Avosidades

Ser avô não depende de idade cronológica nem de papel social. A avosidade é uma função determinada na estruturação psíquica do sujeito, a qual a transmissão entre as gerações ocorre por processos psíquicos inconscientes constituintes de subjetividades. A família é o lugar designado para esta transmissão transgeracional, onde ocorrem os diversos mecanismos de identificação.

Thaís Araujo de OP de Carvalho (*)


Como posso ser avô se não tive avô? Como posso ser avô se eu não fui neto? O que é ser avô? O que é avosidade? Se eu não tiver tido avô presente como posso entender qual é o papel? Eu aprendo com aquilo que eu vivencio. Deste modo é que se formam em mim as bases e os princípios para o que eu serei no futuro. Apenas algumas reflexões…

 Refleti sobre os depoimentos que tenho recebido de avós e suas relações com seus netos. Comparando a experiência de ser avô entre clientes, percebi que a avosidade se dá pela forma que vivenciamos este papel na nossa infância. Quando se foi neto é que se aprendeu a ser avô.

Explicando melhor os casos, A.B., comentou em uma das sessões que, uma vez por semana, quando cuida dos netos, não se sente feliz na função de avô. Outro, C.R., de idade similar, no entanto, sente-se extremamente feliz e completo quando exerce o mesmo papel de cuidar dos netos. O terceiro, N.S. entende sua importância como formador dos membros da sua família. 

Nas três situações os níveis socioeconômicos, tanto de avôs quanto de netos, assim como a quantidade de netos por avô são coincidentes. O que chama a atenção nesses casos são os sentimentos opostos, de satisfação e repulsa, e de obrigação por exercer tal papel.  

A.B., descendente do leste europeu, teve seu avô vivo até os 12 anos. Comenta que sua relação com o ele foi sempre muito “protocolar”, aquele que cumpria com sua obrigação e que o tratava como a um ‘vizinho’, a quem você cumprimenta, mas sem envolver-se ou desenvolver laços. Dava-lhe o jantar, oferecia água… nada além. Não que o avô fosse ruim, mas nunca despertou uma necessidade ou vontade de interação e afeição além da posição hierárquica na família.

C.R., neto de português, lembra sempre com saudades de como seu avô era afetivo, a ponto de hoje querer ser um avô igual àquele que teve como exemplo em sua primeira infância. Apesar da pouca vivência com seu avô, pois o mesmo faleceu quando ainda tinha quase 9 anos, as recordações perduram por uma vida toda, a ponto de deixá-lo emocionado sempre que se recorda de ente tão afável. Como comenta “minha mãe sempre dizia ‘comigo sempre foi um pai duro…duríssimo. Com os netos é um bobo”. 

N.S., chinês, nunca trouxe nenhuma referência sobre o avô. Quando perguntado, não respondia. Não expressava emoções ou reações. Nunca consegui captar se essa pessoa existiu em sua vida. Quando conversamos sobre avosidade comentava sempre que cuidar dos netos, para a filha poder trabalhar, é parte das suas obrigações como cidadão. Ressaltava que ama os netos e sente prazer em estar com eles, mas entende que cuidar deles é sua contribuição com a sociedade, é o “retorno devido” e que é sua obrigação formar, uma pessoa do seu sangue, como um cidadão para a sociedade. Para tal compromisso N.S. tinha estabelecido dois dias na semana para ficar com eles e ensinar o que necessário para a formação dos netos. Desde aulas de grafia chinesa, culinária e regras de como se comportar em locais públicos.

A relação entre avô e netos, a avosidade, segundo Goldfarb e Lopes (2011[1]), depende de vários fatores como a estrutura psíquica daquele que se tornou avô/avó, a história familiar e o meio cultural em que o vínculo se desenvolveu e ainda que o gênero possui uma acentuada diferenciação, pois para a mulher é mais fácil e importante ser avó de forma mais atuante e participativa do que para o homem.

O surgimento do neto, geralmente ocorre na fase da vida em que as mudanças são mais intensas e conflituosas. Concomitantemente na velhice e aposentadoria, quando há as perdas de funções sociais, e, psiquicamente, quando há mudanças na relação consigo mesma, na sua imagem narcísica, nas pulsões e na relação objetal[2].

Ser avô não depende de idade cronológica nem de papel social. A avosidade é uma função determinada na estruturação psíquica do sujeito, a qual a transmissão entre as gerações ocorre por processos psíquicos inconscientes constituintes de subjetividades por meio simbólicos, linguagem e também nas dimensões do imaginário e do real e nos vínculos geracionais familiares[3]. A família é o lugar designado para esta transmissão transgeracional, onde ocorrem os diversos mecanismos de identificação.

Desempenhar o papel de avô/avó e desenvolver a avosidade depende da capacidade de ter conseguido se colocar em um novo lugar na família, de primeiro pai/mãe, patriarca, e ter cedido lugar para o filho/filha assumir o papel do novo pai/mãe na cadeia geracional.

Referências

[1] GOLDFARB, Delia Catullo; LOPES, Ruth Gelehrter da Costa. AVOSIDADE: a família e a transmissão psíquica entre gerações. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Freitas, E.V. 2011. Guanabaro-Kogan, RJ.

[2] MONTEIRO, Evaldo Cavalcante. AVOSIDADE: o exercício da função de avós, as relações e os conflitos. In: 4 CIEH – CONGRESSO INTERNACIONAL DE ENVELHECIMENTO HUMANO, 4., 2015, Campina Grande. Anais CIEH. Campina Grande: Realize, 2015. v. 2, p. 1 – 11. Disponível em: <http://www.editorarealize.com.br/revistas/cieh/trabalhos/TRABALHO_EV040_MD2_SA1_ID27_06092015121015.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2019.

[3] CORREA, Olga B. Ruiz. Transmissão psíquica entre as gerações. Psicol. USP, São Paulo ,  v. 14, n. 3, p. 35-45,    2003. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642003000300004&lng=en&nrm=iso>. Access on: 26  July  2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642003000300004.

(*)Thaís Araujo de OP de Carvalho é formada em Comunicação Social e mestre em Gerontologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: thaisaraujo@me.com


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