Alzheimer, uma questão de saúde pública, um problema mundial

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A Doença de Alzheimer já se torna uma questão de saúde pública e, como tal, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Alzheimer’s Disease International (ADI) pedem, através de um relatório oficial, aos governos e seus políticos um entendimento sério do problema, um posicionamento efetivo e medidas de controle e tratamento dos casos, a exemplo do que ocorreu nos anos 80 com o surgimento do HIV/AIDS.


Shekhar Saxena, diretor do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS diz: “A OMS reconhece o tamanho e a complexidade do desafio de enfrentar a demência e propõe aos países que encarem a doença como uma prioridade na saúde pública”. Ele complementa: “Neste momento, apenas 8 dos 194 países membros da OMS possuem um plano nacional para a demência, sendo que, atualmente, poucos tem algum plano em desenvolvimento. Nossa esperança é que outros países utilizem este relatório como ponto de partida para planejar e implementar”.

Marc Wortmann, diretor executivo da ADI, explica: “Com o impacto devastador da doença nas pessoas, famílias, comunidades e sistemas nacionais de saúde, a demência representa não apenas uma crise de saúde pública, mas também um pesadelo social e físico. Globalmente há um novo caso de demência a cada quatro segundos. Nosso atual sistema de saúde simplesmente não pode lidar com a explosão da crise de demência, considerando que vivemos cada vez mais tempo. Este relatório mostra que há muito a fazer para melhorar a vida de pessoas com demência e seus cuidadores”.

O relatório da OMS/ADI acontece logo após um profundo apelo do Dr. Peter Piot, ex-diretor executivo do UNAIDS, um dos especialistas que fizeram com que o mundo entendesse o HIV/ AIDS não como uma sentença de morte, mas sim como uma doença tratável. Em discurso recente, Piot descreveu a demência – e em especial a doença de Alzheimer – como uma “bomba em contagem regressiva”, tendo em conta o rápido crescimento da população mundial que envelhece.

De acordo com pesquisa realizada pela ADI, que agora tem uma legitimidade ainda maior dentro do relatório da OMS, o número de pessoas vivendo com demência no mundo, foi estimado em 35,6 milhões em 2010. Espera-se que este número dobre a cada 20 anos, atingindo 65,7 milhões em 2030 e 115,4 milhões em 2050. Fazendo uma comparação entre demência, nos dias de hoje, e HIV/AIDS nos anos 80, Piot considera que o mundo deve enfrentar o nível de demência com urgência semelhante e recursos coordenados: “Se o mundo precisa de uma chamada para despertar é na crise global. Não vejo outra alternativa a não ser tratar a doença de Alzheimer, pelo menos, com a mesma atenção dada ao HIV/AIDS”, disse o especialista.

Pesquisas são e serão sempre necessárias diante desse “caos” que se aproxima a passos galopantes. Nesta linha de raciocínio, as universidades contribuem com ciência, criatividade, dedicação e atenção para um cenário grave da doença, um quadro atual e futuro.

Quem, um dia, poderia pensar no medicamento “lítio”, amplamente utilizado no tratamento de transtorno bipolar, como um efeito protetor contra o aparecimento da doença de Alzheimer? Então, estudos realizados na Universidade de São Paulo (USP) reforçaram as evidências de que o lítio pode sim ter um caráter benéfico no tratamento da doença.

Segundo reportagem de Fabio Castro “Estudos reforçam relevância clínica do lítio contra Alzheimer”, a pesquisa, que teve seus resultados publicados em 2011 na revista British Journal of Psychiatry, foi conduzida por Orestes Forlenza, do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria (Ipq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Forlenza apresentou os resultados em São Paulo durante o Brazil-Canada Prion Science Workshop 2012, realizado em março pelo Hospital A.C. Camargo.

O trabalho é resultado do Projeto Temático Neurobiologia da doença de Alzheimer: marcadores de risco, prognóstico e resposta terapêutica”, iniciado em 2010 e financiado pela FAPESP e coordenado por Wagner Gattaz, também do IPq.

