quais as comunidades de afetos se mostram mais relevantes e “a misericórdia torna-se […] elemento indispensável para dar forma às relações mútuas entre os homens, em espírito do mais profundo respeito por aquilo que é humano e pela fraternidade recíproca” (Papa Francisco, 2015).

A manutenção dos vínculos comunitários afetivos nesse período é um dos muitos desafios da longevidade na sociedade atual, mas podemos superá-los tendo como horizonte a solidariedade pela empatia, compaixão e misericórdia como “a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida” (Papa Francisco, 2015).

A realidade indica que a família, comunidade de afeto tradicional, não pode sozinha dar conta da complexidade de viver, envelhecer e longeviver, e novos espaços de afetividade e convívio devem ser estabelecidos. Muitas são as possibilidades e, naturalmente, todas apresentam aspectos positivos e negativos. Portanto, múltiplos espaços são necessários para que os idosos e suas famílias possam reconstruir-se solidariamente.

Dentre os quais, para aqueles que se sentem ainda dispostos e com saúde equilibrada, elencamos os grupos de convivência e as universidades abertas – com ampla possibilidade de escolha entre as atividades propostas – os de voluntariado, leigos ou religiosos; as pastorais propostas pelas igrejas; os de práticas desportivas, entre outras possibilidades. Para aqueles com maior grau de fragilidade existem os centros-dia, espaços de acolhida para suporte físico, emocional e de lazer, que auxiliam a manutenção da convivência familiar em parte do dia.

Algumas experiências de moradias partilhadas estão sendo realizadas em diferentes países impulsionadas pela longevidade humana: “repúblicas”, nas quais cada um tem seu quarto com sala e cozinha comuns, contando, às vezes, com um profissional de apoio; pequenas “vilas” de casas independentes, mas com infraestrutura de serviços de apoio; flats nos quais um indivíduo ou casal mora só, mas com serviços de hotelaria e outros; um idoso que oferece sua casa para partilha, com uma ou mais pessoas, dividindo despesas e afastando a solidão, além da reativação das comunidades de vizinhança. Todas essas ‘novas’ modalidades têm seus benefícios e problemas, já que é muito difícil a convivência cotidiana, mas com potencial de reconstrução de espaços afetivos.

As comunidades de afetos estão dentro de nós, vivas na memória, e que podem ser resgatadas por todos na perspectiva de uma vida mais solidária. Para nos abrirmos para novas possibilidades podemos questionar: Quais são os afetos que nos habitam? Como foram construídos? O que deles resta? Exercício nada fácil, mas fundamental, pois sem esse olhar interno, como podemos ver o outro? Se não me reconheço, como (re) conhecer o outro? Como realizar essa tarefa cotidianamente?

A solidariedade tem como premissa a empatia – colocar-se no lugar do outro – e a compaixão – sentimento que nos impele a evitar o sofrimento do outro e a ação de proteção – guias no caminho da misericórdia. Manter ou criar comunidades de afetos é a tarefa que se impõe no momento atual, e semente de uma mudança de perspectiva no que se considera a vida na longevidade.

Leia mais

LASCH, C. Refúgio num mundo sem coração. A família: santuário ou instituição sitiada? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

MAGALHÃES SILVA, D. Comunidades de Vizinhança em Portugal e na França: lidando com o isolamento social e a solidão dos idosos. REVISTA PORTAL de Divulgação, n.49, Ano VI, Jun. Jul. Ago. 2016, ISSN 2178-3454. Disponível Aqui

SS PAPA FRANCISCO. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 2015

* Vera Brandão – Pós doutora em Gerontologia Social PUC/SP. Mestre e Doutora em Ciências Sociais – Antropologia PUC/SP. Pedagoga USP. Pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento – NEPE – e do Núcleo Longevidade, Envelhecimento e Comunicação – LEC – do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia PUC/SP. Editora da Revista Portal de Divulgação do Portal do Envelhecimento. E-mail: veratordinobrandao@hotmail.com – Site: Acesse Aqui 

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