Boas lembranças e espaços da casa vividos em família

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Nossas boas lembranças estão associadas aos espaços da casa vividos em família. Há prazeres que ficam gravados na memória e são capazes de despertar sentidos através da imaginação.

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


É fácil encontrar pessoas que resgatem lembranças de momentos inusitados em família apontando elementos da casa. Descrevem uma situação caracterizando o contexto físico, até com muitos detalhes, pois há prazeres que ficam gravados na memória e são capazes de despertar sentidos através da imaginação. Um aroma que lembra a casa da avó, um incidente divertido na sala da casa dos pais. Mas, também, surgem conjecturas sobre o declínio de capacidades que implicam em perda de autonomia, e a consequente certeza de que mudanças foram necessárias para atender reduções impostas nesse contexto.

O escritor e poeta Fabrício Carpinejar nos oferece suas reflexões no livro Cuide dos Pais Antes que Seja Tarde (RJ: Bertrand Brasil, 2018, 111p.), apontando situações que, vividas ou não, nos fazem refletir sobre a condição de vida de pais idosos em suas próprias casas ou nas dos filhos, focando na importância da atenção dada às relações de afeto a serem preservadas.

Nossa vontade é pelo retorno da afetividade das coisas, somos capazes de girar o mundo à cata de relíquias, somos capazes de imersão digital em sites de busca, somos capazes de lances absurdos e irreais no pregão da infância.

O interesse em objetos retrô, como o autor refere, denuncia a possível intenção de resgatar momentos importantes através de objetos, situação muito comum para muitas pessoas. Porém, alerta que o mesmo interesse deve ser mantido com os atores do cenário original, ainda disponíveis, mas nem sempre buscados com a mesma intensidade.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoeceriam e precisariam da gente?

A moradia concebida na juventude pode não ser adequada para receber idosos, o que determina mudanças para que haja garantia de conforto e segurança quando diferentes gerações coabitam em ambientes comuns. Essa realidade impacta em toda a família, o que sugere refletir com antecedência ao considerar a fase da velhice, onde todos podemos chegar.

A felicidade familiar pode ser medida pelo índice de frequência do sofá da sala. Quanto mais a família se encontra na sala, seja para assistir televisão, seja para suspirar pelos excessos do almoço e da janta, mais ela estará unida. Significa que todos preservam um tempo para se olhar nos olhos, para implicar, para se atualizar de afeto. 

Pontua que os sofás preservados, novos, não apresentam sinais de que houve família reunida, encontros sociais e ambiências caracterizadas por encontros produtivos. Nossas boas lembranças estão associadas aos espaços da casa vividos em família. Ao sermos modulares, é possível transformar esses espaços para novas necessidades, sem eliminar sua essência ao longo da vida.

(*) Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta e pesquisa sobre as alternativas de moradia para idosos no Brasil, especialmente sobre a habitação mas, também, o bairro e a cidade que a envolvem. É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo desde 2009, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Texto reproduzido de seu blog “Ser Modular – Harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice”.

Foto de Michael Morse/Pexels


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