Aprendendo a ser líder

Curso de formação de lideranças reúne velhos e gente mais jovem já preocupada com o tempo de vida mais esticado e suas implicações. Trata-se do Comunidade Ativa, uma experiência bem sucedida e essencialmente fomentadora de bem-estar social, promovido pelo Centro de Referência do Idoso Zona Norte (Cri Norte), na cidade de São Paulo.

Maria Antonia Demasi *

 

idoso-aprende-a-ser-liderUma experiência bem sucedida e essencialmente fomentadora de bem-estar social é o Curso Comunidade Ativa promovido pelo Centro de Referência do Idoso Zona Norte (Cri Norte), na cidade de São Paulo.

Em 2015 aconteceu a terceira edição do Projeto. Para Diego Felix Miguel, Gestor do Centro de Convivência e Comunicação do CRI Norte, “o efervescente e polêmico momento político pelo qual o Brasil está passando explica o grande número de inscritos – 35 – e a participação de adultos, idosos e jovens.

idoso-aprende-a-ser-liderA formação desse interessante painel intergeracional parece capaz de estimular o desaparecimento de uma certa estranheza e mal estar no convívio entre diversas idades.

Nesse grupo do curso Formação de Lideranças, velhos que não esperavam viver tanto e, para quem a longevidade nunca foi uma questão, encontram gente mais jovem já preocupada com o tempo de vida mais esticado e suas implicações.

Os organizadores do projeto acreditam ser fundamental nos sensibilizarmos com a necessidade do outro, de todos os outros atores sociais.

A ideia norteadora é fortalecer os idosos para assim estarem capacitados para articulação de interesses comunitários.

– “Temos que tomar cuidado com discursos segregatórios. Quando falamos de envelhecimento e velhice, estamos falando de políticas públicas para todos,” conclui Diego.

Os temas abordados no curso espelham essa preocupação:

– Velhice: aspectos culturais e sociais.

– Movimentos Sociais – participação dos idosos.

– Políticas Públicas para a pessoa idosa.

– Fórum e Interfórum do Idoso – um espaço de debate.

– Conselhos de Idosos: monitorar e participar das políticas.

– Conferências dos direitos da pessoa idosa.

– Violência e maus tratos contra o idoso.

– Protagonismo e empoderamento da pessoa idosa: por um Brasil de todas as idades.

Dada a temática e o perfil da plateia, poder-se-ia imaginar uma conversa mansa ou uma escuta passiva. Passaram longe disso. Houve debates calorosos durante as discussões de aspectos culturais e sociais da velhice à violência e maus tratos contra os idosos.

idoso-aprende-a-ser-liderAndréia Cristiane Magalhães – gestora do Serviço Social do CRI Norte e também coordenadora desse projeto, conta que, quando o assunto foi Políticas Públicas para a pessoa idosa, a discussão entre eles e a Dra. Marília Louvison, especialista na área, foi acirrada.

Os idosos afirmaram que não sentiam o impacto da implementação das políticas públicas citadas pela Dra. Marília, assim como também não percebiam no dia a dia a atuação das três esferas do governo. Para eles, a falta de conhecimento pode estar ligada à falta de divulgação dos serviços já existentes.

Nessa edição, entre aposentados, líderes comunitários, participantes de Conselhos Municipais de Idosos, experientes assistentes sociais e uma jovem advogada do Ministério Público Estadual, uma senhora de forte presença e participação: Vera Fritz. Ela tem 64 anos e mora em Valinhos, a 80 km de São Paulo. Conseguiu junto à Prefeitura um carro para trazê-la a São Paulo todas as quintas feiras durante três meses, período de duração do Curso. É que ela é Presidente do Conselho de Idosos desse município de cerca de 110 mil habitantes.

– “Para que o Conselho funcione, o conselheiro tem que ter conhecimento, estar capacitado, caso contrário, a gente finge que faz escolhas e o poder público finge que faz sua parte”, afirma Vera.

idoso-aprende-a-ser-liderFoi exercendo essa função que percebeu que as demandas levantadas e as informações que circulam pelas reuniões do Conselho poderiam reverberar entre outros segmentos da sociedade civil e estimular a participação comunitária nas ações do Conselho. Hoje Vera tem um programa semanal na Rádio Comunitária Valinhos FM 105,9 KW, o “Vivendo e aprendendo”.

Para encerrar o Curso, o tema escolhido foi o Protagonismo e Empoderamento da Pessoa Idosa.

Nessa altura do processo, os participantes já estavam familiarizados com o tema, por isso, a palestrante convidada, Sandra Regina Gomes, Mestre em Gestão e Políticas Públicas na Fundação Getúlio Vargas (SP), foi interrompida várias vezes por idosos que, do alto de suas experiências práticas, alertavam sobre as idiossincrasias do funcionamento das estruturas por ela apresentadas. “É mesmo muito difícil entender a máquina pública”, confessou Sandra depois de ouvir de um idoso que o dia a dia de um Conselho é muito diferente do que era apresentado por ela.

Difícil e temeroso. Discutir, por exemplo, Financiamento e Gestão, com as implicações e interesses envolvidos nessas questões, é tarefa árdua e ingrata, pois, o silêncio dos idosos ou manifestações titubeantes podem acarretar resultados finais muito diferentes dos desejados.

idoso-aprende-a-ser-liderNesse sentido, a autogestão de si torna-se instrumento fundamental para evitar o risco sempre presente, apontado pelos idosos, de serem manipulados por esferas federais, estaduais e municipais de poder.

Certamente não serão os três meses de curso que darão conta dessa lacuna de cidadania e formação apresentada pelos idosos. Essa é uma ausência herdada de sucessivos regimes políticos autoritários que nos legaram a falsa percepção de que nossos caminhos devam ser construídos única e prioritariamente pelos governantes.

* Maria Antonia Demasi – Jornalista e mestranda do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Email: tonhademasi@gmail.com

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