Carolina de Jesus passada a limpo

“Em minha pesquisa do mestrado, ficou demonstrado que a escrita de Carolina de Jesus não é relevante apenas pelo fato de contrariar a gramática. Se somente isso for considerado, isto é, a sua capacidade de traduzir a voz do povo que faltava na forma de expressar e enxergar seu mundo perdem-se as possibilidades de encontrar em sua obra uma língua literária, aquela que forneceu a matéria-prima para sua escrita. E este é o objetivo da tese”, escreve Raffaella. Para a pesquisadora, estudar a escritora é ter uma postura política em defesa de um tipo de literatura usurpada por uma classe média curiosa do testemunho da favela, mas não da literatura produzida nesse local das margens.

Patricia Lauretti * Fotos: Reprodução Antônio Scarpinetti

 

carolina-de-jesus-passada-a-limpoO cheiro de lixo ficou impregnado no papel. Da mesma forma, as letras, que encontraram espaços vazios onde pudessem se encaixar. Aquele caderno já estava bastante gasto quando Carolina Maria de Jesus (1914-1977) o encontrou, há décadas. Desta vez quem folheava as páginas era a pesquisadora Raffaella Fernandez, preocupada em encontrar ali não traços da personagem: mulher, negra, favelada e catadora de papel, “descoberta” pelo jornalista Audálio Dantas no final dos anos de 1950. Mas a literatura, simplesmente, e o processo criativo que a gerou. Catadora de histórias, a pesquisadora, ao longo de 16 anos, vem recolhendo nas cinco mil páginas de manuscritos que compõem a obra da escritora, o que ela chama de “resíduos” da poética de Carolina. A dedicação de Raffaella já rendeu o trabalho de mestrado que se atém ao best-seller Quarto de despejo e agora a sua tese de doutorado, intitulada “Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria de Jesus”, defendida no programa de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

“Em minha pesquisa do mestrado, ficou demonstrado que a escrita de Carolina de Jesus não é relevante apenas pelo fato de contrariar a gramática. Se somente isso for considerado, isto é, a sua capacidade de traduzir a voz do povo que faltava na forma de expressar e enxergar seu mundo perdem-se as possibilidades de encontrar em sua obra uma língua literária, aquela que forneceu a matéria-prima para sua escrita. E este é o objetivo da tese”, escreve Raffaella. Para a pesquisadora, estudar a escritora é ter uma postura política em defesa de um tipo de literatura usurpada por uma classe média curiosa do testemunho da favela, mas não da literatura produzida nesse local das margens.

Inéditos e dispersos estão seis romances, 101 poemas, 67 crônicas, contos, composições musicais e diversos diários, contabiliza a pesquisadora. Inéditos porque, muito embora Carolina tenha muitos livros publicados, a maioria teve a linguagem “solapada” para usar o termo cunhado por Raffaella. Desde Quarto de despejo até as publicações póstumas atribuídas à escritora, a maior parte das obras disponíveis no mercado não respeitou exatamente a gramaticalidade ou a “gramática oculta” e os projetos literários da escritora e somente chegou a público o que foi considerado o mais palatável de seus escritos. “A obra literária de Carolina de Jesus não foi publicada no grau que ela abrange, enquanto quantidade e qualidade literária tal qual expõe em seus originais. Por isso a supervalorização da sua condição de miséria. A questão do exotismo e da venalidade, que acompanha a condição de ser uma mulher negra e favelada, acontece até hoje”, assinala a pesquisadora.

O exemplo mais marcante do processo de recorte da obra de Carolina talvez seja Diário de Bitita, conforme Raffaella. A autora da tese afirma que as edições brasileiras são uma cópia do texto “estabelecido e traduzido” pela jornalista brasileira Clélia Pisa que, em 1972, recebeu das mãos de Carolina de Jesus dois cadernos manuscritos. Um deles, intitulado Um Brasil para brasileiros, em referência a uma frase de Rui Barbosa, foi transformado na edição francesa do diário, esta utilizada como base para a edição em português, “porém, apresenta acréscimos e correções sugeridas pela editora francesa Métailié e pela tradutora Régine Valbert”, destaca Raffaella. Dito de maneira simplificada, os escritos de Carolina (em português) foram transformados e traduzidos para o francês e então para o português, para o lançamento no Brasil.

O livro mais famoso de Carolina Maria de Jesus tampouco escapou das modificações como já mostrou a professora Elzira Divina Perpétua, da Universidade Federal de Ouro Preto e estudiosa de Quarto de despejo. Raffaella retoma alguns pontos desse estudo em seu doutorado e salienta que o livro, publicado em 1960 e traduzido até hoje para 19 línguas, foi também decomposto, selecionado e formatado “transformado em um texto diferente do original, assim como a estratégia de marketing editorial formatou a escritora numa pessoa ingênua, rasa e sem grandes intentos”, escreve Raffaella.

