Benedita, 65 anos

Desde a antiguidade, o envelhecimento vem sendo encarado como uma fase de caduquice, falência das relações sociais, processo degenerativo e alienação psíquica. Apesar dos avanços da ciência, da tecnologia e farta comunicação, ainda é difícil escapar dos estereótipos da idade avançada.

Marisa Feriancic

 

Não podemos proclamar poeticamente, que é a melhor idade, sejamos realistas; é uma fase de perdas consideráveis e de lutos – de certa forma- recorrentes. Perdemos nossos pais, o cônjuge, os irmãos, os amigos queridos e às vezes – o que é mais assustador – a autonomia e a independência.

Os efeitos do envelhecimento normal são menores do que o nosso preconceito supõe, mas eles existem. Envelhecer é uma arte que só se aprende vivendo. Essa conscientização e aceitação são importantes para que se verifique o arrefecimento de nossas onipotências e ilusões de eternidade. Isto é um trabalho psíquico e ele deve ser constante. Não podemos persistir – com uma mentalidade forjada e estereotipada – nos benefícios da velhice supervalorizando a experiência vivida; ou dos prejuízos, visualizando somente sinais de decrepitude. Precisamos nos inscrever na trama do envelhecimento como indivíduos capazes de refletir, discutir, avaliar, elaborar e validar nossa história.

Penso que é um pouco isso que Benedita faz quando nos fala da importância dos amigos, das dores e amores do envelhecer. Nem colocamos em destaque na nossa conversa, o apreço dos filhos – noras e netos- na nossa existência. Apesar das nossas dificuldades de aceitação, eles formam novas famílias e vão embora. E assim tem que ser. Um antigo professor de psicanálise, já dizia: “Se tudo der certo, nossos filhos nos abandonam”. Esse é o caminho do crescimento emocional, do amadurecimento, da independência, da construção e continuação da vida. Se compreendermos verdadeiramente isso, a existência tem sentido e podemos envelhecer melhor; escrevendo, reescrevendo nossa história e elaborando melhor os ditames da vida.

Benedita,65 anos, é professora aposentada do Estado de São Paulo. Nasceu em Capão Bonito, no dia 13 de outubro 1945. Morou durante muitos anos na capital de São Paulo e atualmente reside em Sorocaba. É viúva há 8 anos, tem 2 filhos casados e um neto de 5 anos. Gentilmente me recebeu em sua casa, para falarmos sobre as questões do envelhecimento.

O que é envelhecer para você?

A pessoa é velha quando não tem mais consciência da realidade, perdeu o prazer nas coisas do cotidiano, tem falta de memória, não participa mais da vida social, se isola do mundo. Não sentimos a velhice enquanto se tem vontade de sair, conversar, ouvir, olhar nos olhos das pessoas. Tem jovem que já é um velho antes do tempo e está fechado para o mundo. E tem idosos abertos a diálogos e à convivência.

Eu me sinto realizada aos 65 anos e tudo que vier agora é lucro. Não me surpreendo com mais nada da vida e acho tudo muito normal, menos o desrespeito, a indiferença e a falta de responsabilidade dos seres humanos.

A única coisa que fica na velhice são os amigos. Se você nasceu, cresceu, envelheceu, teve uma juventude e uma velhice mantendo os amigos você é mais feliz. Quando você vai perdendo os amigos é muito triste. Pessoas que mudam muito de lugar, não fazem vínculos, a tendência é ficar mais sozinho.

Quando percebeu que estava envelhecendo?

Eu senti que estava envelhecendo devido a minha mudança de humor. Acho que fiquei mais seletiva, com menos paciência com os outros. O envelhecimento deixa as pessoas mais sensíveis, assim como uma folha transparente e fina que qualquer vento que bate pode causar um furo.

Por que o envelhecimento assusta? É possível não sentir medo?

Não assusta o envelhecimento, o que assusta é o isolamento, o esquecimento. Enquanto tiver pessoas em volta a vida ainda vale a pena viver.

A religião ajuda a enfrentar o envelhecimento?

Sou católica, mas não frequento igreja. Quando a pessoa se sente muito só, frequentar uma instituição religiosa, pode ajudar no convívio com pessoas com as mesmas crenças e diminui a solidão.

Alguns idosos reclamam da solidão na velhice? É possível minimizar essa realidade?

Você estar só não significa estar isolada do mundo e das pessoas. No mundo em que vivemos atualmente, com tantas alternativas de rádio, televisão, internet, comunicação escrita (palavras cruzadas, livros, cartas, quebra cabeça, etc.) não significa solidão. A solidão está dentro de cada um. Posso estar num grupo de pessoas que nem sequer olham para mim, me ouvem, e nem me dirigem uma palavra. Entro e saio desse grupo sem ser percebida e admirada.

Como você analisa o processo da viuvez? É diferente no homem e na mulher?

Processo de viuvez é uma perda dura, muito difícil porque teve um passado a dois, juntos, e um dia termina. É uma perda da convivência íntima – com um ser humano – muito mais importante que a do pai e da mãe. Para o homem é pior. Ele não tem a destreza da mulher. Ela tem mais facilidade para desenvolver várias atividades e ocupar seu tempo. A mulher supera mais fácil que o homem.

Existe alguma receita de bom envelhecimento?

Envelhecer é ter liberdade para saber o que é melhor para a gente. Nem todos sabem usufruir desta liberdade. Devemos procurar entender as pessoas, não fazer discriminação, nem de religião, nem de modo de viver. É importante estar atenta à saúde, procurar assistência médica quando imprescindível, fazer todos os exames preventivos necessários para a idade.

Cuidar e desfrutar da sexualidade é importante para um envelhecimento saudável?

Isso é muito individual. O sexo pode ser importante para alguns e para outros não. Colocando amor em tudo já é uma satisfação.

O que falta para melhorar a vida dos velhos no Brasil?

Projetos voltados para enfrentar a solidão, núcleos onde pessoas possam fazer amizades, conviver com outros que tenham interesses parecidos. Centro de convivências que possam garantir uma velhice mais digna. Existem condomínios para idosos – com alto poder aquisitivo – que atendem todas as necessidades: assistência médica, boa alimentação, atividades esportivas e outras. A maioria da população não dispõe de recursos para isso.

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Redação Portal do Envelhecimento

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