Bem no Fundo

Que o velho possa ter o respaldo jurídico para ser protegido socialmente e nos lares, afinal, precisamos de um mundo acessível e possível, mas que pena! Problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear: O problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas, como diz o poeta Leminski em sua poesia “Bem no Fundo”.

 

Bem no Fundo (Paulo Leminski)

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nosso problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

 

Não posso deixar de pensar neste poema de Paulo Leminski ao assistir as aulas do Professor Luiz Alberto David Araújo, na PUC de SP, no mestrado em Gerontologia.

O Envelhecimento e o Estado, matéria conduzida por ele de maneira clara para que leigos como eu, possam compreender este mundo de leis, direitos, deveres, políticas públicas e todo e qualquer assunto que nos ajude a compreender o envelhecimento sob a ótica jurídica. Suas aulas têm sido uma interessante oportunidade de acrescentar saberes às condutas profissionais exercidas por nós, seus alunos.

A irreverência do poeta curitibano não sai dos meus pensamentos, talvez como maneira de suavizar esta nova maneira de pensar que tenho, semanalmente, me esforçando para compreender. Tento incentivar, de todas as formas possíveis, o meu cérebro a fazer novas conexões e quem sabe assim não ganhar pontos positivos a favor de um envelhecimento saudável.

Sigo então misturando o atrevimento do poeta com a formalidade do direito e nesta bagunça que se torna pictórica, tento encontrar alguns dos conceitos ditos. Sigo pensando…

Se nossos problemas fossem resolvidos por decreto, o poder executivo estaria, então, dando as ordens necessárias para todo e qualquer ato que em prol das suas resoluções, pudessem ser exercidos a favor de uma vida repleta de fatos e soluções. A felicidade ganharia uma obrigatoriedade justa e precisa.

As mágoas sem remédio tornariam-se nulas pois elas com certeza não teriam tido força suficiente para virar lei. Mágoas, portanto, menosprezadas ou talvez vistas como uma medida provisória caducada por não ter sido votada. Por conseguinte, nossas mágoas tão doidas, não teriam sido consideradas importantes. Que as mágoas sejam provisórias! Passageiras! Em meus pensamentos, a figura do Seu Jamil se sufoca em meio a toda dor que a mágoa lhe causa e eu, espero que ele compreenda de vez, que ao cultivar tanto desgosto, sua doença tem ganhado força. Vamos seguir em frente Seu Jamil! Padecer pelo que já foi é aprisionar-se a um tormento de passado que não deve fazer parte do seu presente. Velhos e velhas libertem-se das mágoas sem remédio! Sob elas: Silêncio Perpétuo!

Os remorsos, vistos e sentidos como arrependimento nos trariam tanta culpa que não caberiam mais nas leis da constituição vigente. Melhor aprender a não mais olhar para eles, afinal, lá atrás não há mais nada e nada mais. Remorsos não cabem mais no regime atual e a vida pede que sigamos em frente sem eles. Abaixo a todo e qualquer remorso! Vamos atualizar nosso viver e que bom seria! Velhos e velhas, o que está feito não pode ser mudado! É fato e consumado.

Percebo na voz do professor, a beleza da advocacia que se parece como um grande jogo de tabuleiro onde são as estratégias inteligentes que movem cada peça.

O resultado do tal jogo seria um viver acompanhado do bom-senso e da justiça. Mas nem sempre é assim e sabemos disso. Que lástima!

Velhos tem seus direitos e o Estatuto do Idoso olha para as velhices com cautela, mas e nos lares? E nas famílias? A verdade é que as relações humanas são complexas e muitas vezes as competências são muito mal repartidas.

Soberania versus autonomia. E a pessoa jurídica se confunde com o indivíduo e com o exercício do poder que dentro dos lares e sobre os velhos, sufoca e cala quem envelhece. As vozes enfraquecem e precisam de uma ajuda maior. Que se cumpram as leis!

Se os velhos soubessem gritar alto fariam entender seus direitos. Mostrariam tudo o que podem fazer independente da velhice e que apenas o que não conseguem fazer cabe ao outro. Outro este, sedento pela autonomia alheia e que se comporta como o todo poderoso capaz de promover intervenções federias nas vidas dos velhos. O jogo não é de tabuleiro, é de poder e está relacionado a quem enfraquece pelo tempo. Injusta esta partida.

O jogo de competência está muito mal dividido, é nítido, e as velhices mostram-se de tal maneira, tão mal compreendidas e prejudicadas em diversos lares e por diversos tipos de relações humanas que os velhos chegam a pensar que o jogo é comprado.

Que o velho possa ter o respaldo jurídico para ser protegido socialmente e nos lares, afinal, precisamos de um mundo acessível e possível, mas que pena! Problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear: O problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas.

 

 

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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