Competição esportiva na velhice

Benefícios, desafio, socialização e autoestima são proporcionados pelas competições esportivas na velhice. Para muitos idosos, estas são o motivo principal de acordar todos os dias, se preparar para os jogos, ver os amigos do grupo, sentir-se vivo e útil.

Nádia Amaral da Silva Machado (*)

 

A competição esportiva requer atividades físicas com regularidade. São meses de treinamento, disciplina, socialização, elevação da autoestima e superação de desafios. Como é o caso da competição esportiva chamada JIATIBA – Jogos Intermunicipais Adaptados à Terceira Idade de Barueri (SP).

Esta competição é realizada na cidade de Barueri/SP pela Prefeitura através da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social no equipamento do Centro de Convivência chamado Parque da Maturidade José Dias da Silva. Venho observando como a competição é esperada ansiosamente pelos seus atletas e por seus adversários das cidades da região.

O Centro de Convivência para o idoso está previsto na Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais (aprovada pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), por meio da Resolução nº 109, de 11 de novembro de 2009). Os serviços foram organizados por níveis de complexidade do SUAS (Sistema Único da Assistência Social), sendo: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial de Média e Alta Complexidade.

Na Proteção Social Básica está inserido o serviço de convivência e fortalecimento de vínculos para a pessoa idosa do qual está inserido o Parque da Maturidade.

Conforme descrito na Proteção Social Básica, o serviço para o idoso tem como ”foco o desenvolvimento de atividades que contribuam no processo de envelhecimento saudável, no desenvolvimento da autonomia e de sociabilidades, no fortalecimento dos vínculos familiares e do convívio comunitário e na prevenção de situações de risco social. A intervenção social deve estar pautada nas características, interesses e demandas dessa faixa etária e considerar que a vivência em grupo, as experimentações artísticas, culturais, esportivas e de lazer e a valorização das experiências vividas constituem formas privilegiadas de expressão, interação e proteção social. Devem incluir vivências que valorizam suas experiências e que estimulem e potencialize a condição de escolher e decidir, contribuindo para o desenvolvimento da autonomia e protagonismo social dos usuários” (Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais, 2014).

A competição esportiva está inserida no contexto das diretrizes prevista nos serviços socioassistenciais como também na Política do Envelhecimento Ativo. A Organização Mundial da Saúde assumiu o termo envelhecimento ativo a fim de expressar o processo de conquista individual como também meta de políticas.

Importante citar o conceito de Envelhecimento Ativo, entendido como “o processo de otimização de oportunidades para a saúde, aprendizagem ao longo da vida, a participação e a segurança para melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem” (Envelhecimento Ativo, 2015). São definidos como pilares do envelhecimento ativo: saúde, participação, aprendizagem e segurança, sendo um processo contínuo de participação social.

Vozes dos profissionais

No final do mês de outubro de 2017 aconteceu a edição XII JIATIBA que contou com a participação de 10 municípios, atingindo aproximadamente 900 participantes: atletas, autoridades, profissionais de diversas áreas e família. Dessa forma, fortalecendo vínculos familiares e comunitários, potencializando o indivíduo por meio de atividades coletivas.

Para um dos Coordenadores do Parque da Maturidade, experiente profissional da área da educação física:

O JIATIBA resgata dignidade e eleva autoestima do idoso, ele sente que é importante e útil na equipe que defende seu município. (Fábio Smilari)

Para o professor de educação física que treina há mais de 5 anos os atletas do Parque da Maturidade:

As competições esportivas voltadas para o público idoso trazem inúmeros benefícios, tanto físicos como mentais.
Os benefícios físicos são: melhora do condicionamento físico, coordenação motora, lateralidade, equilíbrio, força, resistência cardiorrespiratória, entre outros.
Quanto aos benefícios mentais: autoestima, saída do isolamento do lar, socialização, diminuição no processo depressivo, fazer parte de um grupo, mudança no estilo de vida etc. Para muitos idosos, as competições esportivas são o motivo principal de acordar todos os dias, se preparar para os jogos, ver os amigos do grupo, sentir-se vivo e útil!.
(Vagner Scatolin)

Enquanto acontecia a competição esportiva JIATIBA, foi realizada pesquisa com os participantes frequentadores do Parque da Maturidade José Dias da Silva, a fim de se compreender a importância da prática esportiva em suas vidas.

