Apenas XXI

Jerusalém, junho de 2013. Assisti ontem a reportagem sobre mulheres israelenses em frente ao Muro das Lamentações exigindo apenas orar, sob o protesto de judeus ortodoxos.

Mauisa Annunziata *

 

apenas-xxiProcuro e encontro o que escrevi há alguns anos atrás:

“21 séculos? Foram necessários esses 21 séculos?”

A primeira ideia não foi essa. Ou melhor, foi este o primeiro assombro. Guardei o susto e a constatação. Envolviam uma reviravolta nas ideias em voga nas quais acredito, sobre a capacidade idêntica entre homens e mulheres. Além disso, depunha contra quem eu queria defender: a mulher, eu mesma. Deste novo ângulo, parecia lenta, sem iniciativa e tímida a ação da mulher, nada parecida com minhas amigas ou com as fotos das revistas.

Leituras e conversas e eu voltava à questão. Eram 21 séculos e ainda! Lembranças, preceitos, preconceitos, costumes. Crenças, ah, o peso das crenças! Mais leituras, conversas, piadas, cenas remoídas. E dias somados aos 21 séculos.

Eu mesma vivera a diferença de tratamento na casa de meus pais. Minha irmã e eu só nos servíamos das batatas fritas depois que nossos dois irmãos homens fossem servidos à vontade. Minha irmã, não sei, mas eu lembro de meu olhar enviesado, ávido sobre a travessa, torcendo para que sobrassem mais batatas que no jantar anterior.

E voltava o peso enorme daquela eternidade. 21 séculos DC. E os AC? Chocante. A mulher vivera (vive) a desigualdade. Pensara (pensa) sobre isso certamente. A busca pela igualdade começa (quando?) a ter resultados no século 20. Guerras mundiais, necessidades de mercado, mudanças de comportamento. Fora essa a primeira vez que a situação se apresentara então? Não teriam sido suficientes três, cinco séculos, por exemplo, para a mulher rebelar-se? Hello-ôô!! Onde a esperteza, a vivacidade, a inteligência? Oh, acuda, minha Santa Tereza D´Avila! Sábia da igreja que se submetia a consultar humildemente os clérigos superiores

A revolta das batatas fritas e tudo o mais na minha história eclodiu aos 30 anos mais ou menos. A reflexão andou por aí, entre batatas e guerras mundiais. O que tive a meu favor? O que faltou às mulheres antes disso? Tapetes, crochês, bordados e cuidados anestesiam? Aos trinta, separei-me da família, aos trinta e quatro, do marido. Motivo: percebi, senti na pele, por todos os lados a desvalia, a menos valia. Fiquei com meus quatro filhos e um futuro de muita luta. Que coragem, diziam. Coragem é a espada nas mãos do medo, eu digo. A revolta e os sonhos me levavam em frente.

Isso tudo, crescendo dentro de mim, eu tive a meu favor. Mais a necessidade-mãe que impulsiona.

Mas não só. Havia já muitas mulheres em volta e antes. Posso mastigar a vida por vinte e cinco anos, sem entender o porquê de receber menos batatas fritas no prato. Não posso conviver com a desvalia quando muito perto encontro tantas semelhantes. Também havia lembranças fundas de minha avó e de minhas nove tias. Não era só eu. Não era só minha essa história. Vinha sendo escrita desde a ancestralidade. Éramos uma legião. A legião que finalmente se reunira no XX século. No meu tempo. Só uma legião faz mudar.

É preciso um tempo para que a dor ocupe o espaço interno e inteiro das pessoas. É preciso que doa muito. É preciso um tempo para que o assombro se transforme em garra. Para que uma queixa seja lágrima, que a lágrima seja choro, que o choro seja forte, que o grito seja de guerra e se faça ouvir. Vem de longe, das entranhas e de muitas.

Paro. Algo quer dizer dentro de mim.

Os ouvidos internos, feitos da história e da intuição, ouvem cenas mudas. Como cinema antigo. Palavras abafadas, histerias mal controladas, soluços tropeçando ampulhetas. Calendários em pedra. Vêm nem sei de onde no tempo. E os grandes silêncios dos sentimentos fundos, dos sonhos, das contestações e falas em vão. Exceções raras. Caladas na areia da resignação, dos excessos, da violência.

Uma a uma ainda existe, sem voz. Sem possibilidade. Sem indício ainda de legião. Foram sim necessários 21 séculos. Mais serão precisos.

* Mauisa Annunziata: pedagoga, especializada em Criatividade, com formação em Fenomenologia na Coordenação de Grupos. Poeta e cronista mauisa@uol.com.br

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