Cecília Minayo recebe Prêmio Direitos Humanos 2014

Trabalhamos com a violência contra crianças e adolescentes; violência ligada à questão de raça/cor; violência de gênero: contra a mulher e contra o homem; violência contra a pessoa idosa; violência contra a pessoa deficiente; violência contra grupos específicos como a população LGBT; nas prisões; violência no trânsito, violência e mídia, dentre outros, disse Cecília Minayo, a homenageada.

Informe Ensp *  Foto: Roberto Stuckert Filho/PR 

 

cecilia-minayo-recebe-premio-direitos-humanosMaria Cecília Minayo recebeu o prêmio Direitos Humanos 2014 das mãos da presidente Dilma Rouseff em 10 de dezembro, pelas atividades realizadas no Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), que completou 25 anos.

Cecília Minayo, como é conhecida, formou-se em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978). Fez mestrado em Antropologia Social pela mesma universidade (1985) e doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1989). Desde 1997 é editora científica da revista Ciência & Saúde coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz. Sua produção foca metodologia de pesquisa social, violência, saúde coletiva e sociedade. Está, desde a fundação, no Claves, centro que pertence à Fiocruz.

Para falar do prêmio e de seu trabalho à frente do centro, o Informe Ensp entrevistou a professora. Confira a entrevista abaixo.

O Claves foi criado há 25 anos. É exatamente o tempo da chamada Nova República. Trata-se de um período de muitos avanços no que diz respeito à democracia, mas também marcado por chacinas, desaparecimentos entre outras formas de violência. Você poderia nos ajudar a fazer um breve balanço dessas duas décadas e meia de atuação do Centro?

Cecília Minayo: Sim, o Claves nasceu no clima de democratização do país, quando forças intelectuais e políticas tomaram consciência de que não era apenas a violência política – exacerbada na ditadura militar – que assolava o país. Também a violência social vinha aumentando desde a década de 1960 e 1970, perpassando o período de autoritarismo, chegando a constituir um dos problemas cruciais para a sociedade brasileira. Para se ter ideia dessa dimensão, nos anos 1980 e 1990 as violências passaram a constituir a segunda causa na mortalidade geral da população brasileira e a primeira causa na faixa de 5 a 49 anos. Ou seja, no perfil epidemiológico do país, houve uma transição das doenças infectocontagiosas para as enfermidades vinculadas ao estilo de vida, dentre as quais se colocam os agravos – mortes, lesões e traumas – resultantes da violência. Hoje, apesar de apresentar taxas altíssimas, a violência ocupa o terceiro lugar na mortalidade geral, depois das doenças cardiovasculares e das neoplasias, embora continue no primeiro lugar para a população de 5 a 49 anos.

O Centro foi idealizado pelo nosso querido e saudoso Sérgio Arouca em sua gestão como presidente da Fiocruz, junto com Paulo Buss, que na ocasião era diretor da Ensp. A proposta do Claves buscava a criação de um centro interdisciplinar que pudesse trabalhar com a violência do ponto de vista filosófico, sociológico, psicossocial e não apenas epidemiológico como até então era feito pela área da Saúde. Essa proposta original permanece até hoje em todos os nossos trabalhos. Muito foi feito nesse transcorrer de tempo, com muito pouco. Desde o início, estivemos Edinilsa Ramos de Souza, Simone Gonçalves de Assis e eu, como esteios de todo o trabalho realizado, que contou com a importante colaboração de Otávio Cruz Neto, companheiro querido que faleceu há alguns anos. Só agora se abriram os primeiros concursos e devemos isso ao empenho de nosso querido ex-diretor, Antonio Ivo, sendo seguido pela consecução de uma vaga na gestão do diretor Hermano Castro. Portanto, apesar do reconhecimento da importância do Claves, somos uma equipe mínima.

Seria muito longo descrever o papel do Claves nesses 25 anos e farei menção a apenas alguns pontos: trabalhamos com pesquisas estratégicas que são articuladas tanto com a OMS, Opas, Unesco, Unicef, Pnud, Médicos sem Fronteiras, Ministério da Saúde, Ministério da Justiça, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Secretaria de Saúde e de Segurança Pública em nível estadual e várias organizações não governamentais; estivemos presentes e atuamos fortemente na Comissão criada pelo Ministério da Saúde na construção da Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência, trabalhamos na construção de vários planos de ação do MS e da Secretaria de Direitos Humanos voltados à prevenção da violência e promoção da vida; somos Centro de Referência para o MS, para a Opas e a OMS e a Bireme.

