As crianças e o conceito de morte

Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal.

Nazaré Jacobucci (*)


A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais…” (Memórias de Emília – Monteiro Lobato)

Muitas pessoas me perguntam sobre o entendimento das crianças sobre a morte. Dentre esses questionamentos está a dúvida se devemos ou não conversar com elas sobre o morrer e o luto. E a minha resposta é – sim! Afinal, a morte é inerente à nossa existência, então, precisamos falar sobre a morte com as crianças, pois em algum momento elas irão perder um ente querido ou um animal de estimação. Há também as crianças que vivem em zonas de extrema violência e que se deparam com a morte cotidianamente.

Portanto, temos que prepará-las para lidar com esta situação. Quando uma morte ocorrer, pode ser a oportunidade para que nós conversemos com ela sobre o tema. Esta conversa é importante e saudável para ajudá-la a lidar com o sofrimento. Como os adultos, as crianças precisam vivenciar o processo de luto para elaborar a perda que ocorreu e continuar com sua vida sem medo. Resguardar as crianças da morte ou do conceito de morte presumindo que são muito pequenas para entender o que significa o que é morrer não é o ideal.

No entanto, apenas precisamos respeitar e estarmos atentos em que fase do sistema cognitivo a criança se encontra. Mas, sabemos que crianças a partir dos 5 anos de idade são capazes de compreender os fatos básicos sobre a morte: isso acontece com todas as coisas vivas, tem uma causa e que envolve a separação permanente. Elas também conseguem entender que as pessoas mortas não precisam mais comer ou beber.

Como no meu entendimento este tema é de suma importância, decidi ilustrar este post com a opinião das próprias crianças sobre o entendimento delas sobre a morte e o morrer. Fiz as seguintes perguntas para algumas crianças: Você sabe o que é morrer? E quando morre o que acontece?

Constança Costa (4 anos):Morrer é ficar ao pé de Jesus e da Maria.

Monalisa Souza (7 anos):Morrer é quando alguém fica velhinho e tem uma doença, eles morrem e aí vira uma estrelinha e continua vivendo uma nova vida, mas em outro lugar.

Cauã Almeida (8 anos): Quando a pessoa morre não volta mais e vai para o céu. Acho que é triste e a gente sente saudades.

Francisco Costa (9 anos): Morrer é desaparecer, mas não totalmente. Você tem a mesma vida, só que sem as pessoas que tu conheces. É ter a vida em outro sítio, mas diferente e cheio de amor. Nunca se sabe como se morre, nunca se sabe como é que vai acabar a vida. Portanto, fica essa pergunta – como é que vamos morrer?

Laura Sanches (10 anos): Morrer para mim é começar uma nova vida, melhor que a outra. O espírito da pessoa vai para o céu e lá ele conversa com Deus.

Salvador Costa (12 anos): Uma era chamada vida chega ao fim.

Como pudemos perceber por meio das respostas que as crianças, no contexto da sua etapa cognitiva, possuem uma maneira tão simples de compreender a morte e que nós adultos, às vezes, complicamos com explicações eufêmicas. Devemos evitar usar eufemismo para falar de morte, ou seja, precisamos explicar que a pessoa morreu e devemos usar a palavra morte e não utilizar metáforas – por exemplo – “o vovô agora é uma estrelinha no céu” ou “a mamãe foi viajar e ela vai demorar para voltar”. Estas explicações não colaboram com o processo de luto da criança. É essencial sermos honestos e utilizarmos uma linguagem simples.

Assim, é fundamental dizer a verdade, para ajudar a criança a assimilar e compreender o morrer. Afinal, morrer é tão somente terminar de viver.

Referências
KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1992.
MIRANDA, E.R.P. A Criança e a Morte. Blog Perdas e Luto: Educação para a Morte, as Perdas e Luto. Disponível em: https://perdaseluto.com/2015/12/08/a-crianca-e-a-morte/
PAIVA, L.E. Falando da Morte com Crianças. In: Incontri D, Santos FS, organizadores. A arte de morrer – visões plurais. Bragança Paulista: Comenius; 2007. p. 179-187.

(*) Nazaré Jacobucci – Pós Graduada / Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Med. da Univ. de Lisboa. Psicóloga Especialista em Luto. Especialista em Psicologia Hospitalar. Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC). Reprodução autorizada do site: http://www.perdaseluto.com.


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