Anacrônicas: O Desenvolvimento Não Pára nº1**

Toda vez que penso em sugerir a pessoas mais idosas que reflitam sobre as possibilidades de elas prosseguirem em seu desenvolvimento pessoal e de não pararem de investir em si mesmas, tendo em vista sua plena realização, acabo me fazendo duas perguntas:

Waldir Bíscaro *

 

1 – Tem cabimento, a essa altura do campeonato, falar em prosseguir, em continuar a investir, quando tudo já deveria estar concluído?

2 – É possível que uma pessoa, já avançada na idade e com hábitos mais do que consolidados, venha a modificar suas condutas, seu modo de pensar e suas posturas perante a vida?

Para se responder a essas indagações, temos de apelar para a crença de que há vida após a maturidade cronológica, há potencial humano a ser desenvolvido e há ainda em nós espaços a serem preenchidos. Aos sessenta, aos setenta, aos oitenta, aos noventa e até aos cem anos e mais…

Se assim é, tem todo cabimento falar-se em continuidade. O homem é um ser incompleto ou, melhor, um ser em permanente construção e, enquanto for vivo, compete-lhe completar o que foi iniciado lá em sua infância. Se fosse anjo ou se fosse pedra ele estaria dispensado de se preocupar com essa busca de “completação”.

Como ser pensante, dotado de arbítrio e consciente de sua situação no mundo, ele pode e deve construir seu pleno desenvolvimento ou chegar o mais próximo possível dessa plenitude.

O pressuposto dessa afirmação é o de que as pessoas podem mudar seu comportamento, sua conduta, seu modo de lidar com os outros e com as coisas, a partir da mudança de suas atitudes.

Atitude, em linguagem simples, quer dizer vontade de fazer, estar predisposto a agir de determinada forma. Toda pessoa pode aprender novas atitudes ou novas predisposições para agir de uma forma diferente da habitual.

Para que isso aconteça, essa pessoa precisa começar a mudar seu modo de pensar e ampliar sua mentalidade. O idoso, em vez de achar que não tem mais capacidade de aprender coisas, vai começar a ver possibilidades que estão ao seu alcance. Por exemplo, vai pegar um livro de História Universal que está lá no canto descuidado e ler o episódio da Revolução Francesa ou as causas da segunda guerra mundial.

A priori, não dispomos de nenhuma base científica para garantir qualquer afirmação a favor dessa possibilidade de mudança de vida, mas o que não faltam são relatos e mais relatos de casos e exemplos significativos de pessoas idosas que deram a volta por cima.

Aqui, para encurtar caminho, vamos partir de uma crença de que toda pessoa, em qualquer fase de sua vida e desde que perceba a necessidade de mudar e queira mudar, pode iniciar um processo de revisão de seus hábitos e de sua mentalidade. É por isso que nos permitimos falar em “construção da maturidade”, mesmo na terceira idade.

O cochilo da Psicologia nº 2

Parece que falar em “construção” da maturidade na terceira idade não passaria de um contra-senso que jamais corresponderia à realidade. Na terceira idade, tudo já deveria estar construído, especialmente em relação à formação da personalidade. A construção que não se deu na infância ou na adolescência e nem mesmo na juventude, não teria o mínimo cabimento em uma etapa considerada a última, na linha da evolução humana.

Assim pensava a maioria dos psicólogos até a metade do século vinte. Da mesma forma como o desenvolvimento morfológico do homem tem seu limite determinado pela genética, também o desenvolvimento mental e emocional teria um ponto de estacionamento pré-determinado.

Durante muito tempo prevaleceu na psicologia o pensamento de que o desenvolvimento da inteligência humana estacionaria lá pelos vinte ou vinte e um anos. Quase o mesmo ocorreria com a formação da personalidade. Daí em diante, haveria uma manutenção e, em seguida, declínio.

O que ocorria, em realidade, era a quase total ausência de estudos específicos da maturidade cronológica e menos ainda estudos a respeito do envelhecimento; tinha-se a impressão de que os únicos objetos de estudos da psicologia eram crianças e adolescentes.

Havia sim um espaço garantido para o adulto nos estudos da psicologia, mas somente no capítulo da psicopatologia e, na prateleira das patologias, o adulto tinha plena liberdade de escolher para si o distúrbio que melhor lhe aprouvesse ou lhe conviesse, desde uma boa neurose até uma terrível esquiso…

Se alguém pretendesse conhecer melhor a psicologia do adulto, teria de recorrer à literatura.

É provável que Dostoievski – que voltei a ler após mais de cinquenta anos – tivesse melhores análise da alma humana do que qualquer outro mestre da psicologia, em se tratando de pessoas adultas e mesmo as já idosas. A chamada “psychologie laïque” foi, durante muito tempo, a única fonte de referências.

Aliás, bem antes de Dostoievski, vamos encontrar em Shakespeare uma descrição das sete idades do homem, na fala: O mundo inteiro é um palco. Nesta fala, ele deixa claro uma perspectiva pessimista do envelhecer do homem, perspectiva essa que prevaleceu entre muitos intelectuais até há pouco tempo.

São relativamente recentes os estudos que abordam mudanças na vida adulta. Foi graças a Jung, Havighurst, Erikson, Levinson, Charlotte Bühler, e especialmente Sanford, entre outros, que a psicologia se redimiu dessa grave falha na consideração do adulto, especialmente sua omissão quanto à continuidade de seu desenvolvimento. Nem podemos deixar de lado o trabalho de Gail Sheehy que assumiu como missão pessoal abrir espaço para o desenvolvimento adulto.

O que há de comum entre esses mestres é um descolamento em relação ao determinismo freudiano. Para Freud, adulto não passava de uma criança crescida e, quase sempre, muito mal elaborada. E a personalidade segundo ele já estaria mais ou menos determinada quando a criança chegasse aos cinco anos, de modo que a vida do adulto seria entendida como mero desdobramento de algo que já foi definido na infância. Na visão de Freud não havia espaço para mudanças e desenvolvimento na vida do adulto.

Foi no estudo de muitas biografias que os pósfreudianos perceberam possibilidades de outras fases em que o indivíduo poderia programar e percorrer caminhos diversos de crescimento.

** Anacrônicas

Já falei aqui, algumas vezes, do meu interesse pelo estudo do envelhecimento – afinal tenho de me cuidar – e de minha participação em grupo de estudos da maturidade que se reúne semanalmente desde 2001. Falei também de cursos que fiz na PUC-SP, também dentro da temática do envelhecimento. Por conta disso tudo, escrevi uma série de artigos que versam sobre a necessidade que tem o idoso de continuar pensando em se desenvolver. O tempo que ele tem pela frente pode ser curto, mas a vida é sempre longa…

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC-SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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