As cidades não estão preparadas para os que envelhecem

Necessitamos de políticas públicas, de cidades adaptadas, de uma sociedade justa e igualitária para se envelhecer bem. Há muitos desafios.

Por Ana Michela Lista Merchan (*)

 

A longevidade humana, a mudança demográfica que estamos vivendo e o “empoderamento” feminino foram temas de pesquisa, não acadêmica, apresentados recentemente em São Paulo por Eduardo Carlos Ferreira, no evento Diálogos intitulado “Cidade para Longeviver”, uma parceria entre o banco Itaú e a PUC-SP.

A pesquisa, que levou dois anos para ser realizada, foi inicialmente exibida no Fórum Econômico Mundial por Ferreira, que é especialista em transformação digital, empreendedorismo de impacto e equidade de gênero do Banco Mundial. Além da pesquisa, o especialista apresentou um vídeo que trata do século do envelhecimento, que fala do impacto na renda, da previdência social e saúde que os 14% da população com mais de 60 anos provocarão e que as cidades, nas quais 85% das pessoas vivem nelas hoje, não estão preparadas.

Ferreira lembra que os temas do Fórum Econômico Mundial foram sobre os riscos existentes para a humanidade. Entre eles ele citou a instabilidade social, concentração de renda e desigualdade social, crescente polarização das sociedades, e envelhecimento da população, e que em 2020 o número de pessoas com mais de 65 anos superará a população com menos de 5 anos. No Brasil a velocidade da transição é maior, sem as garantias mínimas de uma vida digna.

O especialista apresentou o termo “ModernIdade”, que é novo há 50 anos e que não envelhece, mas que há urgência na mudança da postura, pois o tempo não para. Apresentou ainda o tema da 4ª Revolução Industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas, e que estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos e será diferente de qualquer outra já vivida.

O especialista aproveitou a oportunidade para falar das forças globais que estão mudando as tendências, como a aceleração das mudanças tecnológicas, interconectividade do mundo, a era da urbanização, e envelhecimento da população.

Ferreira assinalou que o envelhecimento é um processo e não sinônimo de doença. E que envelhecer bem é uma escolha da sociedade como um todo, uma vez que 25% desse processo depende da genética de cada um e 75% do meio ambiente, ou seja, do estilo de vida social envolvido nessa questão.

Por isso Ferreira destaca a importância dos 75%, dos quais necessitamos de políticas públicas, de cidades adaptadas, de uma sociedade justa e igualitária. Portanto, falas que apontam para a boa vontade e opção do indivíduo é uma avaliação superficial e injusta, de uma sociedade cega. Envelhecer bem não é uma escolha individual, mas social!

Nesse sentido, entender o papel de cada um nesse processo – do poder público, da iniciativa privada, sociedade como um todo, esferas do governo, empresas e indivíduo – é fundamental para que a maior conquista da história recente da humanidade, a longevidade, não se torne uma dor de cabeça para o governo.

O especialista afirma categoricamente que é urgente adaptar as cidades, empresas e indivíduos ante a nova realidade. Ele cita Santa Catarina, estado que tem uma expectativa de vida de 79 anos, em que se vive uma mudança do ciclo de vida e também mudança de hábitos. Reafirma que as cidades não estão preparadas para os que envelhecem, pois em países desenvolvidos como EUA, Japão e Europeus, pesquisadores, ativistas, urbanistas e arquitetos aderiram à política do envelhecimento ativo integrado à sociedade, chamado de reconfiguração das cidades.

Apresentou exemplos de modelos como The Villages na Flórida (EUA), criada nos anos 70, e hoje conta com mais de 120 mil moradores; mas só se torna morador a partir dos 55 anos. O especialista questiona tais modelos, pois considera que tais modalidades de moradias provocam segregação, embora os locais possam estar muito bem equipados para assistir a população que envelhece.

Outro modelo apresentado foi o case da colônia Alemã, a qual oferece moradia gratuita e residências multigeracionais, promovendo assim o convívio de estudantes e pessoas idosas que necessitam de assistência diária. O case do Japão foi também apresentado, em que uma estimativa do governo mostrou que pessoas com idade a partir dos 75 anos compõem mais da metade da população idosa do país, e onde as pessoas se inscrevem e usam pedômetros e ganham brindes do comércio da região.

Ferreira esclarece que os modelos sobre modos de morar mais aceitos são de fato os que integram o idoso na sociedade e que buscam a adaptação apropriada multigeracional. Aproveitou para apresentar o tema sobre economias, finanças e trabalho, e a mudança na natureza do trabalho (remoto, flexível e sob demanda), como possíveis forma de evitar o desemprego. Apresentou o empreendedorismo, informando que de 2015 para 2016, no Brasil, dobrou o número de empreendedores com mais de 60 anos.

Por fim, de acordo com o especialista, em relação à educação, cultura e lazer, a integração das pessoas idosas em centros públicos como shoppings, museus e outros projetos intergeracionais, além de tecnologia e inclusão digital para os que envelhecem, combate também o isolamento social.

A palestra de Eduardo Carlos Ferreira aconteceu durante o evento Diálogos “Cidade para Longeviver”, realizado no Espaço Itaú de Cinema, em 29 de agosto, na cidade de São Paulo. O evento é uma parceria entre o Banco Itaú e a PUC-SP, por meio do Nepe (Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento). O evento contou com a Profª Drª Flamínia Ludovici, coordenadora do Mestrado em Gerontologia Social da PUC-SP e a participação de Simone Gallo, gerente de relacionamento do Itaú. A realização do evento foi do Portal do Envelhecimento, com mediação de Beltrina Côrte.

 

(*) Ana Michela Lista Merchan – Assistente Social e mestranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: michela.merchan@gmail.com

Fotos do evento: Rodrigo Gueiros

 

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