Cleyde, 72 anos

Não acredito em alma gêmea. Aprendi com a vida – e com a psicanálise – que se você está procurando sua “metade”, o relacionamento ficará comprometido, porque na verdade, vocês serão “duas metades”. A completude não existe – não se deixe enganar – é melhor estar inteiro e encontrar também alguém inteiro. Aí sim, duas pessoas íntegras poderão desfrutar de uma convivência sadia.

Marisa Feriancic

 

Cleyde-72-anosOs encontros nem sempre são ao acaso, às vezes os amigos dão um jeitinho, mas tudo vale quando se busca ser feliz. Quando esses encontros são certeiros, temos um casalcomo Oduvaldo e Cleyde.

casal de idosos
Nietzsche dizia que as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas com base no diálogo. Isto é o que não falta a eles. Conversei com o casal um longo tempo. Entre o cafezinho e as bolachinhas, a conversa fluía gostosamente – era difícil ir embora – e após 3 horas de bate papo, marcamos mais um encontro… E depois mais outro, para finalizarmos a entrevista.

A idéia era fazer um só texto, mas minha incapacidade de síntese e meu encantamento pela história resultaram em duas entrevistas. Este mês apresento a vocês Cleyde e na próxima edição do Portal do Envelhecimento, o Sr. Oduvaldo, que Cleyde carinhosamente chama de “Du”.

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Embora Cleyde considere o relacionamento deles bastante comum, quem trabalha com relacionamentos humanos há tempos pode constatar a beleza da harmonia do casal que já completou 36 anos.

Pedi à Cleyde que me falasse sobre sua experiência de vida e sobre o envelhecer e ela me relata sua história:

Tive um pai bom, mas muito rigoroso. Eu tinha só um irmão – era a única filha mulher- e nada podia fazer; nem passear, nem ter muitas amigas, nem sair à noite. Começava a escurecer tinha que estar em casa e dentro de casa não se conversava a respeito de nada.

Meu pai era brasileiro, mas teve uma educação italiana, meus avós eram calabreses. Meu pai, apesar de toda intransigência e rigor, era um homem sensacional. Ele pertenceu durante muitos anos a um Coral de São Paulo, era baixo profundo. Mais tarde ele fundou a Associação do Coral e quando se aposentou não conseguiram substituir a voz dele. O baixo profundo era considerado uma voz muito rara. Minha mãe também era uma pessoa boa. Eu não questionava muito, era apaixonada pela minha família. Meu irmão e meus pais eram a minha vida.

Aos 19 anos fui trabalhar numa maternidade e foi aí que comecei a viver e conhecer muitas coisas da vida. Com quase 30 anos, conheci a “razão da minha vida” – o Du (Oduvaldo). Foi meu único amor e foi o escolhido, se não fosse ele não seria nenhum outro. Na época, ele era funcionário de uma Indústria Farmacêutica e freqüentava o Hospital onde eu trabalhava, para tratar de assuntos profissionais com os médicos. Eu dizia sempre que o homem da minha vida teria que me completar. No Du não faltava nada, e eu tentei me aproximar, mas não tinha liberdade nenhuma; não podia sair de casa. Como iria namorar ele? Às sextas feiras quando o Du aparecia lá no hospital, eu estava de cabelo arrumado, unhas bem feitas e roupinha caprichada. Toda quinta feira eu ia ao cabeleireiro. As pessoas brincavam muito comigo, começaram a perceber que deveria ter uma razão para isso. Começou a torcida por nós, mas não eram todos. Minha chefe, uma mãe para mim no hospital, era uma pessoa maravilhosa, mas não tinha muita simpatia por ele. Ele era muito metido, cheio de pose, mas tinha uma bela presença. Não inspirava muita confiança e parecia mulherengo. Foi uma luta. Às vezes ele telefonava para falar comigo, mas a chefe não queria que eu atendesse. As telefonistas me ajudavam, aprendi a mexer no PABX para poder falar com ele. Eu era mais nova, tinha 19 anos, quando comecei a trabalhar, era inexperiente, meio “dodói”.

