Como o nome de um residencial para idosos pode sugerir um lar?

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Na busca por soluções alternativas para moradia na velhice está o nome do próprio residencial que deve sugerir que aquele espaço seja de fato um lar. Será que Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) será a melhor solução para uma residência assistida?

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


No Brasil, o nome oficial para empreendimentos destinados à moradia de idosos é Instituição de Longa Permanência para Idosos – ILPI, regulamentados pela atual RDC 283:2005, da Anvisa. Esta denominação foi definida pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a partir de Long-Term Care Instituition – LTCI, e já tem em seu bojo o seu caráter técnico. As moradias institucionais são aquelas que oferecem condições de conforto e segurança para o cuidado de pessoas frágeis, sejam elas jovens ou não. Porém, a partir do movimento para desinstitucionalizar o doente mental, considerando que muitos manicômios eram mantidos em condições desumanas e precárias, a ideia de contenção e, pior ainda, de um lugar que pessoas “normais” evitam entrar, torna-se indiscutível.

Antes chamadas de asilos, as instituições destinadas a idosos mantiveram a ideia de isolamento, submissão e tristeza. Ora, em Portugal os asilos eram os lugares para doentes mentais e lares eram destinados a idosos, mas mesmo esse termo tem sido rejeitado pela sugestão de submeter, isolar e esconder a tristeza que a velhice pode trazer a homens e mulheres que necessitem de assistência e cuidado. Portanto, há um exercício constante de considerar a expressão “residência sênior”, na tentativa de tornar mais agradável a ideia de buscar uma alternativa que se assemelhe a moradias ordinárias. Buscam características familiares, onde são estimuladas a participação, a colaboração e o envolvimento em rotinas que preencham o tempo livre de modo produtivo e enriquecedor. O nome oficial para este equipamento é Estrutura Residencial para Pessoas Idosas – ERPI, denominação que sugere a existência de uma construção adequada para o público a quem se destina, sendo muitos deles construídos “de raiz”, ou seja, feitos para atender programas para as necessidades do morador idoso.

Bairro Padre Cruz, Lisboa

Um modelo muito interessante no âmbito da assistência social promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa – SCML, entidade portuguesa com uma atividade intensa no atendimento a populações vulneráveis, é o da residência assistida, com características muito semelhantes às assisted living americanas e as extra-care housing – ECH, suecas. No caso do Bairro Padre Cruz, a Câmara Municipal de Lisboa, órgão que equivale às prefeituras brasileiras, construiu um centro intergeracional administrado pela SCML, que abriga desde 2015: berçário e creche, centro dia para idosos, serviço de apoio domiciliário, animação sócio educativa para jovens e a residência assistida, esta desde 2017.

A Inauguração do Edifício de Equipamentos do Bairro Padre Cruz, foi no dia 30/09/2015.

Um exemplo bem-sucedido de aging in place, pela familiaridade dos moradores que já estavam no bairro em moradias mais precárias e foram realocados pelo governo local. Constata-se claramente a sensação de pertencimento que transparece nas falas desses idosos, ainda favorecidos pela criação de novos vínculos e a garantia de dignidade que a velhice merece.


(*) Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta formada pela UFRGS, com mestrado e doutorado pela FAU USP, além de MBA em Gestão de Projetos pela FGV. É docente no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Pesquisa sobre modos de morar na velhice, desenvolvendo caminhos para a reflexão sobre o tema utilizando metodologias colaborativas, em especial o Design Thinking. Criadora do Blog Ser Modular – harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice. Texto inicialmente publicado no seu blog em 07/02/2020.


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