Baby boomers: Por que essa geração mudará a idade?

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A chegada em massa dos cidadãos à “terceira vida” – impregnada de tudo o que aprenderam e conquistaram em uma geração ampla e completa que cresceu ao impulsionar a cultura da emancipação – afetará todos os padrões da sociedade.

Cristina Sem (*)


Os baby boomers se preparam para uma terceira vida, não para a terceira idade. Uma terceira vida impregnada de tudo o que aprenderam e conquistaram em uma geração ampla e completa que cresceu ao impulsionar a cultura da emancipação. Os longos anos de vida que permanecem no papel, com uma longevidade ampliada, os colocam diante de um novo e grande desafio: são eles que romperão as barreiras e a concepção de idade. A reflexão é feita por Michèle Delaunay, ex-ministra da França para as pessoas idosas, que acaba de publicar o livro Le fabuleux destin des baby-boomers, onde reflete sobre o impacto da geração de boomers, que começam a chegar ao “Campo da Idade” e eles o farão em massa nos próximos anos.

Michèle Delaunay fala em seu livro que foram 20 milhões de franceses da era baby boomers e que agora serão a geração da longevidade, e essa é a grande novidade para eles e para toda a sociedade. Um desafio que tem que acontecer para uma mudança “na visão da idade” e o surgimento de diferentes modos de vida; devido ao aparecimento de novos setores econômicos, a necessidade de reformas estruturais, uma mudança de linguagem e imagem também.

Delaunay parte da constatação de que essa geração – nascida de 46 a 73 na França e na Espanha de 58 a 75 – quando atinge a idade da aposentadoria tem cerca de trinta anos para viver ainda. Por esse motivo, e pela trajetória já realizada, ela os chama para estrelar – e está convencida de que o farão -, a revolução da vivência da idade, tornando-a uma realidade positiva e decisiva.

“A identidade de nossa geração – escreve ela – não é tanto o que se há vivido, mas o que se tem que viver e representar no futuro”. Ao lado dessa revolução, diz a ex-ministra, “a de 68 é apenas uma modesta sessão de treinamento”. O ensaio penetra cada um dos aspectos dessa “terceira vida”, passando por alguns tópicos principais. O da liberdade é fundamental porque é um elemento característico de uma geração que lutou pelo avanço dos direitos sociais e pela igualdade entre homens e mulheres.

“Vamos cuidar da liberdade como um jardim – diz Delaunay – (…). A grande idiotice que os boomers não devem fazer é limitar seus desejos, suas habilidades, suas ambições, deixando-se levar por uma concepção da idade do século passado”.  No contexto da França, a geração de baby boomers abarca aqueles que nasceram entre 1946 até 1973, os anos em que teve muitos nascimentos até a chegada da crise do petróleo. Nesse período de quase trinta anos, distingue-se um primeiro período dos nascidos até 1955 e um segundo até 73.

Na Espanha, a cronologia não é a mesma, embora a análise sociológica extrapole. Conforme assinala o sociólogo Pau Miret, pesquisador do Center d’Estudis Demogràfics (UAB), a geração de baby boomers na Espanha inclui os nascidos entre 1958 e 1975. Não é até o final dos anos 50 quando a natalidade começa a crescer com o desenvolvimentismo e o fim dos anos difíceis do pós-guerra. Na Espanha, diz Miret, os baby boomers terão mais peso do que na França, porque a fertilidade não caiu da mesma maneira no país vizinho. Lá, a revolução já está ocorrendo, e aqui se começa a repensar o que significa ter 60, 70, 80… anos.

Delaunay escreve que as melhores qualidades das idades que chegam são ilesas e as que não foram usadas estão disponíveis e prontas para serem exercitadas. A questão da idade da aposentadoria no mundo do trabalho é um daqueles pontos que coloca como referência para enfrentar o que vem com uma “nova filosofia de vida e não uma concepção de velhice” e com um projeto que – pequeno ou grande – tem que ir se preparando. Projeto que analisa desde o impacto na economia e a geração de novos espaços de negócios, pensões e a necessidade de repensar a idade e os cálculos da aposentadoria, e aposta em um pacto de gerações.

Ela ressalta que a morte também mudará, pois será uma geração que reivindicará decidir sobre ela e na qual as mortes obviamente aumentarão com o tempo. Portanto, temos que nos emancipar da idade, assim como os boomers se emanciparam de outros espartilhos sociais. A autora considera que esse projeto de construção de um “novo mundo” é a novidade “mais radical e mais humana” que se apresenta na sociedade ocidental.

Apesar do otimismo da análise, não é tão simples assim e exige a conscientização de toda a geração, que é chamada para dar força uma à outra. A aposentadoria deve ser preparada, escreve Delaunay, com o mesmo cuidado com o qual se tem com a entrada no mundo profissional. E devemos incluir neste novo projeto vital os “outros”, os amigos, os vizinhos, formar equipes, solidificar os vínculos. Tornar-se alguém “além do uniforme” que cada um colocou no trabalho.

A idade deve deixar de ser uma identidade em si mesma, e um dos principais problemas a enfrentar é o idadismo, o ageísmo, a discriminação etária que existe amplamente na sociedade. Uma discriminação comparável a como era o sexismo há 50 anos. Essa geração que chegará em massa não permitirá que seja tratada com “humilhações, que os identifique ligados à perda de energia e a não valorização”.

Para isso, temos que defender uma mudança na mídia, na publicidade, nas redes sociais, nas campanhas de todos os tipos para parar de vincular idade com dependência. Mesmo na dependência, eles também reivindicarão autonomia. A autora enfoca o debate na aposentadoria. Considera absurda a aposentadoria a partir de uma idade fixa; propõe facilitar a porta de entrada laboral aos jovens para escreverem algumas trajetórias no campo do trabalho que podem ser flexíveis, principalmente no final.

O ageísmo é observado no mundo do trabalho quando, após os 50 anos, dificilmente alguém pode ser promovido, o que leva ao desânimo e ao absentismo. Nesse aspecto, Pau Miret enfatiza o fato de acompanhar a pergunta de sempre: e as aposentadorias? Com pré-aposentadorias como as que se está vendo, com pessoas na casa dos 50 anos que são retiradas do mercado de trabalho, diz ele, é absurdo falar em baixas taxas de natalidade. Aqueles que são afastados do mercado são pessoas com capacidade plena para contribuir.

Junto à essa geração que está sendo chamada a mudar o conceito de idade, também cresce uma economia: de prazer, de cuidado, de relacionamentos, de novos modos de vida. E as autoridades públicas terão que pensar em como tirar proveito de todo esse capital humano. Os boomers batem na porta de sua terceira vida com o lema, escreve a autora: “Nunca nada para nós sem nós”.

(*) Cristina Sem Articulista do jornal La Vanguardia. Tradução livre de Dhara Lucena.

Foto destaque: RUN 4 FFWPU


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