Um dia, o pai dele adoeceu, teve um AVC, as pessoas do hospital foram avisadas e começaram a fazer visitas a ele. Eu também fui visitar. A partir daí, começamos a conversar mais. Foram cinco anos só conversando.

Homem, naquela época, podia fazer tudo, mulher não. Ele saia à noite, de madrugada e eu não podia acompanhá-lo de forma alguma. Minha vida era bem diferente. Meu pai não permitia. Não podia sair para jantar, nem ir ao cinema. As chances de alcançá-lo eram mínimas. Achava ele inatingível. Após uns 7 anos nessa vida, o Du, contando com a ajuda do meu irmão, conversou com meu pai. Meu pai concordou em outubro e em dezembro nos casamos. Eu comecei a pedir a Deus para me dar o que eu queria, mas se ele não me desse, é porque não poderia ter. Hoje percebo que, saber pedir o que se quer, é importante. Deus vai te dar aquilo que é melhor para você. Naquela época eu pedia 24 horas com o Du, e Ele já me deu 36 anos.

O casamento

Casamos no dia 14 de dezembro de 1974. Eu, com 36 anos e o Du com 40. Decidimos não ter filhos, eu trabalhava em hospital, sabia dos riscos e meu marido concordou comigo. Ele não tinha problema, o problema era eu, a minha idade. Naquela época o risco de ter uma criança com má formação era grande, atualmente os recursos são outros.

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foto do casamente de Cleyde

Fizemos o casamento em casa. Toda família apoiava, meu pai não aprovava, apenas aceitou o fato. Tem coisas que a gente só percebe depois de certa idade. Eu não sei explicar, mas eu sempre confiei no Du. Eu percebia que tudo que eu dava a ele, ele me dava em dobro, aos montes. Se eu dava atenção a ele, a atenção dele para comigo era em dobro.

A casa deles está cheia de recadinhos de amor “do Du” para Cleyde; na porta da geladeira, na porta da cozinha, do quarto, etc..

mensagem de amor na parede de casa

No primeiro ano de casamento, todo mês eu ganhava um presente. Ele sempre fazia surpresas, tinha criatividade e vivência. Eu nunca soube o que era jantar fora antes de casar. Meu pai não tinha o hábito e nem condições. Depois de casados, saíamos bastante e o que mais fazíamos era jantar fora. Íamos às cantinas gostosas, ele queria que eu vivesse um mundo que eu não conhecia.

Cleyde-72-anosDizem que somos um casal invejável, eu não tomo conhecimento disso, acho tudo muito natural. Dentro desse contexto de amor, não sei no que podemos contribuir com as questões do envelhecimento, mas é importante salientar que esses 36 anos de vida não foram acomodados, vivemos intensamente. Mesmo com muitos problemas nas famílias, eu e Du sempre fomos parceiros e cúmplices, nossas famílias sempre fizeram parte de nossas vidas. Claro que ele sempre esteve e está em primeiro lugar, eu também estou em primeiro lugar na vida dele, mas convivemos intensamente com nossas famílias, respeitando as diferenças. Tivemos vários problemas e sempre enfrentamos juntos. Cada dia de dificuldade fortalecia mais a nossa união.

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Cleyde e seu marido em um restaurante

Meu pai adoeceu em 8 de julho de 1984 e no dia 25 de julho, faleceu. Nesse período demos todo o apoio necessário a ele. Meu irmão ajudou, mas não conseguia ficar em ambiente hospitalar. Nós estávamos acostumados, trabalhamos a vida inteira em hospital. Quando meu pai faleceu, minha mãe foi morar com meu irmão, ela era muito dependente do meu pai. Um ano após o falecimento dele, ela também faleceu. Quando os pais de meu marido precisaram de ajuda, fizemos tudo junto novamente. O pai do Du ficou doente cinco anos, acamado. E não tivemos nenhum problema em auxiliar. Minha sogra era uma pessoa muito independente, teve uma doença complicada e morou conosco 10 anos. Não ficava a vontade na nossa casa. Quando ela se viu dependente, foi muito difícil, por melhor que fosse tratada, ela começou a se deprimir. Dei-me conta muito tarde, que talvez fosse melhor se ela tivesse o cantinho dela – mesmo com pessoas cuidando, talvez fosse mais confortável para ela. Fizemos tudo que podíamos para tornar sua vida o melhor possível.

