As velhas de A Esposa e Monsieur & Madame Adelman

Tempo de Leitura: 3 minutos

Narrar é organizativo. Envolve visitar lembranças e preencher memórias. Promove a renúncia de sentidos passados e a construção de novos significados para as velhas dos filmes.

“As coisas não valem senão na interpretação delas. (…) Narrar é criar, pois viver é apenas ser vivido.”  (Bernardo Soares em O Livro do Desassossego)

(Alerta de spoiler: o texto abaixo contém revelações dos enredos dos filmes)

Paula Akkari (*)


Em 2019, aos 71 anos, Gleen Close foi indicada ao Oscar por sua atuação no filme A Esposa, baseado no livro homônimo de Meg Wolitzer. A atriz viveu Joan Castleman, cônjuge do escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce), recém indicado ao Prêmio Nobel. Os encaminhamentos ao clímax têm início com a ida do casal e seu filho a Estocolmo, onde o autor será laureado. Na viagem, a situação a qual colocam Joan produz um triste incômodo: ela é tratada como um acessório, como a Outra no sentido beauvoirano. Apesar de ser alguém essencial à funcionalidade do marido, é objetificada e desrespeitada via diversas afirmações de poder e descarada infidelidade.

Instigada por um jornalista, a protagonista rememora seu relacionamento e desvenda  sua dor. Desde jovem, quando as mulheres literatas eram ainda mais escanteadas, desejava criar. Os livros de Joe foram escritos por ela em uma dinâmica inicialmente parceira, que se converteu em um abuso.

Pensando na premissa da mulher ghostwriter, veio à minha mente uma obra que explora-a com menos maniqueísmos: Monsieur & Madame Adelman. Vejamos a similaridade entre os enredos: neste, a protagonista Sarah Adelman (Doria Tillier) redige os livros assinados por seu marido, Victor Adelman (Nicolas Bedos); segredo impublicável, compartilhado com um periodista em uma cerimônia fúnebre.

As críticas do longa ao machismo são irônicas e mais sutis do que as do primeiro, cujo roteiro centra-se no não-lugar da mulher. Sarah é esférica, desejante e implicada nas versões dos fatos; Joan é retratada com melancolia. Porém, além das comparações gerais, há outro assunto que atravessa as duas estórias: a finitude.

Em uma cena bela e pouco cristã, Madame Adelman deixa seu marido partir. Se os afetos que a morte produz em quem fica são ambivalentes, para a protagonista não é diferente. Ela perde o amado com que se relacionou desde a juventude, mas também emancipa o velho Victor de uma demência incapacitante e abre-se para possibilidades obstruídas com a tarefa de assisti-lo.

Já Joe morre repentinamente, em decorrência de um infarto. Joan presencia a dor, o medo, a chegada da equipe socorrista e, enfim, o falecimento. Um ponto cruel e interessante, que remete novamente à presença de sentimentos opostos e simultâneos, consiste no causo ocorrer pouco depois da personagem reconhecer sua vontade de libertar-se do marido.

Mas, o que foi desencadeado por estas mortes?

Por um lado, junto à afirmação da fugacidade e imprevisibilidade da vida, foi apresentado que seu fim pode ser uma alternativa apetecível aos envolvidos. Por outro, criou-se um novo horizonte na vista das protagonistas: o de narração de suas histórias.

Sabemos que assistimos à vida de Sarah a partir de sua versão, posta em palavras nos primeiros momentos de seu luto. A Esposa termina com Joan autorizando-se a fazer o mesmo, escolhendo seus filhos como ouvintes de sua verdade.

Narrar é organizativo. Envolve visitar lembranças e preencher memórias. Promove a renúncia de sentidos passados e a construção de novos significados. A mensagem que destaco dos filmes, portanto, é o convite à fazedura das próprias narrativas. Como ensinam as protagonistas, a velhice é uma oportunidade para realizar este encontro consigo e exprimir a densidade da própria existência.

(*) Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: aulinha.akkari@gmail.com


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