Cadeiras invisíveis frente ao espetáculo do envelhecimento

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A peça “As Cadeiras” apresenta dois idosos amargurados com a vida e que olham para o passado com arrependimentos.

Inácio de Azevedo (*)

“As Cadeiras” têm apenas 3 personagens: o velho de 95 anos de idade, a velha de 94 anos de idade e o orador que aparece apenas na última cena. O palco é constituído de uma parede de formato oval que contém 4 portas e 1 janela de cada lado e, no fundo, uma grande porta principal. Na parte de frente do palco, 2 cadeiras. Começa com o velho debruçado na janela e a velha pedindo para que ele feche por conta do odor. Depois a velha senta em uma cadeira e o velho senta no colo dela, no meio da conversa ela elogia seu marido falando da sua inteligência e de todas as possibilidades de profissões que ele poderia ser (presidente-chefe, rei-chefe, doutor-chefe, marechal-chefe) se tivesse um pouco mais de ambição.

Ele retruca o comentário afirmando que foi zelador, ou seja, o marechal de alojamentos. Durante todo o momento em que estão sozinhos conversando a velha reafirma insistentemente como o velho poderia ter tido uma outra profissão se tivesse mais vontade. Ele desabafa falando que cumpriu o cargo de marechal dos isolamentos honrosamente, mas existe uma angústia muito grande pelas pessoas não saberem da sua genialidade.

O velho anuncia à esposa que chamou todas as pessoas da cidade para a casa deles e convocou o orador-chefe para divulgar uma mensagem. O conteúdo desse recado é algo que o sufoca durante toda a vida e nele estavam todas as ideias geniais que o velho mantinha em silêncio. Moram numa torre em uma ilha e, depois de anunciar a reunião, escuta-se os barcos atracando. A campainha toca e entra uma dama invisível e ambos interagem com ela, contando-lhe das suas vidas e curiosidades. Volta-se a escutar o barulho de barcos atracando, campainha tocando e a velha tenta pegar cadeiras para que as pessoas invisíveis se sentem para ouvir o recado. Em certo momento chega tanta gente invisível que se escuta barulho de navios atracando, campainha tocando e portas abrindo e fechando enquanto o velho vai conduzindo as pessoas para seus lugares e a velha corre atrás de cadeiras. O cenário fica repleto de cadeiras.

Todas as pessoas da cidade estão dentro da casa: guardas, bispos, químicos, caldeireiros, inclusive o imperador emocionando o casal com a sua presença. Só faltava chegar o orador. O velho fica conversando com o imperador para que ele não fique impaciente até começar a reunião. Quando o último personagem da peça chega para fazer o fatídico comunicado o velho faz uma última fala: agradece a presença de todos e afirma que a sua missão em vida se cumpriu. Agora é o orador que deve contar a todos, as experiências do casal para a posteridade. O orador e amigo irá expressar toda a filosofia do velho. Esse vai ser o modo como ficarão registrados na história. Fundamentalmente à frente do imperador.

Após a fala, o casal se dirige cada um em direção a uma janela da sala e pulam. Durante essa movimentação, o orador fica paralisado. Olha para o que acabou de acontecer e faz gestos para a plateia invisível, expressando que é surdo e mudo;  a plateia não consegue compreender a mensagem. O orador tenta escrever os sinais em uma lousa de giz, mas ainda assim ninguém consegue captar a mensagem. O sorriso do orador desaparece, sai do palanque, se despede de todos e a peça termina.

O que ela me diz da velhice

A peça “As Cadeiras“, escrita em 1952, por Eugène Ionesco, apresenta dois idosos amargurados com a vida. Ao mesmo tempo que não enxergam uma perspectiva para o futuro, olham para o passado com arrependimentos: o velho sente que a profissão que escolheu não o satisfez, mesmo que adote um termo nobre, “marechal de alojamentos” ao invés do menos requintado: “zelador”. Enquanto isso a mulher faz questão de pontuar todas as possibilidades que ele poderia ter escolhido em sua carreira profissional, ressaltando que o mesmo não teve uma profissão digna. Movido por essa angústia ele decide chamar toda a sua cidade para a sua casa. Um orador iria apresentar a grande filosofia que guardou durante toda a vida e evitar que caísse no esquecimento. Porém, como mostra o trágico final da peça, o orador não consegue comunicar a mensagem e ninguém fica sabendo da grande filosofia que o velho guardou para si por todos esses anos.

O ser humano vive em um mundo onde acredita que tem controle da natureza e dos seus fenômenos. É uma arrogância, uma aposta que a razão consegue explicar tudo e, por consequencia, prever até as piores tragédias. Porém, a morte é algo que o ser humano não consegue evitar. É um enigma indecifrável e que esquivamos o olhar. Como Freud afirma em O futuro de uma ilusão (1928) “É com essas forças, que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização”.

Estamos atravessados por preocupações do nosso cotidiano que a morte parece algo longe e sem sentido quando comparado com os problemas do dia a dia.

