Amor… O soberano do Tempo Kairós*

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Sou Kairós, filho de Cronos, Deus soberano das estações e do paradoxo vida/morte. Eu represento o ‘momento certo’. Depois de anos, escapei da tirania de meu pai, e assumi um tempo não-linear, aquele que não se pode determinar ou medir, um tempo que não prevê término, mas sim a ideia de tempo vivido, aquele que criamos no espaço da subjetividade, no mundo da metáfora. Não importa, mesmo pequeno, mesmo composto por míseros segundos, esse ‘momento certo’ valerá uma vida, a nossa vida.

Luciana Helena Mussi *

 

amor-o-soberano-do-tempo-kairos“Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer… E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei…O amor é quando a gente mora um no outro”. Esta frase, de Mario Quintana, expressa sentimentos suspensos nos não-ditos do amor.

Como toda boa história tem seu início por um “era uma vez”, essa também seguirá os mesmos passos, pois foi assim que aprendi desde menina, lá pelos anos 1960, nas lindas histórias de bruxas, magos, reis e rainhas do então inocente “Tesouro da Juventude”. Para quem não sabe, a coleção editada por W. M. Jackson, Inc., é uma enciclopédia voltada para jovens e crianças, publicada inicialmente na década de 1920 e reeditada em 1958. Fez parte da educação de milhares de pessoas numa época em que os aparatos tecnológicos nem sequer passavam pela imaginação do mundo infantil e adulto.

Devo dizer que esse faz de conta, que aqui escrevo, está repleto de fatos reais, disfarçados pelo tom e ritmo da ficção inventada, tecida por restos de experiências vividas e percepções pessoais sobre um certo protagonista, ontem ainda menino, e hoje, um anacrônico homem, detentor de olhos espertos e cabelos lisos que, de maliciosamente pretos, se tornaram sabiamente brancos.

Este texto deve e muito às histórias do “Tesouro da Juventude”, matéria prima de quem sou hoje, de cada palavra cuidadosamente escolhida, cada imagem que chega sorrateiramente, surpreende e invade minha escrita. Sem esse encanto e magia, presentes de meu querido pai, nada disso seria possível.

Assim, era uma vez um menino de calças curtas, fala esperta, maroto a quintessência que, ainda bem cedo, já tinha respostas prontas e ligeiras, caso fosse questionado, segundo os critérios e ditames do mundo adulto. Um garotinho que, desde tenra idade, já sabia muito bem o que queria da vida e dos outros, principalmente das meninas: o danado adorava flertar com meninas ainda desprevenidas sobre o verdadeiro significado da sedução. Bem, esse jovem, eu não conheci. Nossas vidas ainda seguiam caminhos diferentes, como duas linhas paralelas que o tempo ainda não tinha tido a generosidade de fazer encontrar.

Mas, aviso aos navegantes: registro que todas as palavras que “repousam” sobre este papel são fruto de minha tresloucada imaginação que teve a ideia de criar o mundo desse menino apenas por sorte e obra do amor, desejo e profunda admiração que sinto pelo homem de cabelos brancos que o jovem se tornou.

Lá pelos seus 7 anos de idade, o meu menino (que de maluquinho nada tinha), descobriu que tinha um dom muito especial que o tornava diferente de todos os outros garotos: um dia, ele, meio que por acaso, brincando com os ponteiros do relógio, notou que a intensidade e determinação de seu olhar faziam com que o tempo parasse e que a deliciosa ação em curso poderia durar para sempre, de acordo com seu desejo. Quer dizer, as coisas simples e boas da vida dependiam só e tão somente da força de seus olhos.

Preocupado com o presente, gratuitamente ofertado por Deus ou, talvez até pelo Diabo – pensou o menino – o importante, após a misteriosa descoberta, era falar com a mãe. Sem contar o acontecido, a princípio divino (não se sabe se para o bem ou para o mal), ele se encheu de coragem e pediu a ela que o levasse ao médico para um exame completo de seus olhos e seu “interior”.

Sim, esse pequeno tinha lido na coleção que, mencionei inicialmente, que os olhos eram a janela da alma e do mundo e que, através deles, se poderia conhecer tudo do outro, sem fazer ao menos uma pergunta, apenas silêncio.

