Arthur, o cavaleiro da esperança

A espada mágica Excalibur pertencia ao Lord britânico Uther Pendragon. Anos mais tarde, passa para as mãos do seu filho Arthur, o cavaleiro da esperança e um simples escudeiro destinado a se tornar rei. Ajudado pelo mago Merlin, Arthur cumpre o seu destino, reunindo os cavaleiros da Távola Redonda em Camelot para celebrar a paz.

 

Idade média, um tempo em que o país estava dividido e sem rei, e desses séculos perdidos nasceu uma lenda, do Mago Merlin, da chegada de um Rei, da espada do poder, forjada na magia e na esperança de um mundo melhor – “Excalibur”.

Muitos livros e filmes falam da vida e aventura do mais nobre dos Reis, Arthur, filho do destemido Uther Pendragon e da bela Igrayne que, em algumas versões da história, é representada pela mulher que tem a visão de todas as coisas, uma das Damas da Terra de Avalon, onde reina soberana a última das Deusas, onde as brumas e o nevoeiro impedem a passagem de seres comuns como nós.

Bem, você deve se perguntar: por que Arthur? Confesso que, desde menininha, tenho neste lendário personagem a mais profunda admiração, sempre pensei que o dia em que eu realmente escolhesse um homem para amar, esse seria uma representação do Grande Rei, um alguém digno, honesto, simples e de uma generosidade que ultrapassasse as expectativas que normalmente temos das pessoas comuns.

Arthur, não era comum, acho até que ele nem pertencia a esse mundo, um homem além de seu tempo, um homem imaginado, um homem que reúne outros, também presentes neste texto, como o apaixonado e valente Lancelot, o mágico Merlin, o sagrado Percival e por fim, seu próprio pai, Uther, aquele que para possuir uma mulher, lança mão do feitiço, devora, rasga e penetra em sua Igrayne amada (é a lascívia imperando).

Ele, meu amor, como o glorioso Rei Arthur é, ao mesmo tempo, todos esses homens acolhidos em uma única alma – ora encontro um, ora encontro outro. Um novo encontro a cada dia.

Assim, para “Você”, começa “Excalibur”, filme de 1981, direção de John Boorman.

Guerra entre Uther Pendragon e o Duque de Cornwall

– Uther: Merlin, eu sou o mais forte, sou o escolhido. A espada! Você me prometeu a espada! Preciso da espada para ser rei!

– Merlin: E você a terá, mas para curar, não matar. Amanhã teremos uma trégua.

E das águas, surge Excalibur, empunhada pela Senhora do Lago, a Dama de Avalon. Merlin a entrega ao Rei: “Mostre a espada, Uther. Vejam! A espada do poder Excalibur, forjada quando o mundo era novo e os pássaros, feras e flores comungavam com o homem e a morte era só um sonho. Uther, diga as palavras!”, exige o Mago.

– Uther: Um país, um Rei! É a minha palavra.

Merlin consegue a paz. “Feito, Rei Uther. Todos, ao meu castelo!”, festeja o Duque. “Agora, minha mulher dançará para nós. Igrayne, dance! Você, Uther, pode ser o Rei, mas sua rainha jamais será igual a ela”.

Na mesa farta, os rudes soldados acompanham a música e os movimentos do corpo de Igrayne – olhares de cobiça, de desejo. “Eu preciso possui-la”, avisa Uther. Mas, alguém o alerta: “E arriscar tudo que conquistou?” Neste mesmo momento o Duque, indignado, grita: “Você jamais terá Igrayne!”

A paz é rompida e a guerra é imediatamente declarada

– Uther: Merlin! Onde você está?

– Merlin: Eu caminho desde o início dos tempos. Às vezes dou, às vezes tomo. Eu decido o que e quando. Anos para conseguir uma trégua, rápido para estragar. E tudo por causa da lascívia.

– Uther: De Igrayne! Uma noite com ela. Use a magia, vamos!

