Atividade física associada a um processo de envelhecimento saudável

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“Vivemos um momento marcante e inusitado na história do homem: nunca tantos viveram tanto”. Estas palavras são do médico geriatra Wilson Jacob Filho, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo proferidas no XI Congresso de Ciências do Desporto e Educação Física dos países de língua portuguesa.


O Brasil é um país repleto de diferenças regionais, “vivemos realidades extremas em um mesmo ambiente”: Além das questões urgentes e constantes de saúde pública, há que se ter atenção para uma população que cresce e que atingirá as idades mais avançadas. Em função disto, o médico afirma ser necessário “escolher o nosso futuro modificando, de maneira eficaz, o nosso atual modelo de envelhecimento; caso contrário, estaremos condenados a viver em meio a uma grande comunidade de idosos dependentes e mal assistidos. Apenas esta opção nos permitirá atingir os reais benefícios que esta grande revolução etária pode propiciar ao ser humano: além de viver mais, viver melhor”.

“Atividade física e envelhecimento saudável”, título da apresentação que deu origem ao artigo publicado na Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, ressalta as questões apresentadas acima focando nas “ações que se manifestam por alterações no estilo de vida e que resultam em uma redução do risco de adoecer e de morrer”, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) (1982).

E a prática de atividade física, para Jacob Filho, “vem assumindo papel fundamental nos diferentes níveis de intervenção. Infelizmente, porém, apesar do grande acúmulo de evidências que justificam os seus benefícios, todos os avanços tecnológicos têm propiciado uma progressiva redução das atividades motoras, seja no âmbito da moradia, do trabalho ou do lazer”.

Vivemos a era da lei do mínimo esforço. Controle remoto para a televisão, o som, os brinquedos e até para as cortinas da casa! No trabalho, então, nada se realiza sem os computadores e as intermináveis reuniões de trabalho em que homens e mulheres passam horas sentados. Os jovens crescem diante das “telinhas”; paralisados, quase petrificados, apenas seus olhos se movimentam. Esta aparente facilidade nos atrofia vagarosamente, e as consequências desta imobilidade se farão presentes mais cedo ou mais tarde.

Sedentarismo: fator de risco ou doença
Este quadro alarmante pode ser comprovado pelos números: “A prevalência do sedentarismo é elevada em qualquer faixa etária. Atualmente, torna-se preocupante até em crianças mas, entre os adultos jovens e principalmente nos idosos, chega a cifras superiores a 90%, o que exigirá de todos os profissionais e instituições relacionadas à Promoção da Saúde do Idoso uma verdadeira força-tarefa para reduzir estas estatísticas alarmantes”, alerta o médico.

Todos os estudos que comparam a incidência, prevalência, gravidade, eficácia da terapêutica e mortalidade da maioria das doenças crônico-degenerativas, bem como de suas complicações, demonstram os benefícios da atividade física na vida do indivíduo.

O efeito devastador do sedentarismo envolve todas as idades, ambos os sexos e portadores de diferentes estados de saúde. O geriatra afirma ser comum encontrar em pacientes acamados, geralmente os “muito idosos” (denominação atual para aqueles que têm 80 ou mais anos de idade), um histórico clínico, geralmente circunstancial de dor, queda, ausência temporária do cuidador, condições ambientais, dentre outras,) e que, tiveram com o passar do tempo uma movimentação progressivamente comprometida. Esta condição, segundo ele, é conhecida pela denominada síndrome da imobilidade e constitui um dos cinco principais problemas que podem comprometer a saúde do idoso.

O médico afirma: “Quando devidamente diagnosticada e tratada, há recuperação (por vezes plena) da aptidão motora e consequentemente da autoestima, o que muito contribui para o aumento da independência e da longevidade. Caso não detectada, o paciente passa a ser alvo de inúmeros procedimentos que visam tratar suas consequências, sem que a causa comum seja abordada, o que limita muito a eficácia destas ações”.

O importante é ter em mente que “A atividade física tem-se confirmado como o principal procedimento terapêutico da síndrome da imobilidade, donde podemos entender que o quadro funcional desfavorável tenha se instalado pela progressiva redução da atividade motora e, por intermédio da sua reativação, seja progressivamente revertido”, avisa Jacob Filho.

