Capacidade de brincar

“Te vira, bota um sorriso nos lábios…” (Gonzaguinha)

Pode parecer falta de seriedade, mas se trata de coisa muito séria. Estamos falando de um sinal de maturidade que nem sempre é percebido e reconhecido como tal.

Waldir Bíscaro *

 

Acontece que, quando se fala de pessoa madura, o pensamento que ocorre para a maioria é de alguém recatado, comedido, equilibrado, serio, nunca um brincalhão, contador de piadas ou de riso fácil; em geral estes predicados são quase sempre atribuídos a pessoas frívolas, pouco sérias, levianas, portanto imaturas.

Muito provavelmente nem todo mundo acredita que maturidade emocional pressupõe senso de humor, mas, se observarmos bem, veremos que, longe de ser um cara chato, sisudão, ranzinza, o sujei¬to maduro é aberto ao riso e ao bom humor. Sabe brincar e fazer gozação com outros sem ofender e, ao mesmo tempo, não se sente ofendido quando os outros o põem na berlinda.

A pessoa de mente saudável costuma apresentar um certo desprendimento das coisas do mundo, o que lhe confere um espírito esportivo e faz com que ela saiba con¬viver e até rir das próprias limitações. Ela demonstra abertura pe¬rante a vida e isso nada tem a ver com infantilismo ou regressão. Muito pelo contrário, somente pessoas saudáveis e não submetidas a preconceitos e formalismos são capazes de expressar sua conduta de forma mais solta e criativa.

Pessoas dominadas pela preocupação com a auto-imagem, “com o que os outros vão falar ou pensar de mim”, é que mantêm uma postura de rigidez. Essas sofrem, porque ficam imaginando que um riso a mais, ou um gesto um pouco mais ousado, vai desmontar toda a estru¬tura pessoal que a muito custo fabricaram.

Essa capacidade de brincar atinge pontos culminantes em certos indivíduos que sabem rir de seus próprios de¬feitos, e mais ainda naqueles que mantêm o bom humor até nos piores momentos, em situações de extrema des¬graça, como ocorreu, por exemplo, com Jan Hus em seu martírio.

Jan Hus (1371-1415), líder político e religioso da antiga Boêmia (atual República Checa) foi condenado a morrer na fogueira. Já amarrado, mantinha o bom humor cantando canções populares e ainda teve tempo de brin¬car com uma velhinha que veio juntar mais alguns gra¬vetos em sua fogueira, dizendo em latim: “Oh! Sancta simplícitas!” (Oh! santa ingenuidade!).

Há também o caso de um santo espanhol conhecido por seu bom humor, São Lourenço (ano de 258). Conta-se dele que em seu martírio foi colocado sobre uma grelha incandescente e teria falado ao seu torturador: Por favor, pode me virar do outro lado que este já está bem passado!

É incrível como o bom humor pode caber até em circunstâncias tão trágicas.

Está provado que cultivar o bom humor é condição para se manter, não apenas a saúde do espírito, como também a saúde orgânica; é que ele além de reduzir a tensão muscular também estimula a produção de endorfinas, aquelas substâncias produzidas no cérebro, responsáveis pelo alívio da dor e pela estimulação sensorial.

Acho que fica claro uma coisa: o bom humor é essencial nas relações humanas, até mesmo nas situações que exigem mais formalidade, como são as situações de trabalho em empresas.

Não vamos porém exagerar e dizer que ele resolve todos os problemas, mas sim que a presença dele ilumina caminhos que levam a soluções antes não pensadas.

Notem que não estou querendo fazer aqui a apologia de um oti¬mismo vazio, que julga vivermos no melhor dos mun¬dos. Trata-se, antes, de uma postura filosófica de quem percebe a precariedade e a transitoriedade das coisas no mundo e avalia os formalismos em seu real valor: pouco, quase nada.

Seu Tonico, meu pai, era bom exemplo de pessoa bem humorada. Um dos últimos episódios de que me recordo, a respeito da demonstração de bom humor do meu velho, foi em uma reunião de fim de ano quando se juntavam filhos, genros e netos lá em sua casa em Ribeirão. Nessa eventualidade, houve algum problema que teria provocado desentendimento entre os presentes e que resultou num clima de baixo moral. Todo mundo meio calado. Meu pai sentiu o clima, não falou nada, saiu de fininho, entrou em seu quarto, vestiu um velho vestido de minha mãe e voltou abraçado com uma vassoura e dançando. Nao foi preciso mais nada. Em dois tempos o clima se recompôs e os sorrisos retornaram.

São Paulo: Março 2013

* Waldir Bíscaro é filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. ?E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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