– Merlin: Igrayne! Pois bem, você jurará pelo seu reinado me dar o que eu pedir. E você conseguirá tê-la, mas o fruto da sua lascívia será meu!

– Uther: Por Excalibur, eu juro.

– Merlin: Eu te transformarei na imagem do Duque. Igrayne pensará que o marido retornou. Seu desejo te erguerá. Você flutuará no hálito do dragão!

Em meio ao nevoeiro, navega o desejo de um Rei. Já no castelo, a pequenina, mas já perigosa Morgana, espreita, Uther toma Igrayne em seus braços, rasgando seu vestido, penetrando-a, devorando-a em todos os milímetros de seu corpo, marcando sua pele e sua alma – para sempre.

Merlin sabe: “O futuro enraizou-se no presente”. Nove meses depois, Igrayne dá a luz a um menino. Ao ver seu filho, Uther admite: “Tudo que sei é assassinar homens. Agora devo aprender a amá-los, pois cansei da batalha. Eu ficarei ao lado dele e de sua mãe”. Mas Merlin chega para cobrar a dívida antiga: “Eu dormi nove luas. O que fiz por você não foi fácil. Agora precisa me pagar. A criança é minha, você jurou. Essa vida não é para você Uther: ter um lar, mulher e filho”.

Pressionado por Igrayne, Uther ainda tenta: “Matar e ser Rei. Isso é tudo?” A resposta do Mago não poderia ser outra “Talvez nem mesmo isso. Você não é o escolhido, Uther. Dê-me o menino, eu o protegerei”.

Desesperado, momentos depois, o Rei ainda tenta resgatar o filho dos braços de Merlin, mas é golpeado por seus inúmeros inimigos. Já quase sem vida, ele empunha sua espada: “Ninguém tomará Excalibur, além de mim!” E, assim, como último ato de um legítimo Pendragon, ele finca seu Poder na pedra que acolhe a magia sagrada.

A voz de Merlin é ouvida nos cantos e recantos da terra: “Aquele que arrancar a espada da pedra, será o Rei”. Ele olha carinhosamente o bebê, e promete, a sua maneira: “Arthur, você será o escolhido!”

Anos depois, diante de Excalibur, um padre suplica a Deus

“Senhor, mande-nos um Rei de verdade. Nós somos indignos, mas a terra sangra, o povo sofre. Somos pecadores, mas nesta Páscoa, quando Cristo nasceu, que um destes cavaleiros, pela vitória, encontre a graça de puxar a espada e tornar-se Rei”.

Mas Excalibur pertence a um só rei.

– Padre: Todos os cavaleiros preparem-se para o combate que dará o direito a puxar a espada da pedra.

– Sir Ector: Arthur, onde está a espada de Kay? Um bom escudeiro não esquece a espada de seu cavaleiro. Vá à barraca buscá-la.

Ao ver um menino fugindo com a espada do irmão [adotivo], o jovem, ao segui-lo, depara-se com a misteriosa espada. Ele pensa, na sua ingenuidade: “Por que não esta?” Assim, tão simples quanto, ele saca Excalibur da pedra. As pessoas se aproximam. Os nobres ficam incrédulos com a façanha. O povo se rende e ajoelha: “Temos o nosso Rei! Louvado seja Deus!”

Sir Ector acaba contando a verdade sobre o mistério que recai sobre o jovem: “Merlin, o Mago, trouxe você quando era recém-nascido e ordenou que eu te criasse. A princípio, aceitei porque temia Merlin, mas depois… porque eu te amava”. E o Mago finaliza: “Você é filho de Uther e Igrayne. Você é o Rei Arthur!”

Assustado Arthur foge, acompanhado de Merlin…

– Arthur: Por que fez isso comigo?

– Merlin: Porque você nasceu para ser Rei.

– Arthur: O que significa ser Rei?

– Merlin: Você será o país, e o país será você. Se você prosperar, o país florescerá. Porque você é Rei.