Segundo Loureiro (2000), vivemos uma contradição: mesmo o ser humano se reconhecendo como finito no fundo está convencido da sua imortalidade. O distanciamento da morte também está presente na velhice. Da mesma forma que o fim da vida traz muita angústia, a temática do envelhecer também levanta uma inquietude no sujeito. O velho é muitas vezes atrelado a enfermidade e a passividade. É a única etapa da vida que não é romantizada e olha-se como um sinônimo de falta de perspectivas ou uma acomodação natural. Nessa lógica, é a fase que mais se aproxima da morte, tanto temporalmente, quanto pela falta de tensão, uma não vontade que está presente em nosso senso comum. Na esteira desse pensamento, a morte é atrelada à ideia de se ser velho, mesmo podendo ocorrer em todas as idades é vista como algo naturalizado no corpo do idoso.

Portanto, como se reconhece que se está velho? Para Beauvoir (1976) o sujeito se conscientiza da própria velhice pelo olhar que o outro lhe devolve. Nesse processo, que às vezes ocorre de surpresa, no susto, vem atrelado a aproximação do sujeito com a morte e, com isso, a consciência da finitude. As idealizações que ainda não foram frustradas pelo princípio de realidade podem se esfacelar e, por fim, pode ocorrer algo similar com o que se passa na peça: olhar para as escolhas do passado com arrependimento, amargurado.

Milton Nascimento e Lô Borges (1972), nos versos da música “Tudo o que você podia ser” capturam esse sentimento.

“Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser

Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo”

A letra aponta para uma grande idealização do sujeito. É a expectativa de ser uma pessoa melhor, ser um herói. Teoricamente isso silenciaria suas frustrações, daria para ele a completude e, por consequência, um enorme prazer. Porém, algo impede isso. O início da segunda estrofe apresenta o “segredo” que limita a potencialidade do ser. O medo criou o distanciamento entre a expectativa de ser e a realidade que ele vive. Os versos finais mostram o olhar amargurado com o passado, como se fosse um arrependimento pelas diversas escolhas que não tomou, as possibilidades que deixaram de se concretizar. Coloca-se o medo como o culpado de todos os erros.

Porém, o medo é algo fundamental da nossa humanidade, não existe subjetividade sem o medo. A nossa materialidade não nos permite ser todas as possibilidades que esse mundo nos proporciona. A escolha pode ser libertadora, mas também é angustiante, pois ela incondicionalmente provoca uma renúncia. Finalmente, o passado sempre estará acompanhado de uma angústia, principalmente quando a distância entre a idealização e a realidade é grande.

Algumas reflexões finais          

O casal viveu a vida deles com a perspectiva que em algum momento ia se concretizar as idealizações de suas vidas. Porém, a certeza da morte veio para lhes mostrar a finitude da existência e, em decorrência disso, aparecem os arrependimentos das coisas que nunca aconteceram. Nisso entra todas as possibilidades de ser que o velho nunca foi. A aproximação da morte salientou os caminhos que ele deixou de seguir em detrimento do caminho que ele escolheu para a vida dele.

Coloca-se toda a frustação na falta de ambição com a expectativa de que se tivesse mais coragem as pessoas lembrariam dele de outro modo. Existe um arrependimento nos dois pelo fato do velho ser alguém muito inteligente e perspicaz e nunca ter mostrado toda essa lucidez para a sociedade. É por meio dessa lógica que o velho faz o esforço de receber todo mundo para a sua casa. Sua ação dramática faria com que todo mundo eternizasse a existência do casal.

Ele deixaria de ser lembrado como o zelador e ficaria na memória como alguém que fez algo extremamente notável para a sociedade. Entretanto, a peça mostra seu tom trágico quando o orador não consegue transmitir a mensagem. Esse fato amplifica todo o esforço do casal, que foi em vão, e faz com que as pessoas terminem a peça em um tom angustiante. Essa é uma peça que nos faz refletir sobre como queremos ser lembrados pelos outros ao nosso redor e até que ponto essa ideia está próxima da nossa realidade concreta.

Referências
Loureiro A. A velhice, o tempo e a morte: subsídios para possíveis avanços do estudo. Brasília: Editora Universidade de Brasília; 2000.
Beauvoir S. A velhice I: a realidade incômoda. São Paulo: DIFEL; 1976.  
Cocentino, J. M. B; Viana. T. C. A Velhice e a Morte: reflexões sobre o processo de luto. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Vol.14 Mai 2011.
Ionesco, E. As Cadeiras, Editora: Peixoto Neto, São Paulo, 2004
Nascimento, M; Borges, L. Tudo o que você podia ser. Clube da Esquina. 1972

(*) Inácio de Azevedo – Aluno do 5º período da graduação do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Trabalho escrito na disciplina “Velhos nas peças de teatro”, ministrada pela profa. Ruth Gelehrter da Costa Lopes, que teve como proposta analisar como o teatro oferece farto material sobre o processo de envelhecimento contemporâneo. Email: inacioazevedo18@gmail.com


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