Angels4U: centro-dia promove relações intergeracionais por meio da tecnologia

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O espaço em que a intergeracionalidade mais se concretiza no Centro-Dia Angels4U ocorre nas atividades em que estudantes de um colégio próximo do bairro visitam o CDI. Com essa atividade, os jovens conseguem se aproximar mais dos idosos e da sua história de vida, seus gostos e desejos.

Isabela Torrescasana Centrone Martins, Lígia Perez, Gabriela Sawaya e Thaís L. R. C. Lisbôa (*)


Localizado no bairro da Saúde, em São Paulo, Angels4U é um centro-dia (CDI), ou seja, espaço destinado à idosos para que estes permaneçam no período diurno, proporcionando-lhes saúde física e mental por meio de integração social e atividades de lazer e cultura. Com a direção de Cláudio Hara e Leonice Martins Sapucaia, ambos mestres em Gerontologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, a Angels4U conta com uma equipe multidisciplinar experiente e capacitada que atua com reabilitação, oficinas de memória, terapias direcionadas, integração, lazer e estimulação de um convívio social.

No entanto, um fator muito interessante que difere o Angels4U de outros centro-dias, é a presença de Ana Nakamura, atual doutoranda em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, onde realiza um trabalho aproximando os idosos que frequentam o espaço com tecnologias da atualidade, algo que provavelmente eles nunca tiveram contato na vida.

Com esse foco, nós, alunas do curso de graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, Isabela, Gabriela, Lígia e Thaís, entramos em contato com Fernanda, assistente social que atua no CDI, e conseguimos marcar um encontro presencial no próprio local onde esta trabalha. A ideia principal foi fazer um pequeno vídeo despretensioso mostrando o local de trabalho de Ana e as reações dos idosos frente às tecnologias digitais utilizadas no CDI.

Ao chegarmos, Fernanda nos mostrou o local e, mesmo que tenhamos tido um contato mais superficial com os frequentadores do CDI nesse dia, foi marcante a recepção calorosa de alguns deles, com “bom dias” animados, acenos e até apertos de mão. Subimos para o andar de cima e conversamos com Fernanda sobre o nosso projeto, que era pretendido fazer como produto um vídeo e ela sempre se mostrou interessada em ajudar. Ela nos contou mais sobre o CDI, falou sobre a maioria dos idosos ali possuir um quadro de demência, o que fazia com que a interação com eles não fosse muito fácil e, por isso, propôs que fizéssemos filmagens apenas em uma segunda visita. Discorreu sobre a maioria dos idosos serem descendentes de japoneses por conta da região (Ipiranga) e que por isso traziam referências à cultura no CDI (calendário e DVDs em japonês). Contou também que há pouco haviam tido uma experiência com universitários da área do Jornalismo, os quais visitaram regularmente o CDI por meses, e apesar dos frequentadores possuírem graus variados de demência, a presença contínua desses estudantes não era totalmente esquecida, muitos se lembravam de jovens no local. Além disso, explicou que o trabalho da Ana não estava mais tão focado na tecnologia digital e sim em jogos no geral.

Tendo em vista que Ana realiza suas atividades no CDI às quintas-feiras, fomos convidadas para comparecer lá novamente na semana seguinte.

Antes essa visita, trocamos mensagens via WhatsApp com Ana e marcamos de nos encontramos na PUC-SP, já que ela, assim como nós, está estudando na universidade, mas na pós-graduação. Ela nos contou sobre seu trabalho de mestrado na área de envelhecimento e games e nos disse que atualmente o que mais fazia na Angels4u era propor jogos de tabuleiro, já que muitos idosos têm uma resistência grande a jogos digitais em plataformas como o Wii ou o iPad e que esses jogos, por serem mais individuais, acarretavam em uma espera muito grande, fazendo com que alguns perdessem o interesse de jogar antes mesmo de chegar sua vez. Porém, ela reforça que a atividade com esse tipo de jogo não foi abolida, apenas diminuiu em frequência e reforçou o convite que a Fernanda havia nos feito para participarmos.

