Atualidades sobre Odontogeriatria

atualidades-sobre-odontogeriatriaNas 220 Escolas de Odontologia do Brasil não mais de 35-40 têm a Odontogeriatria disponível. Hoje não existem mais de 300 odontogeriatras no Brasil para um universo de quase 26 milhões de pessoas acima de 60 anos, e temos de convir que isto é muito pouco. Esperamos que este quadro mude a partir de agora, quando o Exame do Enade, colocou o “Atendimento clínico odontogeriátrico” como um dos tópicos nos exames, a serem realizados no mês de Novembro de 2016, e que dará o posicionamento das escolas no ranking do MEC.

Fernando Luiz Brunetti Montenegro *

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “as transformações demográficas, sociais e econômicas pelas quais passa a sociedade brasileira impactam as condições de vida e saúde da população, ao mesmo tempo em que geram novas demandas para o sistema de saúde do país”. Ainda de acordo com a instituição, o número de brasileiros acima de 65 anos deve praticamente quadruplicar até 2060. Nesta entrevista (1) o cirurgião-dentista, Mestre e Doutor, Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro fala sobre o assunto.

Como o Brasil cuida hoje da saúde bucal de seus idosos?

Dr. Fernando – Nos programas governamentais pode até existir atendimento voltado para idosos, mas isto não chega à grande massa populacional de idosos que existe hoje. Pode-se destacar o belo serviço feito nos Centros de Referência de Idosos, por todo o Brasil, que tem Odontologia, mas não devemos esquecer que o atendimento é limitado aos moradores na área de abrangência daqueles Centros e não para todos os idosos daquela cidade. Nos Postos de Saúde regulares há claro direcionamento para o atendimento de crianças, jovens e adultos que somados são em maior número que os idosos, considerando que a população de adultos com 60 anos e mais é a que mais cresce no Brasil atualmente. Algumas poucas cidades possuem atendimento voltado aos idosos, mas estas são em número menor que as reais necessidades odontológicas dessa população.

Como a odontogeriatria avalia essa situação? O que deve mudar? E no que pode melhorar?

Dr. Fernando – Deveria realmente existir a cadeira de Odontogeriatria nas Faculdades de Odontologia, pois este é o único caminho para criar mais dentistas com conhecimentos adequados no atendimento para idosos. Nas 220 Escolas de Odontologia do Brasil não mais de 35-40 têm a Odontogeriatria disponível. Esperamos que este quadro mude a partir de agora, quando o Exame do ENADE, realizado pelo INEP/MEC, colocou o “Atendimento clínico odontogeriátrico” como um dos tópicos nos exames, a serem realizados no mês de Novembro de 2016, e que dará o posicionamento das escolas no ranking do MEC. Algumas já se manifestaram, mas existem professores capacitados em tal número?

Os cursos de Especialização em Odontogeriatria, cada vez formando menor número de especialistas, terão entre seus quadros profissionais capacitados a serem professores na área, mas com risco de utilizarem seus conhecimentos para os pacientes de consultório, que são uma minoria populacional. A grande massa de profissionais necessários para atender esses quase 19 milhões de idosos tem de sair das Faculdades de Odontologia. Não consigo entender, e nem outros especialistas em odontogeriatria com quem converso como algo tão claro, necessário e imediato não se cristaliza nas grades curriculares brasileiras.

O idoso hoje tem mais apoio na saúde pública?

Dr. Fernando – Como já dito, existem os Centros de Referência para o Idoso em diversas cidades do Brasil, mas nem todos têm atividades clínicas de odontologia/odontogeriatria. A maioria, especialmente na cidade de São Paulo, atende os idosos de sua região de abrangência – bairros próximos – e isto precisaria ser estendido à cidade toda. Já em localidades menores pode abranger parcelas maiores da população idosa. Postos de Saúde; AMAs; Escolas Públicas Estaduais e Municipais; UBS, entre outras, dão atendimento à toda população, e os dentistas dessas redes provavelmente não receberam informes odontogeriátricos em suas formações universitárias ou de atualização profissional específica. Existem algumas cidades, poucas, diga-se de passagem, em termos nacionais, que buscam dar boa cobertura aos idosos, mas que são influenciadas pelas opções de prefeitos/secretários da saúde e de verbas disponíveis. A continuidade de bons projetos voltados aos idosos sofre muito com as mudanças das prioridades em saúde.

O que precisamos para que o idoso brasileiro possa ter qualidade em sua saúde bucal?

Dr. Fernando: Muita informação dirigida aos idosos; informação preventiva urgente para os pacientes dentados; informação preventiva consistente mesmo para os desdentados totais; informações sobre medicamentos e sua implicações bucais; informações básicas aos dentistas hoje em atendimento clínico voltado para esta faixa etária; informação vinda dos bancos universitários para a massa de dentistas que cursam agora a graduação; maior divulgação da odontogeriatria aos dentistas já formados e a necessidade de cursos breves de atualização ou especialização, com duração média de 24 meses, para os dentistas; que as empresas de convênios odontológicos busquem, ao menos, informar sua rede credenciada sobre atitudes clínicas básicas, e que coloquem a odontogeriatria dentre as especialidades disponíveis, observadas suas particularidades.

Como se vê, há muito a se fazer para solidificar a área em termos de qualidade em saúde bucal para os idosos brasileiros.

Quais dificuldades o odontogeriatra enfrenta hoje no país?

Dr. Fernando – Falta de divulgação à população de sua área de trabalho, por entidades de odontogeriatras e de dentistas; falta de suporte universitário, pois não existem cursos de Mestrado ou Doutorado em Odontogeriatria para formar mais professores na área, com melhor capacitação. Muitas escolas apenas deslocam algum professor de outra área para falar do tema.

Creio também que a grande dificuldade é a desinformação geral de pacientes – a preventiva básica ao menos. Muitos profissionais ainda acreditam que odontogeriatria é só saber fazer um “belo par de próteses totais”. As diretorias e congregações de faculdades de odontologia precisam se conscientizar que brevemente teremos 20 milhões de idosos no Brasil – muitos dentados – e que algo precisa ser feito já. As autoridades constituídas, salvo as cidades exceções, que face às enormes carências que este país continental enfrenta, deveriam se preocupar e agir realmente para atender os milhões de indivíduos que pagaram impostos a vida inteira e que têm direitos a uma atenção à sua saúde bucal nos dias atuais.

Como especialidade, como está a formação do profissional?

Dr. Fernando – A especialidade está voltada apenas aos poucos cursos de especialização que conseguem fechar turmas, nestes dias de tanta estética e mecanicidade. Destas 40 escolas, no universo de 220 no Brasil, em muitas a disciplina ou é curricular e/ou a maioria das vezes, optativa, pois ainda não está incluída na grade curricular obrigatória do MEC. Hoje não existem mais de 300 odontogeriatras no Brasil para um universo de quase 26 milhões de pessoas acima de 60 anos, e temos de convir que isto é muito pouco.

Nota

(1)Entrevista concedida à jornalista do Conselho Federal de Odontologia Moema Pimentel. Publicada originalmente em www.cfo.org.br Junho de 2016. Atualizada para a presente publicação.

* Fernando Luiz Brunetti Montenegro – Mestre e Doutor pela USP – São Paulo; Coordenador do curso de especialização em Odontogeriatria na ABENO – SP; Autor do livro: Odontogeriatria – uma visão gerontológica, Editora Elsevier, 2013. E-mail: fbrunetti@terra.com.br

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