Mas para ser Rei é preciso enfrentar os próprios demônios, serpentes, monstros do dia e da noite, feras poderosas que estão em toda parte, em tudo e em todos.

– Merlin: Agora, Arthur apenas descanse nos braços do dragão. Sonhe!

– Arthur Que tipo de homem era meu pai?

Sobre Uther, Merlin revela: “Uther era valente, forte, era um grande cavaleiro, era um rei impetuoso, mas nunca aprendeu a ver o coração dos homens. Muito menos o seu próprio”.

– Arthur: Merlin pode me ajudar a ser sábio e não impetuoso?

Ao retornar e assumir o seu reino, o jovem clama a todos que o acompanhem – ele precisa provar seu valor e assim o faz, lutando de forma honrada. Mas, quando o nobre Uryens o desafia, ele saca sua Excalibur e diz: “Jure fidelidade a mim, e terá misericórdia. Preciso de lutadores como você”.

– Uryens: Um nobre cavaleiro fiel a um escudeiro?

– Arthur: Tem razão. Ainda não sou cavaleiro. Você, Uryens, me fará cavaleiro. Então, de cavaleiro para cavaleiro, darei sua misericórdia.

Num gesto digno de um homem como Arthur, ele entrega Excalibur a Uryens sagrá-lo cavaleiro. Ele se ajoelha diante do nobre desconhecido. Merlin ao ver que Arthur entrega sua mais valiosa joia, entra em pânico: “Mas o que é isso?”

Diante da dignidade do jovem rei, Uryens declara: “Em nome de Deus, são Miguel Arcanjo e São José eu lhe dou o direito de empunhar armas e o poder de fazer justiça”.

– Arthur: A tal dever, solenemente obedecerei como cavaleiro e Rei.

– Uryens: Levante-se Rei Arthur. Sou seu humilde cavaleiro e juro obediência à coragem nas suas veias, tão forte ela é que só pode vir de Uther Pendragon. Não duvido mais de ti.

É nesta ocasião que Arthur conhece sua encantadora Guenevere, aquela que traz no peito a cruz de Cristo. “Merlin, pode fazê-la me amar? O que você vê?”

– Merlin: Ah… vejo Guenevere! E vejo também um amigo adorado que trairá você. Bem, você nem me ouviu, nem a seu coração. O amor é surdo, além de cego.

O tempo passa, agora Arthur está mais velho…

Quando é surpreendido pela chegada de um poderoso oponente que vence todos os seus cavaleiros. “Sou Lancelot do Lago e procuro um Rei que seja digno de minha espada”.

– Arthur: Isso é arrogância. Um cavaleiro deve ser humilde.

– Lancelot: Não é arrogância, é maldição. Jamais o encontrei, nem em torceio, nem em duelo. Você deve provar seu valor com as armas sob os olhos de Deus.

– Arthur: Que Ele me dê forças para te desmontar e te enviar para além-mar com um só golpe.

E a luta começa… Arthur é derrubado, a batalha é travada em terra, corpo a corpo, cada qual com sua espada. O Rei está em clara desvantagem.

– Lancelot: Sua raiva te desequilibrou. O Senhor lutaria até a morte contra um cavaleiro que não é o inimigo? Por um pedaço de estrada que poderia desviar?

– Arthur orgulhoso, rebate: Que seja, então, até a morte!

Perdendo a luta, o Rei clama pelo poder de Excalibur: “Eu evoco seu poder!” Mas diante da vaidade, da ira e do orgulho, a espada se quebra. Arthur quebra o que não poderia ser quebrado. A esperança foi destruída. Ele reconhece: “Este cavaleiro excelente que lutou com justiça e graça deveria ter vencido. Usei Excalibur para mudar tal veredito. Eu perdi para sempre a antiga espada de meu pai cujo poder deveria unir todos os homens, não servir à vaidade de um só. Eu não sou nada”. Mas o sagrado sempre acaba voltando às mãos de um Rei que reconhece seus erros e suas fraquezas.