Bricolagem e reciclagem

O mapeamento dos processos criativos de Carolina de Jesus empreendido pela autora da tese representa uma tentativa de restituir a originalidade do trabalho da escritora. Raffaella esforçou-se para evidenciar de que forma Carolina produzia seus escritos, e sua preocupação em ser publicada e lida. Os manuscritos confirmam um estilo bastante híbrido, que mescla principalmente as influências da literatura do século 19, de romances e melodramas que provavelmente eram descartados no lixo e lidos pela escritora, com a crônica dos jornais, a radionovela e, sobretudo, a oralidade. “Ela mobiliza a linguagem popular falada e escrita na favela e mistura tudo, fazendo uma nova literatura. Ninguém fez isso até então”.

carolina-de-jesus-passada-a-limpoNa mistura de Carolina ela também procura definir o que é literatura. “O escritor faz isso, ele está o tempo todo refletindo sobre o ato de escrever, vai fazendo essa bricolagem. Fui anotando esses momentos, como ela mesclava os discursos literários e não literários criando sua poética de resíduos”, observa Raffaella. Para a pesquisadora, Carolina de Jesus não tem um grande projeto literário definido, mas sim um projeto literário específico da condição de marginalidade social que “canta o agro manto do poeta”, como ela diz, retomando Allan Poe. Com pouco, uma vez que estudou apenas até a segunda série primária, fez muito. “Ela buscava o culto”, pontua a autora da tese.

“Os pássaros cantam na linguagem certa, na linguagem correta e sincera que a própria mãe natureza lhes deu. Falar é bonito quando se fala certo, a linguagem só tem valor quando se trata de nominações estranhas, digo estranhas para vocês, mas não para nos esquecer, os dissabores é o nosso dever pois nós consideramos isso como uma estrada em que viajamos e se estamos chegando no local designado não vejo motivo para lembrar e comentar no trecho da estrada ruim”.

A partir deste texto curto a pesquisadora faz algumas considerações. “Ela tem uma concepção de linguagem, usa palavras rebuscadas e ao mesmo tempo faz uma crítica ao valor atribuído à linguagem em relação à experiência de saber, por exemplo, o que é ser um negro, ou o que é ser um negro tu, tutu e turututú”. No dicionário das línguas africanas, fazendo remissão à língua bantu, Raffaella aprendeu que os termos funcionavam como adjetivos que tinham ligação com aquele que “chegava fazendo mais barulho”, anunciando os níveis de “grosseria” no comportamento dos negros na favela. “A escrita da Carolina é corpórea, por isso não consegui recorrer à teoria literária clássica. Fui buscar autores pós-estruturalistas que abrem o campo das interpretações, porque ela vive a fragmentação de tal forma que não pode ser enquadrada em formas e estilos pré-estabelecidos por visões canônicas”.

Quando a escritora começa a ganhar dinheiro, com as vendas do primeiro livro, passa a comprar cadernos e reescreve o que estava pronto. As modificações são feitas várias vezes e mostram como Carolina de Jesus vai adquirindo repertório. A pesquisadora notou que ela muda as palavras, enriquece a linguagem e vai alterando as histórias a partir de seu imaginário singular. Em determinado trecho da tese Raffaella reflete sobre o seu trabalho de reelaboração: “Errar e experimentar fazem parte do processo de criação artística, colocando em xeque o conceito de ‘autoria’ como aquela que mantém a posição expressa de um determinado estilo de narrar a realidade, pois o devir-escritora em suas obras tem um caráter performático e deglute com anarquia estilos que passam, deslocando e liberando formas burladas, de modo que o como narrar não é tão fundamental quanto o como explorar o conteúdo do universo dos subjugados como substrato fundamental de sua criação, que abrange o tácito e inclui o impensado da potência inventiva”.

Os manuscritos evidenciam o caótico. “Ela tem essa maneira de escrever que é dispersa, esparsa, fragmentada e nômade. Começa num caderno um romance, daqui a pouco é uma poesia, depois um diário, um poema. Ela escrevia de acordo com as circunstâncias e o suporte que tinha em mãos”. A análise da pesquisadora leva em conta o que em teoria literária se chama “crítica genética” e compreende, de acordo com Raffaella, “o entendimento dos gestos, da origem, dos percursos, como se dão as repetições e, associado a isso, o que é ser escritora para Carolina a partir dos originais”.

A pesquisadora encontrou até mesmo pontos em comum entre a constituição dos manuscritos da escritora e o estilo musical do jazz: “em sua obra, há um contratempo quase musical ao estilo jazzístico, de improvisações, reverberações, esquecimentos recordados ou lembranças desvirtuadas, escrita no exílio da intensidade e não mais da intencionalidade, utilização de um improviso que revigora e se faz novo”.

Para Raffaella não acabou por aqui. “Vou seguindo as pegadas de um devir trapeiro da literatura de Carolina de Jesus, reconhecendo uma literatura em porvir ou uma narrativa da iminência”. A pesquisadora define uma “identidade narrativa” para a obra de Carolina de Jesus. “No sentido do Paul Ricoeur que é o tempo e a escrita, ela vai se compreendendo, porque o autobiográfico perpassa todas as obras dela”. No cru da vivência, define, Carolina escreve, e ensaia certa ordem em meio ao caos discursivo e vivido.

* Patricia Lauretti. Fotos: Reprodução Antônio Scarpinetti. Jornal da Unicamp, Campinas, 06 de novembro de 2015 a 15 de novembro de 2015 – ANO 2015 – Nº 643. Disponível Aqui

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