Logo que chegamos, R., um dos frequentadores do CDI, nos cumprimentou com as mãos e disse que éramos bem-vindas; várias outras pessoas repetiram a fala. Uma das idosas perguntou interessada a uma cuidadora se eram os alunos de Jornalismo novamente. Começamos a nos colocar mais no local a partir da apresentação a cada um dos que estavam presentes feita por Ana, Leo (diretora técnica) e pelas cuidadoras. Uma de nós jogou triminó – um dominó no qual as peças possuem três extremidades, o que demanda muito mais da cognição -, a outra Jenga e as outras duas fizeram interações com efeitos de câmera do aplicativo Instagram por meio do iPad.

Durante o Jenga foi percebido a discrepância de limites e também de personalidade das jogadoras. M. precisava de muito auxílio e nas últimas partidas parecia se aproveitar um pouco do auxílio, deixando que a cuidadora ou as outras participantes exercessem a jogada por ela. P. precisava de alguma ajuda e ria muito enquanto jogava, não importava se por nervosismo ou diversão. O. era mais independente e falava que ninguém devia deixar “moleza” para as outras, que elas na verdade não precisavam de ajuda. O sentimento foi de fato de participante da dinâmica, já que o tratamento não mudava quando elas se referiam a alguém do CDI ou à estudante do grupo. Houve um momento no qual mais duas estudantes se juntaram à partida e o tratamento continuou o mesmo, sem um impedimento com relação às diferenças de idade.

O triminó foi um grande desafio para todos os membos, inclusive para a participante do grupo. Foram jogadas mais de 6 partidas seguidas e foi observado que mais pro final do jogo os idosos pareciam errar mais vezes, se desinteressando um pouco. Porém até essa fase de maior cansaço, eles tentaram muito se dedicar ao jogo e acertar suas colocações, inclusive ajudando uns aos outros. O jogo se tornou muito mais uma busca por vitória coletiva e colaborativa do que uma vitória individual e competitiva.

Já a interação com o Ipad foi realizada com os idosos que possuem uma interação maior e uma maior abertura para a atividade. As alunas, junto com a Ana, iam mostrando os diversos efeitos (cachorro, coração, etc.) e tiravam fotos/vídeos para mostrar os resultados. No início alguns participantes pareceram confusos com a nova tecnologia, mas logo se adaptaram e deram muitas risadas da situação. Como só havia um Ipad, somente um idoso por vez poderia participar da interação, o que deixava os outros bastante curiosos e animados para experimentar também. Alguns efeitos necessitavam de um maior manejo da tecnologia do que simplesmente posar para as fotos, como aplicar a boca, dar um sorriso ou erguer as sobrancelhas. Embora alguns idosos possuíam algumas limitações quanto a esses movimentos, todos foram capazes de interagir com os filtros engraçados dessa tecnologia nova para eles.

Algo que Ana já vinha fazendo a algum tempo era colocar música em um fone de ouvido grande e potente, até com abafadores de ruído. Esta havia feito uma playlist no Spotify (aplicativo de música) com músicas que ela acredita serem as favoritas de muitos idosos brasileiros, como o clássico “Trem das Onze”. Foi muito interessante observar essa interação de perto, pois ao abordar alguns idosos para experimentarem essa tecnologia, eles aceitavam de forma muito natural, com nenhuma restrição ou medo, e logo que a música começava, muitos cantavam as músicas de cor. Ao escutar I. cantando, muitos frequentadores do CDI começaram a cantar também, mesmo não estando escutando a música.