Bem, nem preciso dizer que o especialista nada encontrou de anormal. Assim o menino achou melhor deixar tudo como estava, manter segredo do seu dom, e continuar usufruindo do “presente” recebido.

amor-o-soberano-do-tempo-kairosEntretanto, num certo dia, terrivelmente fechado pela ira do sagrado, debaixo de chuvas e trovoadas, ele recebeu duas visitas inusitadas, vindas diretamente de uma brecha aberta nos céus: nada mais, nada menos que os Deuses da mitologia grega, Cronos e Kairós.

O primeiro diz: “Sou a representação do tempo cronológico e físico, compreendido como os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos, os segundos. Sou considerado o mais novo dos seis poderosos titãs que pertencem a primeira geração de seres divinos, filho caçula de Urano (Céu) e de Gaia (Terra). O poder do tempo pertence a mim”.

Depois foi a vez do segundo: “Sou Kairós, filho de Cronos, Deus soberano das estações e do paradoxo vida/morte. Eu represento o ‘momento certo’. Depois de anos, escapei da tirania de meu pai, e assumi um tempo não-linear, aquele que não se pode determinar ou medir, um tempo que não prevê término, mas sim a ideia de tempo vivido, aquele que criamos no espaço da subjetividade, no mundo da metáfora. Não importa, mesmo pequeno, mesmo composto por míseros segundos, esse ‘momento certo’ valerá uma vida, a nossa vida”.

Assim, pai e filho, contam a delicada história chamada “No oco da avelã” (1) ao meu amado menino/homem sobre um garotinho, Paul, que um dia resolveu aprisionar a própria Morte para impedir que sua mãe, já doente, morresse. Ele não tinha o dom especial de driblar o tempo, ele sabia da finitude das coisas e sofria pelo medo do fim.

Então, o plano arquitetado foi bem simples. Ao ver a figura de preto caminhando até sua casa, o menino decidiu roubar a foice da Morte, bater nela até que ficasse minúscula e aprisioná-la dentro de uma casca de avelã. Para completar o serviço, atirou a bolinha no mar. Pronto, a mãe não morreria mais, pensou Paul, orgulhoso do feito. Mas logo ele descobriu que não era bem desse jeito.

A Morte, de fato, não levou a mulher embora. Mas, assim como ela, todos os outros seres do mundo também escaparam do último suspiro. Plantas não desgrudavam da terra, peixes não eram pescados nem os ovos podiam ser quebrados. Paul percebeu, então, a confusão que causara no planeta. E aprendeu uma valiosa lição: sem morte, a vida se torna impossível.

Durante a busca do garoto pela avelã no fundo do mar, uma verdadeira jornada do herói que, creio, durou anos – até o meu menino virar o homem de hoje –, o fez perceber que nada é eterno, que o tempo contado pelos ponteiros do relógio é, infelizmente, finito, assim como as delícias da vida, e que tudo, exatamente tudo, precisa de renovação, não no sentido literal da mudança: o Amor, Soberano do Tempo Kairós faz com que o mesmo homem e a mesma mulher sejam reinventados a cada encontro, a cada instante.

E de pretos que eram seus cabelos, brancos eles viraram, para meu deleite e prazer. Esse homem de hoje ainda guarda a peraltice do menino maroto, um certo exotismo que lhe confere charme e mistério e uma sabedoria que o dom de seus olhos lhe ajudaram a reconhecer.

O menino pode até dizer, hoje, que sou suspeita, por razões óbvias do coração, mas nego e negarei veementemente: quem encontra os atalhos do tempo é sim especial, apenas seres com muito a dizer e fazer sabem transformar curtos momentos em inesquecíveis lembranças, mesmo para aqueles, como eu, que eternamente esperam por mais e mais minutos, horas e, com sorte, um dia, dias […].

Assim termino esse meu particular “era uma vez” com uma citação do poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII, Rumi: “O teu amor veio até meu coração e partiu feliz. Depois retornou, vestiu a veste do amor, mas mais uma vez foi-se embora. Timidamente lhe supliquei que ficasse comigo ao menos por alguns dias. Ele se sentou junto a mim e se esqueceu de partir.”

*Dedicado ao meu amado Menino/Homem, Senhor do Tempo Kairós.

* Luciana Helena Mussi – Engenheira, psicóloga e mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Doutoranda em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). Escreve sobre velhices, espiritualidade, cinema, gerontologia social e psicogerontologia. Email: [email protected] Currículo Lattes

Nota

(1) de Muriel Mingau (tradução Chantal Castelli). Editora: SM.

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