Brinco de princesa

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Certamente o Brinco voltará a florir e eu poderei me vestir de princesa para receber minha velhice que logo mais baterá à porta.


Aos poucos fui transformando o apartamento em um jardim. O gosto pelas plantas herdei da minha avó materna que adorava cavoucar a terra para plantar, ora semeando, ora fazendo mudas para ver brotar e florir. Ali, naquele espaço era então possível encontrar o melhor de nós em cada perfume inalado, em cada beleza da vida germinada nas suas diversas tonalidades de verde, no colorido das flores que pulsa em nosso olhar e das frutas que salivam em nossa boca.

Com minha avó aprendi que jardins são espaços sagrados e que neles podemos nos conectar com o Deus que surge desta força consagrada por nós para habitar nosso íntimo e abençoar nossos passos.

Tentei fazer da sala um belíssimo jardim no quarto andar deste edifício em plena cidade de São Paulo e os trinta vasos, de todos os tamanhos, espalhados pelo ambiente compõem a magia de ter a natureza dentro de casa.

A Renda Portuguesa bastou mudar de lugar para brotar um tanto assim de novas folhas e ao lado da Flor de Maio que floresce sempre muito atrasada, dos vasos de Violetas, Avenca, Begônias e das novas mudas que como hobby passei a fazer com enorme felicidade, se beneficia das enormes janelas deste prédio antigo.

Na lavanderia outros tantos vasos dão graça a esse espaço que está sempre ocupado por roupas que não se findam.

Tentei fazer desta casa um jardim já que agora ela é palco do cotidiano de trabalho de seus moradores.

O vaso de Brinco de Princesa estava imenso e todo florido até a planta adoecer e começar a desfalecer diante dos meus olhos. Cuidar tem seus desafios. Pesquisa na internet, borrifar o tal remédio fedido, trocar toda a terra, podar toda a planta e antes de jogá-la no lixo fazer uma última tentativa deixando o vaso na janela da lavanderia, lugar que escolhi para ser a UTI das plantas convalescentes.

Foto de Valeria Boltneva/Pexels

Ao pendurar as roupas no varal, reparo que a planta brota forte em um verde bem bonito. Certamente o Brinco voltará a florir e eu poderei me vestir de princesa para receber minha velhice que logo mais baterá à porta.

Mas não serei uma princesa qualquer, daquelas sem graça e sem sal. Terei rugas, cabelos brancos e muita vontade de viver. Desta maneira, assim como minha avó sairei por aí com minha pazinha para fazer mudas, dividir para somar e para multiplicar os desejos e afetos na beleza de existir em meio ao jardim que eu mesma faça, afinal só floresce quem cultiva e só envelhece quem tem a sorte de viver na intensidade do tempo.

O dia amanhece ensolarado. Saio do meu quarto para abrir as cortinas das janelas da sala. Vejo a luminosidade brilhar nas folhas do Lírio que anuncia a paz nas suas flores brancas e imensas.

Na janela da cozinha a Hera espicha suas folhas para olhar as Suculentas recém-plantadas que dividem o espaço com as floreiras de mudas e a Espada de São Jorge que reina absoluta como planta protetora das energias da casa.

Pequenas folhas de Violetas começam a brotar da terra e a vida segue seu tempo.

Minha avó resolveu fazer a Praça das Rosas na chácara onde passei a infância. Eu era garota e ao seu lado fizemos várias mudas com as roseiras espalhadas pelo terreno que nos deram galhos para se multiplicar na beleza das flores.

Foto de Huy Phan/Pexels

– Agora é só esperar brotar.

E assim aconteceu. As Rosas brotaram em diversas cores, mas todas em comum no seu esplendor.

Volto ao tempo na lembrança para poder viver o presente e cultivar o futuro repleto de incertezas.

Reviro a terra do vaso de Antúrio para completar a planta com terra nova. “Jardins são espaços sagrados”.

A muda de Jasmim brota com força. Contemplo o pequeno galho enquanto o perfume de Rosas exala na lembrança de tempos felizes.

O dia se finda com um por do sol bonito. Da janela avisto a torre da igreja do bairro que se mistura com o verde do parque.

Em silêncio oro por melhores dias, por velhices dignas e por um futuro de paz. Em prece, respiro fundo e fecho as cortinas.

Amanhã é dia de regar as plantas.

Foto destaque de cottonbro/Pexels


Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

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