Para o geriatra, as causas comuns do nefasto sedentarismo entre idosos que pode ser prevenido e tratado pela atividade física, devidamente orientada são:

  • Orgânicas: (…) são poucas as situações clínicas que contra-indicam a sua realização. Exceto nestas, sempre haverá uma alternativa segura para dar continuidade à programação, a fim de não permitir a sua interrupção.
  • Culturais: entender qualquer atividade motora entre as ações cotidianas como sinal de menor status econômico ou excesso de cuidados tornando os idosos cada vez mais passivos a despeito das suas possibilidades de autonomia e independência.
  • Ambientais: trajeto destinado à locomoção de idosos repleto de “armadilhas”: irregularidades do solo, ausência de corrimões, de semáforos, de faixa de pedestres, presença de vendedores ambulantes, ciclistas, skatistas, patinadores, etc. Poucos são os espaços destinados à prática segura das atividades físicas nesta faixa etária.

Atividade física em idosos: conceitos e preconceitos
É fundamental iniciar este parágrafo conceituando atividade física para idosos: é um “fenômeno biológico que envolve a contração muscular”. E isto se faz para descaracterizar uma frequente identidade entre exercício e movimento. Jacob Filho explica: “Em qualquer idade, mas principalmente entre os idosos os movimentos poderão ser limitados (por paralisia e/ ou por dor), o que não contra-indica a realização de contrações isométricas que, além de prevenir a atrofia muscular da imobilidade, também pode ser uma estratégia terapêutica da própria etiologia da lesão”.

“Muitas contratações já estão, neste momento, devidamente fundamentadas, como a importância da atividade física como fator de proteção (ou do sedentarismo como fator de risco) das principais doenças crônico-degenerativas que frequentemente acometem idosos”.

O médico ainda complementa desmistificando a ideia da prática dos exercícios predominantemente aeróbicos como sendo os mais benéficos ao idoso, principalmente quando portador de ampla comorbidade. “Vários trabalhos recentes, porém, têm documentado importantes benefícios do treinamento com pesos para a reabilitação e profilaxia de incapacidade física em pessoas idosas”, diz ele.

Possíveis efeitos da atividade física em idosos
Falando da importância de uma atuação muito mais ampla e dirigida, ou seja, uma ‘funcionalidade global’ do idoso, o geriatra explica que “com a evolução do conhecimento gerontológico, tornou-se mais evidente que o determinante maior do estado de saúde não é um órgão ou sistema isoladamente, mas o estado funcional do conjunto, nele incluindo os aspectos emocionais e ambientais, corroborando o conceito amplificado emitido pela OMS em 1947, no qual ‘saúde é um estado de pleno bem-estar físico, psíquico e social'”.

A atividade física deve ser vista como uma ação real de prevenir doenças e tratá-las através de uma ação terapêutica, combatendo o sedentarismo desde seu início. Com um leque tão variado de possibilidades de atividades, torna-se necessário pensar em outras formas de exercícios, como o desenvolvimento da “capacidade funcional” do indivíduo.

Pensando na preservação da capacidade motora do indivíduo que envelhece, flexibilidade e força diminuídas são as maiores limitações para as atividades da vida diária, tais como: andar em segurança, levantar-se de uma cadeira ou do vaso sanitário, subir ou descer uma escada, cuidar da casa ou fazer compras. O médico ressalta que “as quedas representam importante situação de risco entre idosos, não apenas pela sua potencial capacidade de provocar traumas e fraturas, mas também pelas suas consequências emocionais, hoje conhecidas como ‘síndrome pós-queda’. Atualmente já se reconhece que a redução da força muscular é o principal fator relacionado às quedas em idosos”.

A orientação de um programa para idosos é delicada e deve ser considerada de forma global. A combinação de diferentes estratégias de prática da atividade física, segundo Jacob filho, permite a obtenção de resultados não alcançáveis com qualquer destas atividades isoladamente. Para ele, outros benefícios podem ser buscados: redução de gordura corpórea, aumento da sensibilidade insulínica nos músculos e melhora nos distúrbios posturais e doenças pulmonares.

Possíveis riscos da atividade física em idosos
Finalizando o médico adverte sobre a importância de se ter em mãos um resumo objetivo das condições em que a prática dos exercícios deva ser evitada. Segundo suas palavras: “Um olhar cuidadoso detectará facilmente que isto ocorre apenas em situações muito especiais, o que garante que, na maioria dos casos, a atividade física deva ser estimulada em todas as orientações dirigidas à promoção do envelhecimento saudável”.

Referências
JACOB FILHO, W. (2011). Atividade física e envelhecimento saudável. Disponível Aqui. Acesso em 10/11/2011.

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Redação Portal do Envelhecimento

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