Coletânea de poemas sobre a velhice – Parte V

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Desde a parte I desta coletânea de poemas, vimos como a poesia na forma de poema permite habitar um espaço de errância, inclusive sobre a velhice. O tempo Cronos, a Corporeidade do ser velho e a morte também se fizeram presentes na coletânea.


“Eu me sinto capaz duma velhice tão grande…”  (Mô Ribeiro)


Se os escritores são intérpretes subjetivos de um mundo, seus olhares são valiosos para entender suas possibilidades e histórias. O que os nossos autores contemporâneos tem dito sobre o envelhecimento e a velhice? Parte do estado da arte está reunido nesta quinta parte da coletânea!

[diálogo avulso ou algum fragmento de alguma peça literária futura], por Wilson Gorj

– Quando envelhecer vou arrendar um sítio na roça e me enfiar lá para fugir do convívio social.
O avô esboçou um sorriso triste:
– Quando você envelhecer, vai se dar conta de que não precisará disso.
E recebendo o olhar interrogativo do neto, explicou-se:
– A velhice já é um sítio na roça.

Plantas, por Horácio Costa

(…)
Envelhecer é em boa medida
adiar a morte:
a das plantas, a própria.

Cicatrizes e sacrilégios, por Fábio Pessanha

essa coisa, o tempo, a gente sempre
tenta dizê-lo de
algum jeito.
ter uma experiência
de imortalidade sobre ele

vejo a pele enrugar,
pelos brancos
em todo o corpo, algumas
cicatrizes e uns sacrilégios
em pétalas abertas

é bem grande
a vontade de ouvir
a penúltima faixa de um disco
empoeirado sem
lembrar que

quase não mais existem
vitrolas ou velhos toca-discos

A Flor Perene, por Mikael Abrão-Bombassaro

Seca, mas nunca morre. A flor perene,
Pendurada em uma perpétua eternidade,
Comove o solo insosso de saudade –
Inerme, de manhã, e pela idade,
Desperta ao estampido da sirene.

Farrapos da imprecisão, por Demetrios Galvão

é privilégio dos vivos ter lembranças
coisas guardadas onde não sabemos onde:

de um avô, lampeja a velhice esbranquiçada em passos bem curtos
com palavras que não criavam raízes dentro da frase.
do outro, a matéria dos olhos assertivos-esverdeados
semeando a terra, plantando cajus e lutando contra as formigas.

de uma avó, ficou a potência de uma mãe de muitas mulheres
que não tiveram a sua mesma força.
da outra, a doçura-alegre de quem gostava de bananas
e nos enchia o bucho de coisas boas.

— o que fica, são os farrapos da imprecisão
alguns fleches não revelados da máquina.

 Pequena Coreografia do Adeus, Excertos, por Aline Bei

é uma pena
que a maioria das nossas avós
vão embora antes de virarmos pessoas que sabem
aproveitar uma conversa.

ela era tão velha que
parou
de ter ruga, não havia mais espaço
no rosto
para o tanto de tempo que já passou.

Clarice, por Clara Bordinião

Nunca esperei a idade chegar.
Ver os primeiros cabelos brancos,
os primeiros sinais na pele,
meus olhos ficarem mais fundos.
Como os teus.

(…)

Às vezes o tempo é gentil
com os amores.
Mas com as saudades,
é um carrasco.

Foto destaque de Lydia/Pexels


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Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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