Como as jovens gerações encaram o envelhecimento?

Há exatamente um ano, logo após o novo Gabinete de governo do Japão ter assumido o poder, o ministro das Finanças, Taro Aso, na ocasião com 72 anos, fez uma declaração assustadora que acabou virando manchete pelo mundo afora e provocando uma série de críticas ao governo japonês. Simplesmente ele disse que os idosos deviam “se apressar e morrer” para poupar gastos do governo com a saúde pública, assinalando que recusaria terapias paliativas caso fosse acometido por uma doença terminal.

Beltrina Côrte

 

como-as-jovens-geracoes-encaram-o-envelhecimentoA frase “Deus me livre de ser forçado a viver se quisesse morrer. Eu acordaria me sentindo cada vez pior sabendo que (o tratamento) foi todo pago pelo governo”, foi dita por ele durante uma reunião do Conselho Nacional de Reformas da Segurança Social. “O problema não será resolvido, a não ser que você deixe que eles se apressem e morram”.

Essa declaração norteou o assunto da prova de redação da segunda fase da Fuvest, realizada no início de janeiro de 2014 com o tema “O envelhecimento populacional e as formas de lidar com os cuidados médicos com a população no fim da vida”, a partir de uma reportagem do jornal britânico “The Guardian” (theguardian.com, 22/01/2013) com declarações do ministro em que este dizia que os custos para manter a crescente população idosa do país eram muito altos.

Os estudante deveriam levar em conta na sua redação as implicações éticas, culturais, sociais e econômicas de tal declaração. Deveriam escolher uma temática e dissertar sobre se essas opiniões do ministro japonês são tão raras ou isoladas quanto podem parecer, o que as motiva, o que elas dizem sobre as sociedades contemporâneas, e se opiniões desse tipo seriam possíveis no contexto brasileiro. Por fim, deveriam responder como as jovens gerações encaram os idosos.

O enunciado solicitava aos jovens um texto em prosa, no qual avaliassem as posições do ministro, supondo que esse texto se destinasse à publicação em um jornal, revista ou site da internet.

O fato do envelhecimento da população ser tema da redação da Fuvest 2014 deve ter surpreendido uma boa quantidade de jovens que nunca pensaram no envelhecimento como um tema importante e que pudesse cair no vestibular. Mas mostra a relevância de um fenômeno contemporâneo que afetará cada um de nós, a velhice e o prolongamento da vida.

Harry S. Moody, estudioso da longevidade, já em 1995, quando escreveu sobre os diferentes cenários de uma sociedade que envelhece, e consequentemente diferentes abordagens para o significado da velhice, apresentava o cenário do prolongamento das doenças, no qual, o interesse pela qualidade de vida poderia permitir a eutanásia ativa ou o suicídio como meio de poupar recursos. Na época não se falava de ortotanásia. Outro cenário era o da redução das doenças o qual envolve a promoção da saúde a fim de retardar o surgimento de enfermidades em favor de um envelhecimento produtivo. Outro cenário, o do prolongamento do ciclo vital, no qual os escassos recursos para a saúde não são investidos no aumento da expectativa de vida, mas em pesquisas básicas para adiar ou eliminar o envelhecimento. O último cenário enfatiza a aceitação voluntária dos limites da vida, isto é, a finitude, no qual gerações futuras possam limitar a longevidade para cada. Segundo ele, contrastar significados, como qualidade de vida, envelhecimento produtivo e sobrevivência indefinida e limites de vida voluntários, podem provocar consequências muito diferentes para a alocação de recursos de saúde aos grupos etários e entre os subgrupos a população idosa.

Na ocasião, Moody levantou algumas questões que vão na mesma linha de raciocínio do ministro japonês em relação ao seu estranhamento, e que devemos urgentemente refletir sobre elas: A velhice tem algum significado? O prolongamento da vida realmente traz benefícios, seja para o indivíduo ou para a sociedade? Ou, pelo contrário, os frequentes progressos em relação ao aumento da expectativa de vida não terão sido apenas o prolongamento da decrepitude, da invalidez e de uma existência sem sentido?