Castro conta que “segundo Forlenza, o experimento foi realizado com idosos com comprometimento cognitivo leve. Os resultados demonstram a relevância clínica da aplicação de baixas doses de lítio em pacientes que ainda não atingiram a fase demencial da doença de Alzheimer, reforçando a hipótese de que o medicamento possa ser utilizado na prevenção do problema”.

Em resposta à Agência FAPESP, ele diz: “Os pacientes que receberam lítio não apenas ficaram mais estáveis clinicamente, do ponto de vista funcional e cognitivo, como tiveram menos deterioração de memória e de funções cognitivas”.

Além disso, o experimento revelou uma evidência de modificação de um dos processos patogênicos centrais da doença de Alzheimer, que é a hiperfosforilação da proteína TAU, um processo que destrói o esqueleto das células, levando à morte dos neurônios. O lítio inibe a atividade da enzima GSK 3-Beta, que fosforila a TAU.

“O conjunto desses resultados mostra que possivelmente o lítio produz um efeito modificador da doença. Além da hipótese inicial, que era a inibição da enzima GSK 3-Beta, olhamos outros possíveis participantes desse efeito”, disse Forlenza.

O médico explica que há muitos anos a ciência acumula evidencias biológicas e experimentais de que o lítio poderia exercer ações neuroprotetoras. Mas até recentemente não se conhecia nenhuma comprovação de que isso tivesse algum significado clínico ou benefício humano.

Forlenza explica: “Essa comprovação começou a se realizar quando publicamos, em 2007, um trabalho demonstrando que, quando ficam mais velhos, indivíduos que têm doença bipolar – e que, portanto recebem lítio clinicamente por vários anos – têm uma menor taxa de demência que os indivíduos bipolares que foram tratados com outras terapias”.

Com base em constatações clínicas experimentais, o grupo da USP lançou um estudo para, em condições controladas, avaliar o efeito neuroprotetor do lítio em indivíduos em risco de ter doença de Alzheimer. O modelo escolhido para essa finalidade foram os indivíduos com comprometimento cognitivo leve.

“Tínhamos como base dois trabalhos que foram publicados – um na Inglaterra, outro na Alemanha – usando lítio para tratar indivíduos com a doença de Alzheimer já em fase demencial”, explicou Forlenza. O estudo britânico fracassou; os pacientes (em fase demencial) não toleraram as doses de lítio que eram mais altas, houve uma alta taxa de abandono, impossibilitando que se chegasse a conclusões. O outro estudo na Alemanha (pacientes com Alzheimer leve), também fracassou, porque não se encontrou mudança nenhuma dos parâmetros clínicos e biológicos.

“Com base nessas informações, alinhamos então o nosso projeto para tratar não indivíduos com doença de Alzheimer já em fase demencial, mas em uma fase anterior a isso. Outro diferencial da nossa abordagem é que utilizamos o lítio em doses menores que as utilizadas clinicamente. Mostramos que essas doses são suficientes para inibir a atividade de uma enzima que imaginamos que esteja ligada ao processo”, disse Forlenza.

O Projeto Temático será concluído em 2014. Até lá, os pesquisadores seguirão com a linha de estudos envolvendo a aplicação de lítio como antagonista da doença de Alzheimer.

“Várias análises ainda precisam ser feitas, ou completadas, com variações de biomarcadores e de tempos de seguimento, por exemplo. Queremos também iniciar um estudo semelhante, não mais em pacientes com comprometimento cognitivo leve, mas em pacientes com doença de Alzheimer familiar de início precoce, que talvez seja o modelo ideal para se testar essa modificação de patogenia”, disse Forlenza.

Referências

CASTRO, F. (2012). Estudos reforçam relevância clínica do lítio contra Alzheimer. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.

EUROPAPRESS. (2012). COMUNICADO: La OMS y la Alzheimer’s Disease International dicen que la demencia debe ser una prioridad sanitaria global. Disponível Aqui. Acesso em 15/04/2012.

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