Candelaria, o filme

A grande beleza do filme Candelaria é revelada nas filmagens do casal: momentos de amor, ternura, cumplicidade e sexo entre um casal de idosos. E com magistrais interpretações dos atores protagonistas.

Maria do Carmo Di Lascio (*)

 

Candelaria, Candela, Cande, nome e apelidos da protagonista do filme, interpretada pela grande atriz cubana Veronica Lynn, nascida em 1931. Simbólica associação com a candela, vela em espanhol, que “ilumina” grande parte das sequências internas do filme, cenário da casa de Candelaria e de seu marido Victor Hugo, interpretado pelo também grande ator cubano Alden Knight, nascido em 1936. A menção à data de nascimento dos personagens os insere no grupo dos idosos acima de oitenta anos.

Após o colapso da União Soviética, Cuba entrou em uma grave crise econômica que ficou conhecida como “Período especial em tempo de paz”. A União Soviética consumia 85% das exportações de Cuba e fornecia petróleo a preços subsidiados. A crise econômica é protagonista da trama. A narrativa se desenvolve a partir e por causa da extrema privação vivida pelo povo cubano, que não tinha alimentos, energia, meios de transporte e produtos básicos de consumo.

Candelaria é introduzida na cena em um dos seus locais de trabalho, um bar ou casa de shows, onde estão ensaiando os músicos que a acompanham como cantora. Uma artista, uma cantora, uma personagem teatral e alegre. A rica música cubana dá o tom no início do filme. Seu marido Victor Hugo também é introduzido em seu local de trabalho tipicamente cubano, uma fábrica de charutos artesanais. A câmera acompanha o seu caminhar arrastado de octogenário até a saída da fábrica. Victor Hugo consegue um reforço para a subsistência do casal, vendendo alguns charutos que consegue roubar da fábrica, no mercado negro.

O tema da pequena contravenção compõe todos os personagens. Todos lutando para conseguir comida ou produtos de subsistência.

Grande parte da narrativa se passa no cenário da casa de Candelaria e Victor Hugo. O melhor retrato da penúria da ilha de Cuba naquele período. Paredes mofadas e descascadas, mobiliário desgastado e a lamparina improvisada com uma vela dentro de um vidro. A casa dos protagonistas nos remete à antológica cena do “Buena Vista Social Club”, de Wim Wenders, quando visita a casa de Ibrahim Ferrer e sua esposa. Enquanto Candelaria e Victor Hugo compartilham uma frugal refeição, o rádio ligado reproduz os discursos de Fidel Castro anunciando que Cuba não vai abandonar os princípios do socialismo, em troca da anulação do bloqueio econômico dos Estados Unidos.

Fazem parte da casa, 5 pintinhos acabados de sair do ovo, que Candelaria trata como animaizinhos de estimação e Victor Hugo e seu amigo Manuel, visitante na casa e coadjuvante da trama, veem como futura refeição. Manuel está construindo uma embarcação para fugir para a Flórida. É atravessador de mercadorias roubadas. Vende os charutos de Victor Hugo para o grande receptador da ilha, chamado de O Carpinteiro.

Candelaria trabalha também na lavanderia de um hotel. Encontra uma bolsa com uma câmera filmadora entre os lençóis sujos e leva para casa. Vai ser interrogada pelo gerente do hotel, como suspeita de ter roubado a câmera. Inicia-se então o filme dentro do filme: o casal se diverte gravando as suas rotinas domésticas.

A grande beleza do filme é revelada nas filmagens do casal. Momentos de amor, ternura, cumplicidade e sexo entre um casal de idosos. Cenas de intimidade belas e desconcertantes. E com magistrais interpretações dos atores protagonistas.

Em uma das cenas de intimidade gravadas pela câmera, Candelaria faz um autoexame das mamas diante do espelho. Um câncer foi diagnosticado e uma médica recomenda o tratamento com cirurgia e quimioterapia.

Em uma sequência em que Victor Hugo e algumas crianças jogam beisebol em uma praça, a câmera é roubada. Desesperado, ele vai atrás do Carpinteiro, o único personagem não cubano, que é o receptador das mercadorias roubadas de Havana. Nos domínios do Carpinteiro, uma surpresa lhe espera.

O filme tem poucas externas, talvez porque como foi filmado em 2017, Havana já está muito diferente da cidade devastada do Período Especial. Em uma das poucas e belas externas, Victor Hugo passeia de bicicleta pelas ruas de Havana, recitando sobre a morte. Candelaria também fala sobre a morte. Em um comovente diálogo com Victor Hugo, ela diz que não vai se submeter ao tratamento. E acrescenta um tom político à sua decisão: “…nesta ilha podemos morrer de fome a qualquer momento…Cuba está ameaçada de morte todos os dias.” Fechando o filme, o casal dança ao som do bolero “Te busco”, interpretado por Celia Cruz.

O jovem diretor colombiano, Jhonny Hendrix Hinestroza, disse que “todas as ideias que sempre quis contar áudio-visualmente surgiram de alguma experiência vivida”. Segundo ele, a história do filme, à qual acrescentou ficção, foi ouvida em Havana. O filme foi lançado em Veneza, em 2017, no festival Venice Days, e arrebatou o prêmio do festival, entre muitos outros prêmios.

Ficha técnica
Direção, produção, edição: Jhonny Hendrix Hinestroza
Diretora de fotografia: Yarara Rodriguez
Roteiro: Maria Camila Arcos e Jhonny Hendrix Hinestroza
Produção musical: Alvaro Morales
Candelaria: Verónica Lynn
Victor Hugo: Alden Knight
Manuel: Manuel Viveros
El Carpintero: Philipp Hochmair
Lançado em 2018 – Disponível na Netflix

(*) Maria do Carmo Di Lascio tem Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo/SP. Fez voluntariado em Lisboa, Portugal, de 10/07/2018 a 12/10/2018, na Freguesia da Câmara Municipal de Lisboa, Centro de Convívio de Idosos da Paróquia de São Paulo e Projeto “A avó vem trabalhar”. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

 

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