As oportunidades de uma economia do envelhecimento

Temos uma concepção errada do envelhecimento e da velhice. O primeiro é visto como ruim e a velhice é sempre vista como despesa e não como motor econômico nem oportunidade.

Elísabeth Rodríguez (*)


Em 2050, 40% da população espanhola terá mais de 65 anos, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Iñaki Ortega, diretor da Deusto Business School, explica que essa realidade, longe de ser vista como um problema, deve ser encarada como uma oportunidade para a economia e a sociedade como um todo. Isso se reflete no livro ‘La revolución de las canas’ (A revolução dos cabelos grisalhos), obra que ele escreveu com Antonio Huertas, presidente da Mapfre, e apresentada em Valência (Espanha).

A longevidade é entendida no livro como um fenômeno recente no qual uma grande maioria dos seres humanos atinge idades avançadas em boa saúde. E exemplifica: Na Espanha, no início do século XX, apenas um em cada 100 habitantes atingiu 65 anos, hoje 95% das pessoas os excedem. Isso levou ao surgimento de um novo estágio vital entre os anos 50 e 70, batizado como geração de prata. De acordo com os autores, a revolução dos cabelos grisalhos trará uma mudança radical, pois permitirá que milhões de pessoas dessa idade continuem trabalhando, economizando, criando e consumindo. O que possibilitará o nascimento de novas indústrias para atendê-las e novos empreendedores, muitos deles idosos, encontrando oportunidades onde ninguém pensava que poderia haver.

Qual é o objetivo do livro? Como surgiu a ideia?

Surge como reação a esse mantra que o envelhecimento é ruim. Existem muitos relatórios alertando sobre o envelhecimento, a bomba demográfica, o tsunami da longevidade, a quebra de pensões, a quebra do sistema de saúde… No entanto, todos queremos ver nossos pais bem e que, quando completarmos 60 anos, queremos ter saúde de uma pessoa de 40 anos. Então, resolvemos reescrever, apagando muitos mitos. E depois de estudar e discutir com vários pesquisadores queremos mostrar que a velhice é uma oportunidade e que existem externalidades positivas.

Quais são essas oportunidades?

A primeira é que uma faixa etária que anteriormente não contribuía para a economia agora pode contribuir. Por exemplo, foi o que aconteceu com os imigrantes que vieram e salvaram a economia há 15 anos. Se as pessoas estão bem e têm melhor saúde, elas podem trabalhar mais e contribuir mais. Por outro lado, outra vantagem é a indústria que pode ser gerada em torno das pessoas idosas, que consome há mais de 40  anos. Além disso, se falarmos de uma área como Valência, onde você mora bem, essa opção é ainda maior e você pode gerar uma indústria em saúde, lazer, tecnologia, educação, mobilidade e muito mais. Hoje, 40% do consumo é realizado por pessoas com mais de 60 anos. Temos uma concepção errada da velhice, a vemos como uma despesa e não como um mecanismo econômico. A expectativa de vida é de 82 anos no caso dos homens e 86 nas mulheres

O sistema de pensões está em sério perigo, como esse cenário se encaixa na abordagem que você propõe?

É o outro lado da moeda. Argumentamos que você pode contribuir mais para a economia porque pode trabalhar mais anos. Por outro lado, se você tiver novos nichos de emprego, uma nova atividade econômica poderá ser gerada para financiar o estado de bem-estar. A maioria dos aposentados recebe renda do sistema público, quando nossos vizinhos franceses e ingleses também recebem pensões da empresa. Aqui está uma oportunidade importante a esse respeito.

Mas trabalhar a partir dos 65 anos pode ser inviável em setores específicos devido à sua dureza física…

A ideia é obter flexibilidade para que todos se adaptem ao que podem. Você pode ser professor aos 70 anos, mas não pode trabalhar em campo nessa idade. Deve-se estabelecer um sistema que também facilite a mudança de setores e a permanência ativa, porque a verdade é que a saúde de alguém de 60 hoje corresponde à saúde de alguém de 40 de 60 anos atrás.

Que papel e responsabilidade as empresas têm em contribuir para essa ‘revolução dos cabelos grisalhos’? E a administração pública?

Existem três vértices: cidadãos, empresas e administração. A empresa pode dar a oportunidade de uma pessoa continuar trabalhando ou de recolocá-la, pré-reforma, dependendo da situação. A esfera pública, por outro lado, pode incentivar e mobilizar recursos para que isso aconteça muito mais rápido. Temos que entender que viveremos por muito mais tempo e que devemos nos adaptar a isso. Temos que garantir financiamento, economizar mais, entrar mais ou trabalhar mais anos …

Essa opção de economizar para o futuro é bastante complicada para quem tem baixos salários…

Claro que é outra responsabilidade das empresas, que deve corresponder ao seu ambiente.

Em que posição Valência impulsiona esse setor em torno dos mais velhos?

Valência tem condições de ser um ponto de referência para a economia de cabelos grisalhos. Primeiro, porque historicamente existe uma tradição de se viajar para a Comunidade (1) para fazer turismo ou de ter uma segunda residência. O clima, o sistema de saúde, a abertura ao mundo, a segurança, a paz social … tudo isso é um terreno fértil para gerar atividades econômicas ligadas aos idosos. Portugal está atraindo aposentados de todo o mundo para o seu plano fiscal, por que não um plano assim na Comunidade? Se Valência não tirar proveito dessas condições, serão outros que tomarão esse trem. No Japão, eles antecipam isso há anos, pesquisando e alocando fundos. Se é uma oportunidade para o Japão, por que não para Valência? Não existem muitas áreas que possam oferecer o que Valência tem. Acho que estamos em tempo e que algumas coisas estão sendo bem-feitas.

Quem são os Autores
Iñaki Ortega é doutor em economia e dirige a Escola de Negócios Deusto, a mais antiga escola de negócios da Espanha, além de lecionar na Universidade Internacional de La Rioja (UNIR). Escritor regular de artigos na imprensa, ele também publicou quatro livros, liderou pesquisas sobre empreendedorismo para o Banco Santander, Microsoft e BID e assessorou grandes empresas em inovação. É pioneiro no estudo de gerações e seu impacto no mundo dos negócios e foi apontado como um dos 50 maiores especialistas em transformação digital pela Expansion.
Antonio Huertas é formado em direito pela Universidade de Salamanca. Desde 2012, é presidente da Mapfre, a maior companhia de seguros espanhola do mundo, uma empresa global com 36.000 funcionários e presente em 45 países. Huertas, que combina esse trabalho com o de Presidente do Conselho de Administração da Fundación Mapfre, contribuiu para o processo de internacionalização da empresa, que permite oferecer produtos e serviços nos cinco continentes.

Nota
(1) A Comunidade Valenciana ou País Valenciano é uma região espanhola e mediterrânica, situada na costa oriental da Península Ibérica, que atrai muitos turistas.

(*) Elísabeth Rodríguez é redatora de Las Provincias. Tradução livre de Sofia Lucena.


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Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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