“Sir Lancelot, você será meu defensor”.

Um novo tempo – As guerras acabaram! Um país, um Rei

Emocionado Merlin decide celebrar a paz com palavras eternas que certamente tocaram os corações dos bravos cavaleiros e, claro, do valente e justo Arthur: “Reflitam sobre esse momento. Saboreiem-no. Encham-se de alegria. Lembrem-se sempre, pois ela está com vocês. Vocês são um só, sob as estrelas. Lembrem-se, então, desta noite, desta vitória para que daqui a anos possam dizer – Eu estive lá, naquela noite, com Arthur, o Rei. Pois a desgraça do homem é esquecer”.

Demonstrando enorme gratidão, qualidade rara em muitos seres humanos, Arthur finaliza: “Merlin, sua sabedoria forjou esse círculo. De hoje em diante, para que nos lembremos de nossa união, devemos sempre nos reunir em um círculo para ouvir e contar atos de bondade e bravura. Construirei uma Távola Redonda para nossa irmandade se reunir. E um Salão ao redor da Távola. E um Castelo ao redor do Salão. E vou me casar. E o país terá um herdeiro para empunhar Excalibur”.

E sob um céu estrelado, um estandarte – símbolo da magia do dragão – espadas são elevadas aos Deuses e às Deusas: “Somos os Cavaleiros da Távola Redonda”.

Casamento de Arthur

Como Lancelot é o defensor do Rei ninguém melhor do que ele para escoltar a bela Guenevere de sua casa até seu reinado. Apenas com uma troca intensa e profunda de olhares, e o destino dos amantes já estava cumprido. Mais tarde, a confissão do homem apaixonado: “Eu sempre te amarei, eu te amo como minha rainha e como mulher de meu melhor amigo e, enquanto você viver, eu não amarei outra”. Será para sempre a Rainha, a mulher em seu coração.

Durante o casamento, Morgana revela sua magia a Merlin, mas o Mago não prevê o perigo que a feiticeira representa: “Os nossos dias estão contados. O Deus único virá para derrotar os muitos deuses. Os espíritos das florestas e rios estão em silêncio. É o caminho das coisas. Sim. É a hora dos homens e seus desígnios”, explica Merlin.

Num certo dia, o Rei é surpreendido com a chegada do jovem Percival

Aquele que, mais tarde, resgatará a esperança, o Graal, o Cálice de Cristo para Arthur. Também será o único a defender Guenevere das maledicências dos invejosos, o único a compreender a verdadeira razão do afastamento de Lancelot, a reclusão do solitário.

– Arthur: Há anos a paz reina no país. As colheitas são abundantes, não há escassez. Cada um dos meus súditos tem sua parcela de felicidade e justiça. Diga-me, Merlin, nós derrotamos o Mal?

– Merlin: O Bem e o Mal, um não existe sem o outro.

– Arthur: Então, onde se esconde o Mal no meu reino?

– Merlin: Sempre onde você menos espera. Sempre.

Instantes depois, Gawain, um dos cavaleiros, insuflado por Morgana, acusa a rainha de traição, insinuando um caso de amor com o protegido do Rei. Diante da gravidade da situação, Arthur determina que é Lancelot quem deve defender a rainha. Ele, como Rei, será o juiz: “Pela lei de Deus o cavaleiro mentiroso não vence em combate o cavaleiro leal”, proclama Arthur.

Isolado na floresta, Lancelot faz sua confissão: “Senhor, somos inocentes, mas não em nosso coração. Para tê-la em meus braços uma vez, eu sacrificaria tudo: honra, verdade, minha crença divina. Deus, salve-me de mim mesmo, purifique-me desse amor para que eu possa defendê-la. Eu luto contra mim mesmo”. Sonhando, golpeando a si mesmo, na tentativa de expiar seus pecados, libertar-se da culpa, o cavaleiro se fere profundamente – essa será a dor para a qual não haverá cura.

