Caminhos que levam ao abandono

…A velhice abandonada é um mundo oculto, não se divulga, principalmente agora que o IBGE detectou a longevidade do povo Brasileiro.
Este tipo de assunto mexe muito comigo, pois já estou na 3a idade, aposentado, porém continuo trabalhando, não tenho nenhum familiar vivo, nem parentes próximos, moro sozinho em J. Penha, e com problemas de pressão arterial e circulatório, de modo que tenho muito medo do futuro, sempre fui um profissional extremamente ativo em minha profissão, e aceitar a aposentadoria passivamente teria sido uma sentença de morte.
Não consigo me ver em um asilo, tenho muito medo do futuro, não sei como traçar a continuação da vida.

Dóris Fernandes

 

Caminhos-que-levam-ao-abandonoEste é o depoimento feito por Manoel Jorge Tavares, após ter lido a material de Dóris Fernandes, publicada no Jornal ES Hoje, o qual reproduzimos a seguir, pois trata de um tema que interessa a todos nós, mas que também exige um trabalho em várias frentes. Uma delas é melhorarmos as condições de moradias coletivas existentes para pessoas idosas, para que elas não sejam depósitos, mas lugares de acolhimento e conforto, e que possamos, sim, querer estar nelas em certa altura de nossa vida. E, por outro, perceber que às vezes é melhor estar em uma instituição de longa permanência digna do que em uma casa sofrendo maus tratos ou na mais completa solidão. E ainda planejarmos a nossa velhice.

Reproduzimos o artigo de Dóris Fernandes, até para refletirmos sobre o que ela escreve sobre esta questão e gostaríamos que nossos leitores se colocassem:

Rejeição e carência afetiva são dramas vividos por quem é colocado pela família em instituições de longa permanência – os asilos. Os motivos para serem levados para essas instituições são muitos, de acordo com os parentes. Mas, será que algum deles justifica? Ao olhar para homens e mulheres idosos nestas instituições, a impressão que se tem, é que não!

No Asilo dos Velhos de Vitória, atualmente há recolhidos 86 idosos, entre eles 50 mulheres e 36 homens. Todos chegaram ali por um desses motivos: falta de tempo, condições financeira precária e desinteresse. Situações que os tornam iguais, mesmo que, na trajetória de vida – antes dali – tenham vivido realidades bastantes diferentes.

De acordo com Vânia Freitas Santos, Assistente Social, os familiares têm resistência em ir a instituição. “Quando entramos em contato eles dizem que não podem vir porque têm que levar o neto na escola, não têm tempo ou o joelho não permite subir a ladeira. Existe sempre um impedimento, sempre uma desculpa para o abandono”.

Um dos casos relatados pela assistente social é de um homem que chegou à instituição há cinco anos.”O homem foi internado em 2006, de lá para cá é possível contar nos dedos quantas visitas recebeu. Ele morava sozinho e teve AVC (Acidente Vascular Cerebral). Debilitado a família solicitou o abrigamento. Quem é o familiar que está disposto a doar o seu tempo para cuidar de uma pessoa com problema de saúde?”, questionou Vânia.

No asilo, segundo ela, há todos os tipos de internos e situações que os levaram até lá. Porém, o número de pais e mães que foram ausentes com os filhos é a maior parte. “Infelizmente a maioria deles não foram boas pessoas e, por isso, estão colhendo o que plantaram. São pais que quando o filho tinha 12, 13 anos foram embora de casa. Quando envelheceram retornaram para a primeira família. Então, os filhos se vêem obrigados a cuidarem e os colocam aqui”.

Esta é a situação de uma das internas. A senhora teve 12 filhos, mas deu 11 e ficou apenas com a caçula, com o interesse de que a menina cuidaria dela se algum dia fosse preciso. A relação inexistente de cumplicidade entre ambas resultou num sentimento de obrigação do que propriamente de amor.

O mesmo poderá acontecer com o pai da dona de casa I.F. “Não o trato mal, mas não tenho amor pelo pai que batia na minha mãe, que não ajudava nas compras de casa, que arranjava mulheres na rua, inclusive, que chegou a dizer que eu não era sua filha. Se ele for para o asilo lá eu não vou e provavelmente minhas irmãs também não”.

Tem um caso especial de uma senhora que com a idade, não conseguiu conviver com a estrutura da casa do filho. Os degraus da escada viraram os maiores obstáculos na vida dela e foram determinantes para sua ida para o asilo. “O filho a visita, mas não deixa de ser uma situação de abandono. Nem durante as festividades de fim de ano ela não passa em família”, comentou Vânia.

Fonte: Acesse Aqui

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