Vozes dos idosos competidores

A pesquisa teve abordagem qualitativa. Foi realizada entrevista com quatro pessoas acima de 60 anos, de ambos os sexos, que praticavam as seguintes atividades físicas: academia, natação, basquete, vôlei e tênis de mesa; e competiam nas modalidades: vôlei, basquete e tênis de mesa. Entrevistou-se mais seis pessoas acima de 70 anos, também de ambos os sexos, que praticavam academia, hidroginástica, basquete e vôlei; e competiam nas seguintes modalidades: vôlei, basquete, coreografia, baralho e dominó. Ao todo, participaram da pesquisa 10 pessoas idosas, sendo 5 mulheres e 5 homens, entre 64 e 75 anos.

Os entrevistados foram unânimes ao apontarem o prazer e satisfação em competir, a baixa do sedentarismo, a sensação de viver melhor, a união, o convívio, a saúde e o bem estar. Reproduzimos a seguir os relatos dos entrevistados adeptos de atividades físicas e competidores sobre os benefícios, efeitos e/ou mudança por meio das competições esportivas na sua vida.

A união, participação, o convívio, isso é muito importante… mudou a sensação de viver melhor e de curtir tudo. (Felismina A. Figueiredo, 75 anos)

É a minha felicidade. Sinto mais disposta, mais ativa, quero mais. (Nair Amarante, 68 anos)

Descobri que ainda é possível sentir prazer e satisfação em competir e ganhar. Ainda estou degustando o prazer de competir e ganhar uma medalha. (Luiz Mário Pereira, 64 anos)

Sinto bem reencontrar amigos, saúde, bem estar. (Valdemar de Sousa, 74 anos)

É um incentivo para nós, desafio. Benefícios de autoestima, sentir ainda que somos importantes. (Esmeralda R. de Camargo, 70 anos)

Os jogos são importantes devido às competições que estimulam e ativa a autoestima. Deixei de ser sedentário e a saúde melhorou muito. (Milton Estevam Mol, 70 anos

Estes relatos constatam que a prática da competição esportiva é uma atividade de grande importância inserida na grade do Centro de Convivência, possibilitando acessos às experiências esportivas e de lazer promovendo desenvolvimento de novas sociabilidades, envelhecimento saudável, autonomia e fortalecimento de vínculos familiares e do convívio comunitário, conforme previsto nos serviços socioassistenciais.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social.” Esse serviço público está em consonância com a Política do Envelhecimento Ativo trabalhando o conceito definido pela OMS. Foi possível observar durante todo ano o preparo para disputa da competição, houve a promoção da saúde fundamental para a qualidade de vida, aprendizagem, aquisição de conhecimento e habilidades proporcionando participação e empoderamento e ainda promovendo engajamento.

Experiências profundas positivas, manifestando sentimento de ter propósito na vida, e, por fim, a proteção/segurança, pois sem ela não é possível envelhecer ativamente. Os velhos atendidos no Parque da Maturidade realizam três refeições diárias, são aposentados e/ou beneficiários do benefício de prestação continuada/Lei Orgânica da Assistência Social (BPC/LOAS).

Na vida sempre é tempo de buscar.

As emoções e efeitos produzidos por uma competição esportiva na vida do velho vão além das medalhas e troféus.

Referências
BRASIL. Organização Pan-Americana da Saúde. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília-DF, 2005
BRASIL. Centro Internacional de Longevidade Brasil. Envelhecimento ativo: Um marco político em resposta à revolução da longevidade. Rio de Janeiro-RJ, 2015
BRASIL. Estatuto do idoso. Lei nº 1074. Brasília-DF, 2003

 

(*) Nádia Amaral da Silva Machado é Assistente Social, graduada em 2005 pela Faculdade Paulista de Serviço Social/FAPSS. Atua como coordenadora do Centro de Convivência Parque da Maturidade José Dias da Silva. Texto apresentado no cursoFragilidade na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento ofertado pela PUC-SP no segundo semestre de 2017. E-mail: nadiaalmachado@gmail.com

 Fotos: Adalberto Albuquerque

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