Nesse último caso, pela gestão da maior biblioteca virtual brasileira sobre o tema. Temos dois cursos à distância para a formação de profissionais e técnicos da área de saúde voltados para gestores e profissionais da área e para formação de conselheiros tutelares; tivemos um livro premiado pelo “Prêmio Jabuti” e somos um grupo considerado de alta produtividade acadêmica pelo Diretório do CNPQ e pela Pós-Graduação da ENSP. Somos parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do CNPQ sobre Segurança Pública, Violência e Direitos Humanos. Nossa perna latino-americana ainda está curta: estamos articulados a um “Claves” criado na Universidade Nacional de Lanus, Buenos Aires, junto conosco e temos algumas pesquisa multicêntricas que estão crescendo, mas podem evoluir muito mais. Ou seja, continuamos cheios de vontade de crescer e para isso precisamos de muito apoio institucional!

Além de revista sob a forma de números e dados, a violência também é vivenciada no dia a dia pelos profissionais da Fiocruz. Temos exemplos extremos, como a de Jorge Careli, funcionário pela polícia, mas também um cotidiano marcado por barulho de tiros, vidros blindados, sobrevoo de helicópteros. Como é para um pesquisador estar ao mesmo tempo no front e manter uma perspectiva do tema que está tratando?

cecilia-minayo-recebe-premio-direitos-humanosCecília: Nossa perspectiva é sempre histórica. Nossos estudos – sempre com um olho na realidade nacional e outro na experiência internacional – nos mostram que é possível reduzir a violência e que isso acontece mexendo em questões estruturais como a desigualdade, com aumento da educação formal, com a melhora da qualidade de vida, com aumento da consciência sobre os direitos humanos em todos os seus aspectos, com uma segurança pública marcada pela inteligência e não pela violência, com inclusão social e com atuação dos grupos que se dedicam à prevenção e também à promoção da vida. Tudo junto! E também temos consciência de que violência não é apenas criminalidade. A área de saúde trabalha sempre com a perspectiva da proteção, muito mais que da criminalização: trabalhamos com a violência contra crianças e adolescentes; violência ligada à questão de raça/cor; violência de gênero: contra a mulher e contra o homem; violência contra a pessoa idosa; violência contra a pessoa deficiente; violência contra grupos específicos como a população LGBT; nas prisões; violência no trânsito, violência e mídia, dentre outros. Também sempre trabalhamos em colaboração com os grupos e instituições nacionais que pesquisam e atuam sobre violência e para melhorar a segurança pública e garantia de direitos humanos.

A senhora recebeu, esta semana, o Prêmio Direitos Humanos, da Presidência da República. Qual a importância desse prêmio em sua trajetória ?

Cecília: Em 10 de dezembro, recebi das mãos da presidente da República o prêmio Direitos Humanos na categoria Garantia pelos Direitos da Pessoa Idosa. Fui indicada pelo Conselho de Direitos da Pessoa Idosa e pelas organizações que atuam nessa área – instituições junto às quais tenho trabalhado, particularmente na elaboração de planos e avaliação de ações por meio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – e pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos. Fui pega de “surpresa” (…). Fiquei muito feliz e acho que tem muito mais gente que mereceria muito mais que eu estar nesse lugar. Dedico esse prêmio ao Claves, pois nunca fiz nada sozinha e é a essa equipe maravilhosa a quem devo tudo que hoje, pessoalmente, conquistei. Portanto esse foi um prêmio simbólico e acho importante que tenha saído na comemoração dos 25 anos do nosso Centro, a quem o remeto, sem a menor sombra de dúvida!

Para encerrar, vamos falar do quem pela frente. Mais do que a tradicional pergunta sobre os próximos projetos, gostaríamos de saber qual a sua expectativa quanto a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa e democrática no Brasil.

Cecília: Quem já viveu tanto quanto eu acredita no futuro, mesmo quando parece que tudo está ruindo e o caos se instalou no país. O Brasil de hoje é muito mais consciente, exigente e maduro. E mesmo se parece que tudo vai mal é possível vislumbrar mudanças e possibilidades incontestáveis! Isso não é apenas um ato de fé, mas uma perspectiva histórica: o Brasil não é o país do futuro, é o país de hoje, mas em construção. Temos uma sociedade cada vez mais organizada e vamos conseguir seguir no bom caminho com a força e pujança de nossas instituições democráticas e com a energia do povo brasileiro do qual o Claves é parte integrante e atuante!

* Informe ENSP faz parte da Agência Fiocruz. Matéria divulgada aqui. Acesso em 15/12/2014.

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