A opinião do ministro, que depois pediu desculpas dizendo que essa era sua opinião pessoal e não a de ministro de finanças, leva a se refletir sobre a chamada autonomia para morrer. O “querer” morrer causa estranhamento à maioria das pessoas. Morrer é inerente à vida, é como nascer. O contrário são as máquinas que fazem prolongar vidas e mais vidas, entubadas, sem qualidade de vida nenhuma e sem mais nenhum sentido de existência. A quem interessa?

Ortotanásia

No Brasil a prática humanista na Medicina é reconhecida legalmente via a Resolução 1995/2012 do Conselho Federal de Medicina (CFM), em detrimento de uma visão voltada exclusivamente para a doença e não a pessoa, numa busca obsessiva pela cura a qualquer custo de doenças incuráveis, muitas vezes prolongando a dor e o sofrimento para toda família, incluindo o doente, além de consumir todas economias feitas durante toda uma vida. Quem lucra com isso?

Na ortotanásia, segundo o CFM, “se houver manifestação favorável da pessoa em fase terminal de doença ou, na impossibilidade de que ela se manifeste em razão das condições de saúde, da sua família ou do seu representante legal, é permitida a limitação ou a suspensão, pelo médico assistente, de procedimentos desproporcionais ou extraordinários destinados a prolongar artificialmente a vida. Com a decisão, o médico autorizado pelo paciente ou seu responsável legal pode limitar ou suspender tratamentos exagerados e desnecessários que prolonguem a vida do doente em fase terminal de enfermidades graves e incuráveis.” Estamos falando da dignidade da morte.

O professor Robinson Bucci, em seu facebook, divulgou um pequeno texto intitulado “Minha redação para a fuvest 2014 – feita em uma hora e quinze minutos, sem edição. Sociedade antirrugas”, no qual comentava o seguinte: “o jornal inglês que divulgou a notícia, julgou ofensiva, desonrosa, a defesa que o senhor Taro Aso fez da ortotanásia, da morte natural longe das UTIs, da morte com dignidade. A questão é que ele, por ser ministro das finanças, fundamentou seu discurso na economia estatal, a sociedade antirrugas não aprovou a vida/morte que custa dinheiro, como se a vida cosmética fosse gratuita, como se a Renew, a Avon, a Roche-Posay e afins não fossem megacorporações elencadas entre as mais lucrativas do mundo – especialmente em momentos de crise econômica. (…) Não podem ceder à morte pública, devem estender a qualquer custo, mesmo na indignidade, suas vidas ou desaparecerem – que não morram na contramão atrapalhando o tráfego. Contra o vigoroso cinismo do senhor Taro Aso, há a hipocrisia da sociedade do vazio, desalentada: a moda é a saúde, não fume, não beba, não tenha câncer, corra, ande de bicicleta, use capacete e cinto de segurança, seja saudável, é proibido morrer. Todo esse paternalismo proibitivo em um mundo sob o controle das bolsas de valores.” Para o professor, o drauziovarelismo no Brasil, faz de nós também adeptos do neohigienismo.

Enfim, esta temática instiga diversas reflexões que apenas estão se iniciando, ao menos para os aproximadamente 30 mil vestibulandos. Mas fica a curiosidade: O que será que eles escreveram a respeito do envelhecimento? Será que teremos acesso à essas redações em breve?

Referências

SÁ. Daniel Loures. Ortotanásia: Autonomia para morrer e a Resolução CFM 1995/2012. Disponível Aqui. Acesso em 10/01/2014.

BUCCI, Robinson. “Minha redação para a fuvest 2014 – feita em uma hora e quinze minutos, sem edição. Sociedade antirrugas”. Disponível Aqui. Acesso em 14/01/2014.

MOODY, Harry, S. Ageing, Meaning and the Allocation of Resources. Ageing and Society, Vol. 15, Issue 02/June 1995, pp. 163-184.

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