Carta a um jovem ateu

Tempo de Leitura: 2 minutos

Escrevo esta carta para alertá-lo do desconforto que é envelhecer sem fé. Não gostaria que você passasse por algo assim. Quando a velhice chegar à sua porta você vai precisar dela para velejar no oceano de uma vida longeva.


Passei minha vida navegando em oceanos ora muito turbulentos, ora em uma calmaria deliciosa de viver e aprendi com o mar que existe uma força maior que nos guia pelas tantas rotas desconhecidas. Cada onda que arrebenta com fúria faz a embarcação parecer um barco de papel prestes a afundar, como aquelas dobraduras que realizava quando menino para navegar nas águas da chuva do riacho.

A brutalidade da força das águas traz o tremor que é sentido no coração que palpita como se fosse sair pela boca e então algo acontece. É como se alguém nos pegasse no colo para acalmar o medo e assim nos fazemos fortes e donos de uma certeza absoluta que sopra como esperança na alma.

Essa certeza, um dia compreendi que se chama fé e pude finalmente viver essa verdade que se assemelha muito à paz encontrada no mar após as tempestades.

Portanto, meu jovem, se você aprender desde cedo a sentir essa certeza, maiores condições de navegar você terá, afinal o que é a vida senão um mar gigantesco e belo que nos convida a mergulhos profundos e descobertas capazes de modificar para sempre quem somos?

Wikipédia: obra Tempestade no mar de Galileia de Rembrandt

Quando a velhice chegar à sua porta você vai precisar de fé para velejar no oceano de uma vida longeva.

Nos mares que naveguei, pude existir em paz, portanto saiba que quando chegar a hora de findar o meu percurso minha fé irá ajudar a fazer a travessia como quem navega na calmaria.

Tenho pensado em você. Tenho pensado muito em você, tão jovem e com tantas histórias ainda para viver. Sei que meu amor poderá te ajudar a navegar e que nas revoltas da vida você irá conseguir perceber que existe uma força que vai além da imensidão do mar. Consegue entender o que lhe digo? Consegue sentir essa certeza? Consegue finalmente sentir essa fé?

E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. Então, lhes disse: Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? Marcos 4.36-41

Com amor

Seu avô
João do mar

Foto destaque de Moe Magners/Pexels


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Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

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