Breve reflexão sobre estrutura e suporte familiar

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Muitos aspectos interferem no suporte que as famílias vêm prestando aos seus velhos, um exemplo é a indisponibilidade da mulher devido a sua participação no mercado de trabalho e queda significativa de fecundidade. No estudo SABE observamos que a rede de apoio informal do velho paulistano é significativa, tendo em vista que mais de 50% dos mesmos residem com três ou mais pessoas e que ainda têm, em média, três ou mais filhos vivos, aumentando a possibilidade de receber cuidados informais.

Conceição Aparecida Couto Teixeira Ferreira(*)


Para que possamos realizar uma reflexão sobre as estruturas e suportes familiares, temos que entender o significado destas palavras. Estrutura, segundo o dicionário Aurélio é o que permite que uma construção se sustente e se mantenha sólida, ou ainda, algo que serve de sustento ou apoio. Suporte tem como significado o que serve de sustentáculo a alguma coisa. Sustentáculo nos remete a algo que sustenta ou sustém, suporte, apoio e amparo.

Família traz em sua definição como sendo um conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos, hoje podendo ser reconhecida em novos formatos.

Para Marconi & Presotto (1998), a família é considerada o fundamento básico e universal das sociedades, pois podemos observar sua presença em todas as formas de agrupamento humano, com variações em suas estruturas e seu funcionamento. Tendo em vista que cada família apresenta características próprias e particulares, como poderemos garantir aos nossos velhos a estrutura e o suporte necessário durante esta etapa da vida?

Encontramos entre as funções da família o cuidado com o velho, pois praticamente não existe sociedade na qual o elo indivíduo-família, seja interrompido quando cesse sua utilidade. Afinal, o velho, tendo prestado serviço a vida toda, por sua vez, tem o direito de ser servido.

Velhices possíveis

Quando pensamos nos aspectos apresentados sobre estrutura, suporte e família é necessário refletir sobre algumas teorias e paradigmas relacionados ao envelhecimento. A ideia posta por Marco Túlio Cicero de que a velhice nos traz o afastamento das nossas ocupações, algumas vezes nos tirando a força e nos privando de alguns prazeres, coloca em pauta os pontos negativos do envelhecimento.

Neste processo ocorrem mudanças de formas e funções biológicas e que sofrem influências do meio ambiental e de suas interações, que se dão de formas diferentes para cada indivíduo. Podemos encontrar velhos com a mesma idade cronológica e que podem apresentar aspectos fisiológicos diferentes, resultantes das construções sociais e das escolhas e contexto de cada um.

Mas não devemos pensar que as escolhas são postas de forma igual a todos, pois é fato que nem todas as oportunidades no decorrer da vida se dão de maneira uniforme, caracterizando assim as múltiplas velhices encontradas.

Ao pesquisarmos sobre o envelhecimento biológico, encontramos diversas teorias que tentam classificar, organizar de maneira única estes processos, certo que cada uma delas com suas particularidades, mas também se observa que demostram as mudanças ocorridas entre os funcionamentos das células, órgãos, hormônios e que são unânimes em relação ao desgaste natural do organismo.

No âmbito psicológico encontramos diversas teorias que tentam entender o indivíduo nessa etapa da vida. Quando estudamos a teoria mecanicista entendemos que para os estudiosos da época o desenvolvimento cessava ao término da adolescência.

Já na teoria organicista que sofreu grande influência de Darwin, mas que também deu início à linha Life-span, com grandes contribuições de Erik Erikson que acreditava que o desenvolvimento estava presente desde o nascimento, cabendo ao ambiente dar oportunidades para a manifestação do potencial de desenvolvimento.

Temos ainda outra linha, o paradigma dialético em que as noções fundamentais se dão entre as mudanças e as contradições, um exemplo disso seria a teoria de Piaget que traz a acomodação e a assimilação. Na acomodação a experiência muda as estruturas mentais e na assimilação as estruturas mentais transformam as experiências.