O último encontro foi realizado em uma quinta-feira de manhã e uma das participantes não conseguiu ir. Neste jogamos Wii Fit com alguns idosos e filmamos bastante o espaço realizando entrevistas com Ana e com Leo, para compor nosso vídeo. Nesse encontro foi onde conseguimos ter uma maior interação, por já estarmos mais habituadas ao espaço e por já termos nos relacionado com os idosos mais de uma vez. Tivemos a possibilidade de jogar Wii com idosos que já estavam mais predispostos e animados para a atividade (mesmo aqueles que possuíam dificuldade de locomoção conseguiram participar sentados) e conseguimos interagir com os outros através de conversas e compartilhamentos sobre a vida, além de assistirmos juntos o show de um cantor oriental na televisão. As conversas eram muito espontâneas e não parecia haver uma barreira entre as diferenças de idade que impedia uma comunicação. Uma das participantes do grupo escutou uma idosa dizendo que já morou na Vila Mariana e, a partir disso, as duas iniciaram uma longa conversa sobre o bairro e suas mudanças, já que a mesma mora nesse mesmo bairro atualmente.

As entrevistas com Ana e Leonice foram realizadas por meio de um roteiro pré estabelecido sobre informações que interessavam e tinham relevância para a produção do vídeo (sobre o Centro Dia, rotina, atividades e como surgiu a ideia de unir atividades com tecnologia para idosos) e que fosse possível captar as ideias principais de forma sucinta e rápida, principalmente para quem não conhece o trabalho realizado e o local. Ao final, para unir todas as gravações do local, das atividades e das entrevistas, fizemos um pequeno vídeo de aproximadamente sete minutos editado por uma colega de uma das participantes que trabalha em multimeios e mostramos em sala de aula para a turma da eletiva da qual fazemos parte.

O trabalho foi muito enriquecedor para as alunas, mesmo que o período de convivência e contato tenha sido pouco. Com apenas três encontros, foi possível entender e observar a rotina do CDI, se aproximar um pouco dela e poder acompanhar de perto o incrível projeto da Ana de integrar a tecnologia na vida destes idosos. A atividade foi muito engrandecedora pelo fato de que ainda não tivemos contato na psicologia com atividades e aulas/matérias ligadas especificamente com a velhice, contribuindo ainda mais na nossa formação como futuras psicólogas. Foi uma ótima oportunidade para observar o quão necessário é promover uma psicologia para todas as idades, que os velhos possuem sim muitas debilidades e patologias no campo médico, porém atrelado a esses fatores há a necessidade de um cuidado também da saúde mental.

Podemos observar a questão da intergeracionalidade nas atividades que Ana proporciona, mas o espaço em que a intergeracionalidade mais se encontra são nas atividades que ocorrem às sextas-feiras, em que estudantes de um colégio próximo do bairro (Colégio Soka) visitam o centro dia. Nesta atividade, os estudantes realizam troca de cartas com os idosos, que é um momento muito enriquecedor para a troca de experiências, histórias e informações. Com essa atividade, os jovens conseguem se aproximar mais dos idosos e da sua história de vida, seus gostos e desejos.

Além da atividade semanal que o centro dia proporciona para os idosos de integração com os jovens do Colégio Soka, o curto intervalo de tempo que passamos de atividades no centro dia proporcionou uma grande manifestação da intergeracionalidade. No período que participamos, além dos diversos jogos que brincamos juntos, foi possível realizar uma enorme troca de informações, compartilhando histórias e gostos em comum.

(*) Isabela Torrescasana Centrone Martins, Lígia Perez, Gabriela Sawaya e Thaís L. R. C. Lisbôa são estudantes do curso de Psicologia da PUC-SP. Este texto foi escrito para a eletiva ofertada pela Universidade intitulada Relações intergeracionais mediadas pela Tecnologia, ministrada no segundo semestre de 2019 pela profa. Beltrina Côrte. E-mail: ligiabperez@gmail.com


Serviço

Centro-Dia Angels4U
Fundado em 01/07/2015
Avenida do Cursino 290 – São Paulo
Fone: (11) 5062-2916
Informações: contato@angels4u.com.br http://www.angels4u.com.br/


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