Cabelos brancos: meu mais recente Bojador

Até que uma vozinha começou a se fazer ouvir: Por que não parar de tingir o cabelo? Do outro lado, muitas outras vozes se rebelavam: Imagine, como vai ser? O que as pessoas vão pensar de você? Será que alguém vai te convidar para trabalhar? Vão achar que você está velha, na hora de se aposentar…

Marta Gil *

 

cabelos-brancos-meu-mais-recente-bojador“X. Mar Português Valeu a pena?
Tudo vale a pena Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas foi nele que espelhou o céu.”
Fernando Pessoa

Bem, não foi assim tão trágico como o fragmento da poesia de Fernando Pessoa pode fazer crer, mas certamente foi uma decisão difícil: assumir meus cabelos brancos.

cabelos-brancos-meu-mais-recente-bojadorOnde estava a dificuldade? Afinal de contas, os primeiros fios brancos apareceram quando eu ainda estava na faculdade e durante um bom tempo eles ficaram assim, ao natural, bem curtinhos – inspirada na Elis Regina. Sem nenhum problema pra mim, aliás. Minha família sempre criticou mulheres que tingiam o cabelo, usando tons e semitons na sua voz com significados, subentendidos e pausas implicitamente eloquentes.

Depois começaram as pressões de amigos: cabelo branco envelhece!

Daí pra passar hena foi um pulo – também, com essa ameaça! Quem quer parecer velha com 30 anos?

E hena é natural, era usada no Egito e na Índia – justificativas perfeitas para quem morava na Vila Madalena, era natureba, comia macrô, fazia expressão corporal e usava batas indianas, saias longas, tamancos do Dr Scholl – o visual da época.

Quando a hena não deu mais conta, foi o momento das tinturas entrarem em cena. Quem entrasse no banheiro após uma aplicação deduziria que uma chacina tinha acontecido, tamanha a sujeira.

Hora de ir pro salão e experimentar mechas, luzes, vários tons entre louro e castanho, a cor original. Foi um período divertido, quando me autorizei a experimentar mudanças, brincar com minha aparência, variando cortes de cabelo e cores.

Não curto o ambiente de salão de cabelereiro, mas a companhia de um bom livro fazia o tempo passar de um jeito gostoso.

O chato era que, depois de um mês, “elas” apareciam: as temidas e temíveis raízes! Implacáveis e teimosas, reclamavam providências urgentes – e lá ia eu de volta pro salão.

Até que uma vozinha começou a se fazer ouvir: Por que não parar de tingir o cabelo? Do outro lado, muitas outras vozes se rebelavam: Imagine, como vai ser? O que as pessoas vão pensar de você? Será que alguém vai te convidar para trabalhar? Vão achar que você está velha, na hora de se aposentar…

Um dia, encontro uma amiga que não via há tempos: bonita, charmosa, cabelos brancos num corte moderno e – ousadia maior: mechas azuis e lilás! Foi uma revelação.

Próxima cena: consulta com um visagista (profissional em imagem pessoal), que me surpreendeu com uma leitura bastante exata do que revelavam as linhas do meu rosto, o formato dos lábios, o jeito de sorrir. E, quando perguntei se poderia usar cabelos brancos sem ficar parecendo uma velhinha – pois não me sinto assim, absolutamente – ele me tranquilizou.

Saí do salão impressionadíssima com a leitura dele: quanto nós revelamos aos outros e, no meu caso, sem ter noção! E também por perceber, bem concretamente, o quanto a Vida esculpe no rosto, na postura, no olhar e também o quanto nós escrevemos nas linhas do nosso rosto.

A partir daí, as raízes foram desafiadas – e deixaram de ser temidas e temíveis. Há umas duas semanas, o “mago” fez uma alquimia e elas se transformaram em mechas champanhe, a caminho do branco total.

cabelos-brancos-meu-mais-recente-bojadorMas, e o tal Bojador, lá do início? Onde ele entra nessa história?

O cabo do Bojador fica na África, bem na ponta do continente e, na época das Grandes Navegações portuguesas era conhecido como o Cabo do Medo. Ele foi o responsável pelo desaparecimento de muitas embarcações, originando mitos sobre a existência de temíveis monstros marinhos, que atacavam os navegantes e impediam a passagem dos navios rumo às cobiçadas especiarias.

Até que Gil Eanes, em 1434, com um navio pequeno, com apenas um mastro, uma vela e 15 homens na tripulação conseguiu ultrapassá-lo. E, para sua surpresa, viu-se em uma baía plácida, com ventos amenos. O Bojador tinha ficado para trás. Fora conquistado.

* Marta Gil – consultora na área da Inclusão de Pessoas com Deficiência, socióloga, Coordenadora Executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, pesquisadora, colunista da Revista Reação; associada da Ashoka Empreendedores Sociais e membro do Conselho Curador do Instituto Rodrigo Mendes. É autora do livro “Caminhos da Inclusão – a trajetória da formação profissional de pessoas com deficiência no SENAI-SP” (Editora SENAI, 2012), responsável pelo desenvolvimento da Metodologia SESI SENAI de Gestão e Qualificação Profissional para Inclusão de Pessoas com Deficiência; organizou livros e publicações sobre Inclusão, Educação e Educação Profissional; tem artigos publicados; é conteudista de vídeos e de cursos de educação à distância (EAD); participa de eventos no Brasil e no exterior, como palestrante. Email: martaalmeidagil@gmail.com

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