Entre essas e muitas outras teorias e paradigmas, percebe-se a evolução da percepção do sujeito como um ser de múltiplas particularidades e quem compõem um todo que deve ser respeitado.

Redes de apoio informais

Muitos aspectos interferem no suporte que as famílias vêm prestando aos seus velhos, um exemplo é a indisponibilidade da mulher devido a sua participação no mercado de trabalho. Não podemos esquecer ainda da queda significativa de fecundidade que diminui sensivelmente a rede de apoio para as futuras gerações de idosos, sem contar na qualidade deste cuidado prestado, uma vez que a população enfrenta grandes dificuldades financeiras e desta forma a mulher precisa trabalhar para manter o próprio sustento. Não restando muitas vezes tempo para demonstração de afeto entre os envolvidos.

No SABE – inquérito sobre Saúde, bem-estar e envelhecimento -, coordenado pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS) como um inquérito multicêntrico sobre saúde e bem-estar de pessoas idosas em sete centros urbanos na América Latina e Caribe, entre eles o município de São Paulo, pode-se observar que a rede de apoio informal do velho paulistano é significativa, tendo em vista que mais de 50% dos mesmos residem com três ou mais pessoas e que ainda possuem na média três ou mais filhos vivos, aumentando desta forma a possibilidade de receber cuidados informais. O SABE é um estudo multicêntrico longitudinal de múltiplas coortes sobre as condições de vida e de saúde dos idosos, realizado no Brasil pela Faculdade de Saúde Pública.

O objetivo primário do estudo em seu início foi avaliar as condições de vida e saúde das pessoas idosas residentes em São Paulo e projetar as necessidades sociais e de saúde resultantes do rápido crescimento da população idosa. Outro objetivo foi promover um maior diálogo entre a investigação em saúde pública e o estudo do envelhecimento, a fim de fortalecer um trabalho interdisciplinar em que colaboraram epidemiologistas, demógrafos, sociólogos e geriatras.

Quando observamos os dados referentes aos arranjos familiares, encontramos as mais variadas maneiras como isso acontece no município de São Paulo, podendo ser apresentados composições de velhos que moram sós, com o cônjuge, sem filhos (podendo ser incluído aqui outros parentes que moram juntos), com filhos não casados, com filhos casados e ou com outros parentes, deixando evidente que estes arranjos facilitam os cuidados prestados.

Conclusão

Existe uma construção histórica de que a família é a principal alternativa de cuidado, muitas vezes isentando o estado e a sociedade do seu papel neste processo. É necessário um olhar diferenciado para os velhos, pois estamos em constantes mudanças, e caminhando para vivermos cada vez mais e se não houver uma preparação/conscientização para isto, o velho sempre continuará sendo o outro.

Não conseguimos vislumbrar outra alternativa, que não envolva a educação. Uma educação para ser velho, uma educação que desconstrua os mitos de se envelhecer, que mostre este processo como algo que se dá desde o nascimento e não somente pela idade cronológica. E que o envelhecimento possa ser visto como um troféu, e não como um peso a ser carregado.

É necessário a elaboração de políticas públicas que possibilitem as informações sobre o envelhecimento nos programas de ensino das escolas, trabalhando este processo com interdisciplinaridade e promovendo uma conscientização de que velhos todos seremos.

Referências

MARCONI, M.A.; PRESOTTO, Z.M.N. Antropologia: Uma Introdução. 4 ed. São Paulo: Atlas, 1998.

(*)Conceição Aparecida Couto Teixeira Ferreira é Pedagoga Formada pela Universidade Bandeirante de São Paulo. Pós-graduada em Psicopedagogia pelo Centro Universitário Assunção (UNIFAI). Curso básico de Gerontologia pelo Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia. Curso de extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e atendimento pela PUC/SP. Aluna ouvinte na disciplina Saúde Pública e Envelhecimento da Professora Maria Lucia Lebrão na Faculdade de Saúde Pública. Atua com atendimento particular psicopedagógico de crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem. Email: [email protected]

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