Celebrando a vida…

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“Havia tanto amor no set que acredito ser possível ver isso na tela”, diz Thomas Vinterberg, sobre a celebração da vida, ao gravar o filme, “Druk, mais uma rodada“.


Para quem pensa em assistir “Druk, mais uma rodada”, uma celebração à vida, e ainda não conhece a obra do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg, apenas um conselho: há que ter fôlego. Vale alguns registros sobre a obra do cineasta: “Festa em Família” surge em 1998 e representa um dos marcos do movimento Dogma 95, lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995. A intenção era criar um cinema mais realista e menos comercial, em um ato de resgate ao que era feito antes da exploração industrial.

Logo no início do filme, já nos sentimos perseguidos pela realidade auxiliada pelo uso quase caseiro da câmera. É como se toda violência, no sentido amplo da palavra, estivesse acontecendo ali, bem ao nosso lado, algo que beira o insuportável.

Depois dessa suposta “festa”, perguntamo-nos: como seguir a vida com tanta verdade? Os irmãos, personagens da vida real, rompem duramente com seus vínculos familiares e acabam por enfrentar tudo que existe de mais cruel, a constatação de que a pior das violências pode acontecer onde menos esperamos, no seio, no colo de papai e/ou na omissão de mamãe.

Assim é Thomas Vinterberg, um diretor sem freios, sem censura, mas com um vasto compromisso com a verdade.

Mestre nas polêmicas, principalmente as relacionadas ao abuso infantil, alguns anos depois, 2012, chega a dolorosa “A Caça” na história do professor acusado de abusar de uma menina no jardim de infância. A acusação não tem fundamento – o espectador sabe – mas o professor é estigmatizado e discriminado. Os amigos o abandonam e ele não tem como provar sua inocência. As reações tornam-se violentas. A caça do título ganha múltiplas conotações.

As pessoas veem e ouvem apenas aquilo que querem e que no momento lhes parece mais conveniente. Palavras são colocadas na boca da menina, supostamente abusada, e assim encontra-se um culpado. Não há clemência, ele recebe a punição, o veredito está dado. Nem mesmo a menina é ouvida porque, “crianças não mentem”. Sim, os adultos querem “a própria verdade”, doa a quem doer. Mesmo que seja uma mentira, há que se convencer dela. Uma vez culpado, sempre culpado.

E agora, o que poderia ser mais devastador? Com certeza, “Druk, mais uma rodada”. Em entrevista, Vinterberg, ao ser questionado sobre o que o inspirou, ele disse:

“Bem, para começar, bastava olhar para meu próprio país, bebemos muito na Dinamarca, mas ainda falamos muito sobre saúde e uma vida razoável e bem-comportada. Então há uma espécie de lacuna entre o nosso comportamento e nosso pensamento positivo sobre nosso próprio comportamento.

Então, deparei-me com esta teoria de um filósofo escandinavo, pensador que disse que, “o ser humano nasceu com uma falta de um pouco de álcool no sangue. A ideia é que se você tem bebido um pouco, sua mente se abre, você não olha para trás, você se torna mais receptivo a outras pessoas, você se torna mais criativo […].

A discussão é se até Churchill estava um pouco bêbado quando ele decidiu enviar 250.000 civis na guerra. A questão é que ele estava, ele ficava um pouco bêbado todos os dias.”

No filme, Vinterberg, tal qual se vê num documentário, ainda sugere que muitas das grandes façanhas da história mundial foram feitas por pessoas que estavam frequentemente intoxicadas com álcool. Pois é, a mesma substância que pode destruir suas vidas e famílias.

Sim, o que está em questão aqui é o abuso do álcool e suas consequências arrasadoras, não apenas nos países escandinavos, aqui também padecemos do mesmo problema, da mesma desgraça. Jovens e adultos iludidos com a catarse produzida pelo excesso. Dizem: “sou melhor com esses poucos goles (ou muitos goles), gosto mais de mim assim, e o mundo, também”.

