Coletânea de poemas sobre a velhice – Parte III

Tempo de Leitura: 2 minutos

Os poemas selecionados neste terceiro capítulo falam a respeito dessa corporeidade do ser-velho, como aquilo que é tomado como referência territorial por todos os entes. O corpo como seu tamanho no mundo.


Do ponto de vista existencial, o corpo pode ser considerado o grande emissário da vivência. As reflexões de Merleau-Ponty apresentam-no como o ponto a partir do qual todo o espaço se dá, como aquilo que é tomado como referência territorial por todos os entes. Segundo ele, a própria percepção é determinada por esse posicionamento corporal. Gullar, em Poema Sujo, sumariza as colocações: meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo.

Referenciando a parte II da coletânea, os efeitos de Cronos esculpem os corpos. Freud conta que pela primeira vez se percebeu velho ao olhar seu reflexo em um espelho; Rubem Alves, ao ser observado por uma jovem que lhe cedeu o assento do metrô…

Os poemas selecionados neste terceiro capítulo falam a respeito dessa corporeidade do ser-velho.

Retrato
Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Acidente na Sala
Ferreira Gullar

Movo a perna esquerda de mau jeito
E a cabeça do fêmur
atrita
com o osso da bacia

Sofro um tranco
E me ouço perguntar
Aconteceu comigo
 ou com o meu osso?

E outra pergunta:
Eu sou o meu osso?
Ou sou somente a mente
que a ele não se junta?

(…)

Herberto Helder
(…)

aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
 estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
 não apanho lenços,
não apanho livros,

(…)

Versos de Natal
Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo deste homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo.
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Imagem destaque de Jose Antonio Alba/Pixabay



Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

paulaakkari escreveu 15 postsVeja todos os posts de paulaakkari