Cenários

Em momentos conturbados como estes que vivemos no mundo atual, quer seja político, financeiro ou social, venho propor uma metáfora, os cenários, para que possamos encontrar em nós mesmos, nosso porto seguro.

 

Feche os olhos e respire. Busque um local de calma e plenitude dentro de seu coração. Imagine-se numa praia, deserta, logo ao amanhecer, quando o mar é suave. Na praia tem um rochedo que o mar insiste em banhar com sua espuma. Você vê que uma pessoa se aproxima daquela rocha, observa o mar e joga uma flor para ele. O mar recebe a flor e a encaminha por suas ondas, num movimento gentil de ir e vir que, aos poucos, afasta aquela flor para cada vez mais distante de seu ponto de entrega. A pessoa se vira, volta pelo caminho que veio e aos poucos desce do rochedo e se afasta da praia.

Pense em cada um dos 4 personagens dessa curta visualização – a rocha, a pessoa, a flor, o mar.

O rochedo faz toda diferença naquele cenário. Ele é único e enriquece a paisagem. Está sempre firme, independente dos dias que passam, do mar que o encontra, dos objetivos de quem passa por ali e se vai. Ele está ali, independente do cenário de quem observa. O rochedo se compara ao nosso agora, ao momento que vivemos, ao nosso presente. Ele, o instante, está cercado de variáveis, mas é a nossa certeza de vida – o momento que temos. Foque mais no seu presente. Procure estar mais atento a sua presença firme no aqui-e-agora. Todo cenário vai variar, mas exercitar sua presença a cada instante te tornará sólido, firme e fará a diferença em todo contexto. O presente é você, em sua plenitude, conectado consigo mesmo, no exato momento.

A pessoa, poderíamos dizer, representa as nossas relações. Elas fazem diferença no cenário. Como disse Saint-Exupéry: “cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida, vem, deixa um pouco de si e leva um pouco de nós”. Como a pessoa poderá lembrar-se de sua oferta da flor ao mar sem se lembrar do momento de encontro com a rocha?

A flor ofertada, que navega à mercê do mar pode ser lida como a transitoriedade de nossa vida. Servimos a um propósito, que por vezes não sabemos qual, mas sempre escolhemos um caminho. Somos conduzidos pelo tempo, que nos ensina a surfar nas ondas da existência, sabendo que tudo passará.

O mar, contínuo, gigantesco, força nutritiva, é representado pelo Todo que nos conecta, o cosmo, a eternidade. O mar não existe só para a rocha, para a pessoa ou a para flor. Ele representa a Vida em sentido maior, que não é só o aqui-e-agora. Podemos nos sentir maiores do que nosso contexto, porque somos muito maiores e amplos do que aquilo que se apresenta em cada cenário. Não temos limites para sermos quem somos. Não há certezas nem previsibilidade. Podemos construir o caminho que quisermos, a cada investida, a cada onda na praia, a cada passo que damos. Não é necessário haver apego ao que se foi.

É preciso cuidar do Ser que somos, a cada momento, a cada encontro, a cada propósito, a cada conexão com o nosso coração. Saber estar a serviço desse Ser neste grande Mar que é a vida. Nada nos impede, nada nos maltrata, nada nos atravessa, porque não há nada que nos limite. Expansão, essa deve ser a nossa escolha. Aproveite-se a cada cenário de vida!

Ana Cristina Curi

Ana Cristina Curi

Psicóloga formada pela PUC-MG. Especialista em terapia sistêmica e psicologia transpessoal. Membro do Colégio Internacional de Terapeutas. E-mail: anacristinacuri@yahoo.com.br

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