Caminhos de um grupo

Foi em 2001. De alguma forma o grupo já existia, mas não havia ainda tomado consciência plena de existir como tal. Em linguagem aristotélica, era apenas “matéria prima” sem “forma substancial”.

Waldir Bíscaro *

 

Se alguém, de fora, tivesse acompanhado o funcionamento do grupo, em suas primeiras atuações, como observador neutro, provavelmente seu prognóstico teria sido pessimista quanto à consistência desse grupo.

Não que faltasse boa vontade e disposição, mas a ausência de um plano racional e não-definição clara de objetivos permitiam prever-se vida curta para o grupo. Os componentes se comportavam como em encontro de amigos. Era algo agradável em si. Não se falava em compromisso ou, melhor, o compromisso se restringia em reunir-se no lugar certo e no dia e horário certos.

No entanto, alguns sinais indicativos de que poderia resultar em algo orgânico já se faziam presentes: as pessoas se conheciam razoavelmente – nome, profissão, estado civil… – signos externos sem maior conteúdo. Ainda um simulacro de grupo de verdade, mas com intenções de vir a ser um grupo. Por enquanto, apenas vir-a-ser.

Conforme o tempo passa e os contatos se amiúdam, o nível de conhecimento se aprofunda e aos poucos se explicitam qualidades, traços, diferenças, mas ainda não é grupo. Falta o essencial: definição de objetivo comum. Por enquanto apenas pessoas que se encontram e trocam ideias.

Mesmo sem ainda ter definido seu objetivo maior ou algum objetivo parcial, o grupo se sustentava como tertúlia, sem qualquer sentido pejorativo que possa conter essa designação. Com certeza, as pessoas que compareciam às reuniões se sentiam bem, se sentiam aceitas, enfim, o clima era sempre agradável, de modo a manter alto o moral dos participantes.

Essa questão de moral de grupo funciona como elemento de ligação e de sustentação da unidade das pessoas e dá certo sentido de identidade, entretanto o moral, por mais positivo, não garante por si só, que o grupo seja produtivo.

Essa efetividade começou ficar mais bem configurada quando a pessoa responsável pela convocação inicial naturalmente se colocou como catalisadora das atividades. Apresentou-se como facilitadora das comunicações, coordenou as falas e sugeriu temas. Essa tomada de posição mais diretiva – ou, se quiserem, mais autocrática – era a dose adequada para um grupo ainda embrionário.

Um dos temas sugeridos e logo aceito pelo grupo foi: “Perdas”. Esse tema apontava para possível saída: Tempo de perdas e com ele, maturidade e envelhecimento. O grupo parecia haver encontrado o mote e esboçava alguns sinais de identidade em torno do tema, com envolvimento efetivo. Maturidade e envelhecimento seriam as marcas do caminho.

Outro passo importante foi a proposta de uma forma de distribuição de tarefas para cada membro. Essa medida iria consolidar a identidade e a consistência do grupo. O que cada um teria a dar ao grupo?

A fase que se seguiu a essa proposta poderia ser definida como “grupo de auto-ajuda”, cada membro se prestando a colocar suas habilidades e conhecimentos a serviço dos demais.

As contribuições iniciais se restringiram ao campo da fisioterapia, uma vez que entre os participantes havia a presença de cerca de quatro fisioterapeutas, juntos há mais tempo. Depois houve atuações de psicólogos, de médico, de odontóloga e de pedagoga com formação em artes.

O primeiro ano encerrou-se sem que houvesse uma avaliação do desempenho do grupo. Sinal evidente de grupo ainda calouro.

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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