As representações sociais propostas pela mídia

As representações sociais propostas pela mídia atual sobre os idosos apresentam-se, em sua maioria, entre dois polos extremos: do velho como aquele que ainda pode tudo ou como aquele que não pode mais nada.

Carolina Balbino Moreira Ferreira e Ruth Gelehrter da Costa Lopes *

 

as-representacoes-sociais-propostas-pela-midiaAs duas opções são complicadas, pois fogem da realidade. O velho, antes de tudo, é uma pessoa que possui uma história de vida única e uma relação com o mundo também única.

Nos tempos atuais, a mídia se apresenta como portadora de extrema influência na vida das pessoas. Isto é, o que ela diz à população é usado como forma de legitimar discursos, ideias e pontos de vista. Sendo assim, tanto de forma positiva quanto negativa, a mídia cria representações sociais sobre diferentes assuntos, sendo a velhice um deles.

Ainda, tais representações sociais se caracterizam em estereótipos: blocos de significações acerca de um tema que, muitas vezes, impedem o pensamento de uma avaliação real e justa. Pode-se pensar, então, que esses estereótipos criados sobre a velhice e os velhos tenham consequências não somente no modo como os idosos são vistos pela sociedade, mas também, como os próprios velhos se veem.

Refletindo sobre essas questões, trazemos o poema de Cecília Meireles “A velhice pede desculpas”:

“Tão velho estou como árvore no inverno, vulcão sufocado, pássaro sonolento.

Tão velho estou, de pálpebras baixas, acostumado apenas ao som das músicas, à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético dos provisórios dias do mundo: Mas há um sol eterno, eterno e brando e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada: já não é a minha, mas a do tempo, com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu: mas um fantasma de tudo.

Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda: que os destroços, mesmo os da maior glória, são na verdade só destroços, destroços”.

Há um bom tempo, a imagem que vem sendo difundida pela mídia sobre o idoso, principalmente pelo jornalismo, é de alguém extremamente frágil e que, portanto, necessita de cuidados a todo o momento. Este fator trouxe, ainda, a comparação do velho com uma criança. Sendo assim, sua infantilização pode ter sido o principal precursor da outra ideia, a de que o idoso é um fardo, uma vez que precisa, a todo o momento, da atenção de alguém para sobreviver.

Outro ponto bastante ressaltado no jornalismo é a imagem do idoso relacionada a aposentadoria e previdência; velhos em uma enorme fila de espera do recebimento da aposentadoria, por exemplo. Esta, também é traduzida como algo negativo, pois aponta para a exclusão, marginalização e carência que se sofre quando se envelhece.

Desta forma, é possível compreender o porquê do narrador do poema “A velhice…” pedir desculpas em cada estrofe. Ele mesmo se vê como um fardo, isto é, como uma pessoa que nada tem a acrescentar e é somente um “fantasma de tudo”.

Ele, ainda, pede desculpas pela aparência que possui: o que faz lembrar as propagandas de plásticas faciais e corporais existentes atualmente. Parte da mídia exibe o corpo do velho como algo indesejável, oferecendo múltiplas formas de postergá-lo a qualquer preço.

Por fim, o narrador pede desculpas por ainda estar vivo, entendendo a si mesmo como somente “destroços” de alguém que, um dia, já foi jovem.

As representações sociais propostas pela mídia atual sobre os idosos apresentam-se, em sua maioria, entre dois polos extremos: do velho como aquele que ainda pode tudo ou como aquele que não pode mais nada.

As duas opções são complicadas, pois fogem da realidade. O velho, antes de tudo, é uma pessoa que possui uma história de vida única e uma relação com o mundo também única. Assim, não existe somente uma maneira de ser idoso, mas sim uma heterogeneidade de formas de se chegar e se levar essa fase da vida.

A população idosa, assim como a de outras faixas etárias, é heterogênea e deve ser mostrada assim pela mídia (fato este que já vem sendo mais abordado pelas propagandas televisivas). Até porque, ninguém deve se desculpar por ser do jeito que é.

* Carolina Balbino Moreira Ferreira – Aluna do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Email: carolinabalbino@uol.com.br. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. Programa Estudos Pós Graduados em Gerontologia e no Curso de Psicologia, FACHS. Email: ruthgclopes@pucsp.br

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