Para alegria de Arthur, Lancelot acaba vencendo o desafio, e Gawain inocenta a Rainha. A violência da luta faz a ferida se abrir (o preço a pagar é alto demais). O Rei ordena a Merlin que salve o amigo.

Aparentemente, tendo passado o pior, pelo menos ele assim imaginava, Arthur comemora a inocência da Rainha e a salvação de seu amigo e, mais uma vez, ele pergunta ao Mago: “Merlin, qual a maior qualidade de um cavaleiro: Coragem? Compaixão? Lealdade?”

– Merlin: Bem, elas se misturam como os metais que juntamos para forjar uma boa espada, mas, o que realmente vale é a sinceridade, é isso: se um homem mente, ele mata uma parte do mundo.

Neste momento, Lancelot se levanta e comunica que vai descansar na floresta. Arthur sofre: “Merlin não curou sua ferida?” O amigo responde: “ela é profunda”.

Inconformada, apaixonada, Guenevere vai ao seu encontro do amor, e se entrega a ele.

– Arthur: Merlin, eles estão juntos? Você me avisou, há muitos anos. O que devo fazer agora? Matá-los?

– Merlin: Não posso dizer nada mais. Meus dias chegaram ao fim. Os deuses se foram para sempre. É a vez dos homens. É a sua vez Arthur. É o momento que deve encarar finalmente ser Rei sozinho.

– Arthur: E você, velho amigo? Eu o verei novamente?

– Merlin: Não. Há outros mundos. Este chegou ao fim para mim.

Arthur parte em busca de Guenevere. Enquanto isso, usando do poder do Feitiço da Criação,

Morgana aprisiona um Merlin já enfraquecido.

Diante da dor de ver seus dois amores juntos, Arthur finca sua Excalibur entre eles, entre corpos nus, inocentes pelo amor, mas culpados pela traição. Morgana se aproveita do momento e, lançando mão da magia do mal, concebe um filho de Arthur.

Quando Lancelot e Guenevere despertam, encontram a espada, sem seu Rei. Ele se desespera e foge, talvez até de si mesmo. Ela se recolhe nos braços de Cristo.

Nasce Mordred, aquele que determinará o fim de Arthur.

O Rei adoece, a terra sangra, as crianças morrem e os cavaleiros nada podem fazer. É a ruína. É a morte que espreita. Todos clamam pela volta do Rei.

Com seus cavaleiros reunidos, Arthur pede: “Temos que achar o que foi perdido. O Graal, só o Graal pode restituir folha e flor. Procurem pelo país, pelos labirintos das florestas até os limites do interior. Só o Graal pode nos redimir. Procurem. Busquem. Fiquem atentos aos presságios, aos sinais. Sigam!”

A busca pelo Graal

Pelos caminhos, pelos quatro cantos da terra devastada, apenas a morte se fez presente. Mordred, a semente do pecado, elimina os cavaleiros de seu pai, um a um, impiedosamente e com requintes de crueldade.

– Morgana: Percival, por 10 anos e 1 dia você procurou. O Graal não existe, como estes cavaleiros já descobriram. Agora, eles estão mortos, eles me servem.

Percival sabe que nada deve detê-lo, ele persiste na busca sagrada, ele luta até as raias da dor física e espiritual. Entre a vida e a morte, ele tem a visão do cálice.

Enquanto a luta continua, Mordred vai até Arthur reclamar seu direito ao trono: “Vim reivindicar o que é meu, pai”.

– Arthur: Não posso te dar o país, apenas meu amor.

– Mordred: Isso é algo que não quero. Os cavaleiros fracassaram. Estão todos mortos. Você também está morto. Eu voltarei e tomarei Camelot à força.

Sem forças, Percival encontra um Lancelot amargo, desiludido, sem fé, um homem que passou a negar a própria vida. Na tentativa de trazer o amigo para a missão, Percival é lançado às águas profundas e lá, despido de sua armadura, ele sente que está pronto, ele, enfim, compreende: “Não posso abandonar a esperança, é tudo que tenho”.

