Carta anônima de um neto a outros netos!

Eu sou neto de uma avó guerreira que apesar de estar fragilizada continua na luta e eu sei que ela gosta de viver, apesar de tudo. Paciência e perseverança têm o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos serem transponíveis. O amor é chave que abre todas as portas para uma felicidade que nos une. O resto é viver!

 

Quando fui para o Estreito da Calheta, uma freguesia portuguesa do concelho da Calheta, Ilha da Madeira, Portugal, em dezembro de 2016, reparei logo que a minha avó tinha problemas com a rotina. Estava magra, desidratada e completamente desorientada. Eu passei cinco dias sem dormir e ela nunca dormia. Estava sempre acordada e como não conseguia andar sozinha, eu ia segurando-a no caminho da casa de banho, cozinha ou mesmo a deslocar-se em casa. Nos limites das minhas forças, reparei que ela respondia aos estímulos, sobretudo do paladar. Então foi quando eu comecei a cozinhar para ela, coisas que ela gostasse. Ela tem sorte porque eu até sei cozinhar mais ou menos!

Bem, depois foi só perguntar para ela, e ela sabe tão bem quais são os medicamentos que ela toma (ela não deixava ninguém mexer nos comprimidos dela) durante as refeições. Na mesa com as refeições prontas perguntava:
– Avó, quais são os comprimidos do pequeno almoço? São aqueles azuis e rosa.
– Avó, quais são os comprimidos do almoço? São uns com uma caixa azul e branco.
– Avó, quais são os compridos do jantar? É um vermelhinho e um amarelo.

Eu fiz isso cerca de uma semana e passados uns quinze dias vi que havia outros problemas de saúde e de higiene pessoal, feridas no corpo e por aí afora. Coisas  que dependia mesmo de um médico, só que a minha avó recusa-se a ir ao médico. A minha avó não facilita porque vem sempre com a conversa que “eu fui médica e sei o que eu faço”, e põe as coisas mesmo complicadas.

Primeiro, ajudei com a higiene pessoal, que foi uma luta terrível porque ela rejeitava a minha ajuda e acabava por ficar tudo nojento, na mesma. Só que houve uma vez que eu acordei com ela aos berros a gritar de joelhos no corredor pela Nossa Senhora, isso pelas 4 e tal da manhã. Eu disse-lhe:

– Avó, a Nossa Senhora mandou-me cá  para eu  te ajudar.

Estive de joelhos ao pé dela e pedi-lhe que me desse a mão. E foi assim que pela primeira fez consegui estar com ela na casa de banho e ajudei-a com a higiene pessoal. Isso fez aumentar a confiança dela em mim.

A minha avó deitava as bulas dos medicamentos fora, por isso era-me difícil saber o que ela tomava e para que tomava. Ninguém da família sabia, porque ela escondia ou deitava fora as informações.

À medida que o tempo passava e ela ia tendo uma rotina, os medicamentos começaram também a sortir efeito e as coisas começaram a ficar mais fáceis de compreender. Então fiz uma agenda com ela e ela aceitou bem.

Então, entre as 9 e 10 da manhã, tem o pequeno almoço com os medicamentos do pequeno almoço. Às 13:30 o almoço com os medicamentos da hora do almoço. O lanche era às 18 horas e sem medicamentos. Jantar, às 21 horas e com os medicamentos. Como a personalidade da avó não é nada fácil, aprendi a lidar com ela. Então, qual é o segredo? Nunca retirar-lhe a autoridade e nunca deixá-la de amá-la só porque existe algo que não percebemos nela. Então bola pra frente.

Hoje em dia a rotina é um pouco diferente, porque eu tenho ajuda. Conseguimos ter uma menina que fica a dormir com a minha avó e eu vou dando-lhe apoio.

Os horários são praticamente os mesmos, só com este nuance. Eu faço com ela atividades, físicas e artísticas, que são: Dança, boxe, pinturas e caminhada, normalmente na parte da tarde antes do jantar. E depois faço-lhe massagens pelo corpo que tem ajudado com a mobilidade dela. Antes ela não deixava ninguém sequer lhe tocar. Mas agora não dispensa uma boa massagem nos pés.

Depois, consoante os dias, fazemos versos e sonetos e até teatro. Serve para ir estimulando a parte criativa dela. Estou a ensinar-lhe uns acordes que aprendei na Internet. Dando o exemplo de Platão: nunca é tarde para aprender algo de novo. Todos desejam viver muito tempo, mas ninguém quer ser velho e minha avó nega a sua velhice de uma forma incrível.

Mas uma coisa é certa, eu detesto cada vez mais as farmacêuticas e a forma como a sociedade vê as pessoas mais velhas. Eu sei que podemos mudar e sou optimista no futuro. O passado não muda, mas olha, o futuro está aí e amanhã serei eu a usar fraldas e espero que sejam de cores. Não importo de usar umas fraldas de cor azul. Por que há só brancas? Que coisa parva.

Espero que esse relato ajude outros jovens como eu a pensar no futuro, talvez em como fazer um manual para jovens que queiram ajudar os seu avós (ou outros) e não sabem bem como. Eu li muita coisa sobre pessoas idosas e fui aprendendo sem desistir porque não é nada fácil e nem tudo é impossível. Mesmo nada. Espero que não seja um cliché, mas paciência e perseverança têm o efeito mágico de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos serem transponíveis.

Ah, e amor, esse tema que William Shakespeare nos mostrou tão bem e que os poetas falam na poesia é chave que abre todas as portas para uma felicidade que nos une. O resto é viver! A força que tiramos do rancor e da irritação é apenas fraqueza. Eu não sou assim porque sou neto de uma avó guerreira que apesar de estar fragilizada, ela continua na luta e eu sei que ela gosta de viver apesar de tudo. Espero que ela consiga chegar aos 150 anos de vida.

Um beijo e desculpem pelo meu mau português.

Em tempo

A minha avó adora plantas. Eu plantei com ela algumas flores na nossa varanda e que agora com a primavera tudo está florido e ela vai lá ver as orquídeas em flores. Eu quero que ela perceba a passagem do tempo. Ela sabe que o tempo não é algo que não volta e isso incomodo-a muito. Portanto, plantando um jardim é trazer flores para si própria e isso faz com que a passagem do tempo não seja assim tão dolorosa para ela. Só é preciso saber regar as flores.

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Redação Portal do Envelhecimento

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