As sensações da infância

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O tema da infância é universal e podemos verificar suas recorrências em milhares de textos literários em qualquer época. Neste texto, a autora goiana Cora Coralina fala de suas sensações.

Por Rafaela Sefrin de Góis e Mônica Luiza Socio Fernandes (*)


A infância pode ser definida como o tempo de experimentações. É nesse período que conhecemos a maior parte das sensações pela primeira vez, e, muitas vezes, durante nossa vida adulta, procuramos novamente aqueles lugares ou as pessoas que estavam presentes no nosso tempo de criança. Nos textos literários, essa busca pelas lembranças da infância é comum. Diversos autores e autoras, desde os pertencentes ao cânone literário a outros que a crítica sequer tomou conhecimento, nos falam desse tempo mágico. A obra da coletânea mourãoenses é rica em conteúdo para análise, faz referência a vários temas universais da literatura, sendo um deles a infância, porém ainda permanecia intacta do ponto de vista da pesquisa. A intenção de comparar os textos das autoras de Campo Mourão com parte da rica produção de Cora Coralina foi motivada não apenas pela temática, mas também devido às condições de produção em que as poesias dessas mulheres surgiam.

Nesse trabalho, procuramos estabelecer de forma comparativa as diferenças na maneira de abordar a temática entre a autora Cora Coralina, referência no cânone literário brasileiro, nascida durante o período da sociedade patriarcal e a de três autoras mourãoenses contemporâneas que retomam, cada uma a seu modo, a temática da infância em suas líricas.

Uma das formas de rememorar o passado é por meio da lembrança sinestésica. É possível encontrar em dois dos poemas analisados das autoras mourãoenses e no poema Antiguidades de Cora Coralina essa volta. Em Cora Coralina, a lembrança do passado sinestésico aparece por meio da visão de um bolo:

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
(…) (DENÓFRIO, 2011, p.137)

Percebemos que o eu-lírico, apesar de se lembrar da visão e da vontade de comer o bolo, reconhece que a sobremesa não era gostosa, mas como é comum às crianças, que costumam gostar muito de doces, sentia muita vontade de comê-lo. Essa vontade muitas vezes não se concretizava, ou pelo menos, não era satisfeita da maneira esperada pela criança, conforme verificamos no trecho que segue:

(…)
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada…
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
(…) (DENÓFRIO, 2011, p.137 e 138)

A partir desse ponto do poema, a lembrança que o eu-lírico tem do bolo não lhe é agradável, é uma lembrança dolorida do tempo em que não podia satisfazer suas vontades de criança. O poema segue denunciando os abusos cometidos pelos adultos, mostrando que o eu-lírico guarda uma lembrança desagradável acerca de seu passado de criança.

Leia o artigo na íntegra em: https://dialogosliterarios.files.wordpress.com/2013/12/57.pdf

(*) Rafaela Sefrin de Góis – Texto escrito para o 20 Encontro de Diálogos Literários – Um olhar para a Diversidade, sob o título “A abordagem da infância em poemas de Cora Coralina e de autoras mourãoenses”, com orientação de Mônica Luiza Socio Fernandes (UNESPAR/ FECILCAM).

Foto destaque de Lukas/Pexels


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