– A Voz: Qual o segredo do Graal? A quem ele serve?

– Percival: A ti meu Senhor.

– A Voz: Quem sou eu?

– Percival: Você é meu Senhor e Rei. Você é Arthur.

– Voz: Você encontrou o segredo que eu perdi?

– Percival: Sim, você e a terra são um só. Ao beber do cálice, você renascerá e a terra também. O Graal é o alimento da alma.

Ao refletir sobre sua vida, Arthur confessa ao amigo/irmão Kay: “Já vivi demais por meio dos outros. Lancelot levou minha honra, e Guenevere, minha culpa. Mordred trouxe meus pecados. Meus cavaleiros defenderam minhas causas. Agora, meu irmão, eu serei o Rei”.

Antes da batalha final, Arthur sente que precisa rever Guenevere. Lá está ela, com Cristo, no convento.

– Arthur: Aceite o meu perdão e descanse o seu coração. Já sofremos demais. Eu sempre te amei e ainda te amo.

– Guenevere: Eu te amei como Rei, às vezes como marido, mas não se pode fitar demais o sol.

– Arthur: Perdoe-me, minha esposa, se puder. Eu não nasci para viver vida de homem, mas para ser lembrado no futuro. A irmandade foi um breve início, um tempo glorioso que não pode ser esquecido. E como ele não será esquecido, esse tempo pode voltar. Agora mais uma vez sairei com meus cavaleiros para defender o que foi e o que sonho que poderia ser. Jamais pensei em todos esses anos que Excalibur estivesse com você. Eu sempre imaginei que no ocaso de nossa vida, quando eu não dever mais ao futuro e puder ser apenas um homem, que nos encontraríamos e você viria a mim e me fizesse seu e soubesse que sou seu marido. É um sonho que eu tenho.

E no cair da noite, a poucas horas da batalha com seu filho…

Arthur chama por Merlin: “Se você estivesse ao meu lado, meu velho amigo, para me dar coragem. Não há artifício de guerra que enganará Mordred e Morgana. Mais do que nunca, preciso de você. Onde você está? Se você pudesse me brandir Excalibur novamente. Onde esteve todos esses anos?

– Merlin: Você me trouxe de volta. Seu amor me trouxe de volta. Estou no lugar em que você está agora, na terra dos sonhos.

– Arthur: Você é só um sonho?

Merlin: Um sonho para alguns, um pesadelo para outros!

Começa a luta, a última de suas vidas, restam apenas Arthur e Percival até a chegada do valente Lancelot: “Minha salvação é morrer como um Cavaleiro da Távola Redonda”.

– Arthur: Você é isso e muito mais. Você é nosso maior cavaleiro, você é o que há de melhor no homem.

– Lancelot esta morrendo: É a velha ferida, meu Rei.

– Arthur: Ela jamais sarou.

– Lancelot: Guenevere, ela é rainha de novo?

– Arthur: Ela é Lancelot.

Pai e filho se enfrentam, um combate mortal. “Venha pai, vamos nos abraçar, finalmente”.

A névoa se foi. O Sol nasce…

– Arthur: Percival pegue Excalibur, encontre um lago de águas serenas e lance a espada. Um dia, um rei virá e a espada será erguida novamente.

No lago, lá está a Senhora do Lago pronta para receber a alma de um Rei, o local onde reside a espada do poder, da justiça e da esperança.

Agora Arthur descansa nos braços das três grandes Deusas, a Mãe, a Amante e a Esposa, rumo a Avalon, a Terra Sagrada da Magia.

E se alguém me perguntasse por quem os sinos dobram, eu diria: Eles dobram por ti, meu Rei, meu Amor – Um Homem feito de Arthur, de Merlin, de Lancelot e Percival, seres incomuns, seres sagrados.

 

 

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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