Aposentei-me em 1991 como funcionária pública. Trabalhei durante 32 anos em um hospital, na parte administrativa e sempre achei que a vida da gente tem que ser voltada para algo mais elevado do que o material. Em 1979 eu e o Du fomos convidados a participar de um Encontro de Casais na Igreja São Francisco de Assis (Vila Clementino/SP). Nesse dia, nos convidaram a participar de outros encontros. Começamos a freqüentar a reuniões do grupo e participar de forma efetiva na organização dos eventos. Envolvemo-nos bastante com esse trabalho e quando saímos da Igreja São Francisco fomos procurar uma igreja que tivesse interesse em organizar encontros. Junto com outros casais, iniciamos um trabalho na Igreja Nossa Senhora da Paz – no bairro do Glicério – onde organizamos vários cursos. Nosso trabalho foi crescendo e isso também colaborou no nosso crescimento como casal. Foram surgindo novos convites e novos temas; conversávamos sobre o assunto e definíamos a palestra. É o que fazemos hoje na Igreja São Judas Tadeu.

Portal do envelhecimento – O que é envelhecer para você?

CLEYDE: É não dar muita importância aos anos que estão passando e viver intensamente, viver o presente, o possível para a idade.

Portal do envelhecimento – Quando percebeu que estava envelhecendo?

CLEYDE: Eu ainda não sinto muito a diferença.

Portal do envelhecimento – Por que o envelhecimento assusta? É possível não sentir medo?

CLEYDE: Não é que assusta, entristece. Gostaria de não parar de trabalhar, de produzir, de ter atividades, mas de nada adianta o medo, frente ao inevitável.

Portal do envelhecimento – Como você analisa a questão do envelhecimento feminino e masculino?

CLEYDE: Não acho que é uma questão de gênero feminino ou masculino, acho que cada pessoa envelhece de forma diferente.

Portal do envelhecimento – A religião ajuda a enfrentar o envelhecimento?

CLEYDE: Sim, muito, dá uma sensação de apoio.

Portal do envelhecimento – Alguns idosos reclamam da solidão na velhice? É possível minimizar essa realidade?

CLEYDE: Se durante a vida você se doar genuinamente, com amor, carinho, sem cobranças, o retorno será mais natural.

Portal do envelhecimento – Em média, as mulheres vivem mais tempo que os homens, você concorda que elas envelhecem pior?

CLEYDE: Não sei se elas envelhecem pior, mas o desgaste físico e mental eu acho que é maior.

Portal do envelhecimento – Como você analisa o processo da viuvez?

CLEYDE: Depende muito do casal, é terrível para ambos. Tem que aprender a viver de novo e na solidão.

Portal do envelhecimento – Existe alguma receita de bom envelhecimento?

CLEYDE: Não se preocupar que o tempo está passando e sim vivê-lo intensamente

Portal do envelhecimento – O que falta para melhorar a vida dos velhos no Brasil?

CLEYDE: Acho que já melhorou um pouco, mas ainda falta respeito da sociedade e isso infelizmente, ainda ocorre dentro das próprias famílias.

Portal do envelhecimento – Cuidar e desfrutar da sexualidade é importante para um envelhecimento saudável?

CLEYDE: Sim, a sexualidade do carinho, do afeto, do respeito, da atenção é importante também no envelhecimento.

Portal do envelhecimento – O que mantém um casamento de 36 anos com tanta harmonia?

CLEYDE: A certeza do grande amor que nos uniu, desde o princípio, foi sempre crescente. Iniciou grande, teve espaço para crescer e se Deus quiser, ainda deverá aumentar mais, pois está sendo cuidado e acarinhado para que isso aconteça. É como uma plantinha; tem que regar todos os dias e nós fazemos isso.

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Redação Portal do Envelhecimento

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