Em ‘Druk”, conhecemos a história de quatro professores do ensino médio de uma escola dinamarquesa, com destaque para Martin, aquele que comanda a disciplina de história, na soberba interpretação de Mads Mikkelsen, o mesmo professor de “A Caça”.

Quem são esses homens que se rendem à derrocada óbvia? Bem, são pessoas que poderiam ser eu e/ou você, quem sabe invadidos pelo vazio da rotina, uma existência sem motivação, ânimo zero, uma falta de expressão para tudo e para todos. Crise da chamada meia idade? Talvez… mas que fique claro: a iminência de perigo é anunciada a cada cena, desde a inicial.

Diante da vida pessoal e profissional enfadonha, por que não se dedicar à pesquisa, como bons professores que são – obviamente com todos os comportamentos devidamente registrados e monitorados – eles tomam como ponto de partida a teoria que de um psiquiatra norueguês que afirma: o ser humano nasceu com um déficit de 0,05% de álcool no sangue. Tal deficiência seria a causa para a falta de maior traquejo social e criatividade humanas e daí vai…

O “estudo” avança, a dose é aumentada, intensificam-se os efeitos e um acaba por convencer o outro dos benefícios que o álcool pode trazer à vida, até então, monótona e prestes a desabar. Assim os quatro embarcam num looping sem se darem conta dos riscos envolvidos, tal como os adolescentes fazem, todos afirmam um suposto controle e autonomia –“não sou alcóolatra, paro quando quiser”.

Nas entrevistas, Vinterberg conta que a motivação para a trama foi a vontade de pôr em discussão o tema em seu país e realizar um filme que “celebrasse a vida”.

Mas quatro dias antes do início das filmagens, a filha de Vinterberg morreu em um acidente de trânsito com 19 anos. Como o cineasta conseguiu terminar o filme excepcionalmente delicado, terno e, ao mesmo tempo, tão trágico?

“O filme sempre foi destinado a ser uma afirmação da vida e cheio de amor, e até certo ponto… cru”, disse Vinterberg à AFP em entrevista via Zoom. “Mas a tragédia que aconteceu em minha vida deixou todos indefesos e abertos”, nada nos deixa mais vulneráveis, eu diria.

O diretor, emocionado, ainda contou que o entusiasmo de Ida, sua filha, com a história e a demanda por realizar um filme já em plena produção, foram os salvadores de sua saúde mental naquele momento:

“Filmar foi o que me impediu de enlouquecer”, diz o diretor reiteradas vezes nas mesas redondas online que participou com Sofia Coppola e Guilhermo Del Toro, nos festivais de cinema virtuais em que o filme foi lançado.

Algumas frases de Vinterberg

– “Havia tanto amor no set que acredito ser possível ver isso na tela”.
– Sobre a questão do álcool claramente abordada, o filme também é “sobre viver inspirado, sobre esquecer de si mesmo, sobre ser curioso e estar no momento e tudo o que acontece com a bebida”.
– “Há um grupo alarmante de pessoas e países que se conectaram com esta coisa de beber”.
– “Sim, eles bebem de maneira diferente na Califórnia. Eles colocam a garrafa em um saco (de papel), enquanto na Dinamarca os adolescentes correm pelas ruas com as garrafas à vista”.
– “Mas parece que o filme se conecta em um nível diferente e espero que tenhamos conseguido elevar este filme… a um filme sobre algo mais”.
– Sobre sua obra densa e profunda, ele finaliza: “Parece que quando eu cavo meu próprio jardim é quando as pessoas realmente se interessam, também no exterior”.

Entrevistas de Vinterberg
https://www.youtube.com/watch?v=AQPQF_CRWik” e “https://www.youtube.com/watch?v=c5DDe7hFVcs


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-espiritualidade-e-religiosidade-no-envelhecimento/

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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