Como é ser um homem de 97 anos?

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Um filósofo com quase 100 anos de idade, que escreveu um livro sobre a morte, relata como é se sentir cada vez mais próximo de seu próprio fim: “Posso fazer muitas das coisas usuais da vida. Mas agora a maioria delas é feita com esforço e cuidado especial e, com frequência, com ajuda de outra pessoa. E esse é um dos desafios que tenho enfrentado: aceitar a necessidade de ajuda”.

Por Herbert FingaretteRedação PdH (*)


Ter 97 anos tem sido uma experiência interessante, te digo isso. É muito difícil para pessoas que não atingiram ainda um estágio de idade avançada, é duro pra elas entender a psicologia disso, o que está acontecendo dentro da pessoa. É uma perda das habilidades que você teve em toda sua vida. E há uma tendência em agir como se você ainda as tivesse, falhar e se envergonhar. Ou acabar aceitando, finalmente, que não pode mais fazer certas coisas. Essa é a atitude racional a se tomar. E seria muito bom se agíssemos de modo racional, mas não fazemos assim.

Você não consegue simplesmente decidir racionalmente: “é assim que tem que ser agora, mesmo que antes fosse diferente”. Você até pode dizer isso a si mesmo, mas não significa que pode fazê-lo. Estamos falando de hábitos de toda uma vida.

Posso fazer muitas das coisas usuais da vida. Mas agora a maioria delas é feita com esforço e cuidado especial e, com frequência, com ajuda de outra pessoa. E esse é um dos desafios que tenho enfrentado: aceitar a necessidade de ajuda.

* * *

Nasci no Brooklyn, em 1921. Tenho 97 anos, o que é uma grande surpresa pra mim. Nessa idade, naturalmente, penso sobre a morte. Ensinei filosofia na universidade da Califórnia por 40 anos, acho. Como um jovem filósofo, comecei indo fundo em psicanálise. Publiquei livros sobre autoengano, filosofia chinesa e também trabalhei com teorias éticas. Atuei no campo da responsabilidade jurídica e das questões conectadas a dependência alcóolica e vício em drogas.

E também escrevi um livro sobre a morte, há cerca de 20 anos. No livro sobre a morte, o que disse, em resumo, foi que não há razão para ter medo, preocupação ou receio algum em relação a morrer. Pois quando você morre não há nada. Você não vai sofrer, não vai ficar infeliz, não vai ficar nada. Não vai existir. Após certo ponto, não há nada. Então não seria racional ter medo da morte.

Agora penso que essa não é uma boa proposição.

Penso que é importante entender o motivo das pessoas terem medo da morte. Porque eu estou preocupado com ela? Meu argumento é que não havia motivo pra isso. Mas havendo uma boa razão ou não, hoje a ideia de que vou morrer em breve me assombra.

Frequentemente caminho pela casa e me pergunto, às vezes em voz alta: “qual o ponto disso tudo?” Deve ter algo que estou deixando passar nessa conversa… gostaria de saber o que.

Aqui estou, tentando entender onde é que estou.

Em muitos sentidos, sinto que ainda sou um quebra-cabeças pra mim mesmo. Acho muito interessante tentar entender o que está acontecendo e passo bastante tempo pensando sobre isso. Mas é difícil, não sei. Costumo apenas deixar o tema de lado. Qual o ponto disso tudo?

Creio que faço essa pergunta com o senso de que não há uma boa resposta. É uma pergunta meio irônica. Acho que a resposta seja a resposta silenciosa, quem sabe. Não há ponto. É uma questão tola.

* * *

Se fosse dizer algo, diria que solidão e ausência com certeza são parte da minha vida. E isso tem a ver com minha esposa. Nós éramos muito próximos. Fomos casados por cerca de 70 anos. Essa é outra dimensão da situação de minha alma com a qual me deparo às vezes. Ela se foi há muitos anos. E sinto que parte de mim se foi.

Nós trabalhávamos juntos, vivíamos juntos, fomos felizes juntos. Sei o quão afortunado fui por desfrutar de uma vida feliz. Mas metade de mim se foi. A ausência dela tem sido para mim, já há muitos anos, como uma presença. Uma ausência que está presente para mim.

Um vazio.

Algo faltando. E é claro que logo sinto que ela é o que está faltando. E isso é muito solitário. Estava com ela quando morreu. Essa foi uma experiência difícil. Pelo menos nos abraçamos nos últimos momentos. Seguramos nossas mãos.

* * *

Morte é um pensamento assustador. É algo que não quero que aconteça.

Por mais que pense que nossa vida nesse mundo é algo bem confuso, gostaria de seguir por aqui. Não sei o motivo básico pelo qual deveria querer seguir aqui ou o motivo básico pelo qual deveria ter medo da morte.

O que significa o fato de que vou partir?

Enquanto sento na varanda de minha casa, observo as árvores, o vento soprando as folhas levemente… e já as vi incontáveis vezes. Mas de algum modo, observá-las agora é uma experiência transcendente. Vejo o quão maravilhoso isso é. E penso comigo mesmo: “tive essa vista toda a vida, mas será que realmente a apreciei?”. Penso que não. E de algum modo, me dar conta disso torna a morte ainda mais difícil de aceitar. Faz surgir lágrimas em meus olhos.

Escrevi livros sobre vários outros temas. Em cada um deles tive a sensação de que resolvi o problema, mas isso não é resolvível. Não é apenas uma questão teorética para mim, como tantas podem ser. É o tema essencial para minha idade e momento de vida — com o qual tentei me conciliar, e falhei.

Então sigo existindo. Essa é verdade.

Sigo existindo. E esperando. Esperando até dizer adeus.

(*) Redação PdH – o texto é a tradução realizada pela redação do Papo de Homem do que Herbert Fingarette narra no vídeo abaixo.


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