Arteterapia nas paisagens das velhices

Pesquisa de mestrado em Gerontologia Social da PUC-SP explora a Arte em sua mais alta potência para transformar e inserir os velhos e as velhas em outras paisagens ofertadas pelas velhices.


A pesquisa tem como eixo principal a história de uma bailarina chamada Elisa cujo nome artístico era Zuzima. Após um derrame, ao fazer reabilitação, ela é exposta a Arteterapia, onde encontra meios de resgatar a potência de vida perdida em meio à patologia. O trabalho com Elisa é utilizado para ilustrar um método de trabalho criativo e que ao ser replicado, pode favorecer diversos tipos de velhos. Portanto, o leitor desta pesquisa deve compreender, Zuzima como potência máxima na vida de Elisa e como parte potente e existente no âmago de todo e qualquer idoso que sofre de um nada querer em sua velhice. Para as velhices fragilizadas, este trabalho propõe uma Arteterapia que busca na força da Arte e no método desenvolvido, condições de resgatar as diversas Zuzimas oprimidas pelo Niilismo encontrado nas mais diversas maneiras de envelhecer.

As velhices com vidas diminuídas pelas circunstâncias desfavoráveis, podem, por meio da Arteterapia, serem modificadas em um viver capaz de oferecer a todo e qualquer idoso o poder de transformação e a flexibilidade para adaptar-se às novas paisagens apresentadas durante o caminhar e o envelhecer. A Arteterapia, atrelada a Gerontologia torna-se um meio potente de construir cenários, mais interessantes e belos, para os velhos poderem, enfim, perceber que no longeviver existe a possibilidade de transformar paisagens em um contexto representativo capaz de apontar belezas no final do caminho. O Método PREAMAR, apresentado na pesquisa intitulada “Arteterapia nas paisagens das velhices: Método PREAMAR de intervenção”, composto de sete passos de intervenção, é um meio de aplicar, de maneira eficaz, uma Arteterapia eficiente e modificadora de velhices.

Na pesquisa a fragilidade, evocada como condição humana, pretende mostrar por meio da história da bailarina Zuzima, a transformação ocorrida na vida e nos rumos profissionais de quem, um dia, teve a sorte de viver de forma intensa e criativa a oportunidade de ter essa grande mulher ao lado.

Pergunta da pesquisa

Situações compartilhadas e aprendidas com idosos de uma Instituição de Longa Permanência de grande porte na cidade de São Paulo, com os idosos do Atelier de Arte&Inclusão e do Faça Memórias que acontecem em museu de São Paulo, com os velhos acolhidos em um Centro Dia particular e público e, enfim, com os idosos que fazem parte do nosso caminhar profissional, levaram-nos a refletir sobre as intervenções feitas a partir da Arteterapia a favor das velhices. Questionar a Arteterapia como conduta capaz de intervir positivamente na construção de uma outra maneira de viver a velhice, norteou a pesquisa aqui apresentada.

Relevância

Ao compreender a velhice, ou melhor, dizendo, as velhices, já que são múltiplas, percebemos a mudança como parte deste processo inerente a vida. O envelhecimento concretizado na aparência, nas perdas físicas e principalmente nas perdas sociais, pede aos velhos que desenvolvam uma habilidade de se reinventar, para poder, enfim, existir como sujeito idoso.

A Arteterapia favorece a compreensão dessas mudanças e a elaboração desta nova condição, portanto é uma intervenção potente a favor da Gerontologia e das velhices favorecendo a condição de ressignificar vidas, aprender a conduzir os próprios passos e a transformar pessoas e grupos em algo melhor e maior. É possível reabilitar e tratar idosos em sofrimento físico e emocional levando, através das propostas, uma maneira de suavizar a dor nas velhices desprovidas de encantamento e elaborá-la com criatividade e emoção por meio de um resultado plástico que colabora com estima pessoal, muitas vezes aniquilada pelo sofrer e pelo envelhecer.

Nas velhices, torna-se uma maneira eficaz de clarear o estranhamento que ocorre, em todos os níveis do viver e do longeviver.

Aproximar a Arte da velhice com o olhar multidisciplinar da Gerontologia tornou-se o método de trabalho usado nesta pesquisa de caráter retrospectivo, descritivo e qualitativo.

Temas enriquecedores, a História da Arte, movimentos artísticos, visitas a exposições e a escolha de um fazer que possa totalizar o sentido aos grupos, serviram como facilitadores do processo de transformação das paisagens das velhices dos idosos participantes deste caminho, expostos a uma Arteterapia que aborda uma conduta entusiasta e inovadora de se trabalhar as velhices.

Conclusões

A experiência vivida com a Elisa tornou-se o eixo central desta dissertação e dos caminhos profissionais trilhados.

Nossa pesquisa aponta um método de trabalho descoberto durante aquela vivência e que se demonstrou eficaz para todos os velhos que, posteriormente, cruzaram nosso caminho. Elisa tornou-se o que o sociólogo Max Weber chamou de “tipo ideal”, cujo conceito é explicado por ele como uma generalização que funciona apenas como referência para se compreender uma realidade. Para Weber, o “tipo ideal” é um instrumento de pesquisa do saber sociológico, é uma construção mental do pesquisador, o qual enfatizará aspectos que deseja estudar daquele dado objeto (ou fenômeno) de estudo. Para o sociólogo, a construção de um tipo ideal contribui para precisar o conteúdo de diversos conceitos. E é “somente desta maneira, partindo do tipo puro (ideal), pode-se realizar-se uma casuística sociológica” (OLIVEIRA, 2008).

Elisa permitiu que selecionássemos uma série de intervenções construindo assim um “tipo ideal”. Desta maneira, velhos e velhas que passaram a fazer parte de nossa paisagem, puderam se favorecer dos ensinamentos vislumbrados através de sua história. A compreensão dos fatos, da vida e da velhice pode clarificar-se em meio ao cenário atual.

A metodologia aprendida e replicada mostra-se eficaz na transformação das paisagens que em muitas velhices são desprovidas de encantamento.

Quem deveria conhecer os resultados

Ao entender a Arteterapia como uma ferramenta essencial à Gerontologia, os idosos, de todos os tipos de velhice, exibidos a essa prática, adquirem o direito de serem expostos a tudo aquilo que os transformem em algo maior. A Arteterapia enriquece com novas possibilidades o caminhar gerontológico a favor da compreensão da complexidade do envelhecer e proporciona experiências de criação, autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Deve ser, portanto, incorporada às condutas multiprofissionais que favoreçam a qualidade de vida nas velhices.

O “saber fazer” de cada área deve ser compreendido, por fim, para se escolher as interferências que melhor favoreçam o existir. Faz-se hora dos profissionais ligados ao envelhecimento conhecerem a Arteterapia como conduta para incorporar essa prática nas intervenções que favoreçam as velhices e a própria vida dos velhos pulsante de desejos sufocados, em muitas vezes, pelo longeviver.

Referências
ABREU, Maria Célia de. Velhice: uma nova paisagem, São Paulo: Ágora, 2017.
BEAUVOIR, Simone. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
OLIVEIRA, Carla Montefusco de. Método e sociologia em Weber: alguns conceitos fundamentais. Revista Eletrônica Inter-Legere – Número 3 (JUL/DEZ 2008).

Serviço
Pesquisa: Arteterapia nas paisagens das velhices: Método PREAMAR de intervenção
Autora: Cristiane Tenani Pomeranz
Orientadora: Beltrina Côrte
Instituição: Mestrado Social, PUC-SP
Ano: 2017


Inscrições abertas: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/curso-mediacao-familiar/

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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