As ILPIS e a crise de saúde na França

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Privar idosos que vivem em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) de laços emocionais é uma forma de maus-tratos? A organização francesa Petits Frères des Pauvres assinala a importância de permitir, sem restrições, que todos as pessoas próximas visitem os idosos que residem em instituições.


Receber a visita de um antigo vizinho, que se conhece há 20 anos, ou de um amigo quando você mora em uma instituição de longa permanência… isso, às vezes, é um obstáculo, desde a crise de saúde imposta pela pandemia com a distância física. Enquanto o novo protocolo em vigor desde 19 de maio de 2021 na França insiste que “os residentes de instituições de longa permanência para idosos (ILPIS) se beneficiem, como o resto da população em geral, da possibilidade de ver pessoas próximas e do respeito pela sua liberdade de ir e vir”, alguns estabelecimentos ainda recusam visitas de pessoas que não sejam membros da família. Para muitos idosos que ficaram isolados, a família infelizmente ainda está ausente.

“De qualquer forma, para mim não houve um primeiro ou segundo, ainda é o mesmo confinamento. Mesmo que as pessoas tenham saído do confinamento, nos falaram, assim como não existe nenhum caso de Covid na instituição, é melhor você ficar aqui e evitar sair, então, para mim não houve um primeiro confinamento e nem segundo confinamento, para mim existe um só desde o final de fevereiro. Estamos presos, não podemos sair, ainda são as mesmas restrições», lamenta Edouard, 68, que vive em uma ILPI em Hauts-de-France.

Dificuldades organizacionais internas privam os idosos de visitas

Como explicar que algumas ILPIs ainda recusam visitas hoje na França, quando a grande maioria dos residentes e profissionais está vacinada? Se o isolamento dos idosos tem sido tão denunciado nos meios de comunicação, que até o Defensor dos Direitos apresentou um relatório recentemente sobre os direitos fundamentais dos idosos residentes de ILPIs, por que é tão difícil poder visitar uma pessoa? O peso da responsabilidade que pesa sobre os gestores das instituições leva alguns a aplicar protocolos de saúde de forma desproporcional. Da mesma forma, as preocupações organizacionais levam alguns a criar condições de visita que não existem em nenhum documento.

“Todos os nossos residentes estão rodeados de profissionais, não ficam isolados como você diz”, é o que nos dizem as ILPIs, explica Magali Assor, responsável pelo projeto de abordagem ética na Petits Frères des Pauvres.

Para a organização Petits Frères des Pauvres, que testemunha a solidão de alguns idosos em instituições que ainda hoje não podem ser visitadas, essas situações são complexas. Consciente da provação que vive há um ano e meio as ILPIS, a organização chama a atenção para a postura certa a ser adotada, que deve ser uma preocupação constante.  A organização Petits Frères des Pauvres está atenta para o restabelecimento dos laços sociais e emocionais dos residentes que há tanto tempo se encontram privados deles. 

Para a associação é indispensável restabelecer os laços sociais para todos os idosos, ainda mais hoje em que a população em geral da França voltou ao seu ritmo normal de vida. Além disso, é lamentável observar que alguns estabelecimentos dão prioridade aos membros da família em relação a qualquer outra pessoa. Quem já não tem família, por vezes tem de esperar “uma reabertura gradual do estabelecimento”. Embora tenham sido os primeiros a serem vacinados, alguns dos idosos serão os últimos a retomar a vida social.

O vínculo social é essencial para os idosos em instituições

“O primeiro confinamento mudou a relação com as famílias. As famílias não podiam mais vir, então tínhamos criado visitas por vídeo. Mas foi complicado. Tivemos que ligar para as famílias e nos conectar com elas. Você tinha que ir para uma sala separada, o que gerou um pouco de logística provocadora de ansiedade dentro da ILPI. Houve muitos telefonemas também. Só que é um tempo tirado de outras pessoas que, por sua vez, não têm visitas nem telefonemas. E então a única presença que eles têm somos nós, cuidadores. E, assim, essas pessoas, nós as negligenciamos ainda mais para permitir que outras pessoas que tinham muitos laços sociais continuassem a mantê-los», comentou Frédérique, auxiliar de enfermagem na Bretanha, no relatório publicado em março de 2021 sobre os impactos da crise na saúde (Petits Frères des Pauvres / Institut CSA).

Enfermeiros, cuidadores… são membros da família para quem não tem uma família? Na verdade, não, respondem de coração os idosos questionados no relatório. Embora sua presença ajude a aliviar um sentimento de solidão, todos descrevem uma sensação de estar perto de “pessoas próximas por falta de opção”. Obviamente, as passagens dos profissionais de saúde pelos cuidados, mesmo que sejam para uma breve discussão, não substituem os laços afetivos que os idosos forjaram com antigos vizinhos, amigos ou mesmo com voluntários de organizações sociais.

Os idosos podem bater um papo, brincar, relembrar boas lembranças, e até curtir a alegria de estarem juntos com quem é próximo. Além disso, eles têm uma relação com o tempo e a disponibilidade que não é da mesma ordem dos profissionais de saúde ou de autoajuda. Por fim, o número de contatos que uma pessoa pode ter por dia não compensa seu sentimento de solidão. Com efeito, a solidão é acima de tudo um sentimento que resulta na discrepância entre as relações que considera satisfatórias para si e os contatos que mantém no quotidiano.

Receber visitas de pessoas importantes em ILPIs

Podemos realmente considerar a negação de visitas a uma pessoa idosa como maus tratos? O trabalho da Comissão Nacional de Luta contra os Maus Tratos e Promoção do Bem-Estar, afirmou, em março de 2021, claramente que “os maus tratos são um atentado aos direitos humanos e também às necessidades humanas básicas. Eles intervêm no quadro de uma relação de confiança, dependência, cuidado ou apoio”.

Para a organização Petits Frères des Pauvres, os idosos que residem em moradias coletivas devem receber quem quiserem. “Como as casas de repouso são, acima de tudo, locais de vida, nossos idosos devem ser livres para receber pessoas que sejam ‘significativas’ para eles. Pode ser um vizinho, um amigo, um zelador, um voluntário, por exemplo. Da mesma forma que fazemos em casa. Da mesma forma que todos os cidadãos fazem”. A organização comenta ainda que o entorno de uma pessoa idosa é, naturalmente, sua família, mas não só. É por isso que a associação continuará sempre a defender a importância do vínculo social, dos laços afetivos para todos e em particular para os mais isolados, os mais velhos, cujos laços familiares se tornaram inexistentes.

Nota: Tradução livre do texto EHPAD et crise sanitaire: sans famille, ces aînés ont été privés de visites, publicado pela associação Petits Frères des Pauvres em junho/2021.

Foto destaque de SHVETS production no Pexels


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Sofia Lucena

Estudante de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos (SP). Colabora com o Portal do Envelhecimento fazendo traduções de temas relacionados à longevidade humana. E-mail: [email protected]

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