Alzheimer, entre a tragédia e a comédia

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Quando o Alzheimer se manifesta, você pode encará-lo de duas formas: como tragédia ou comédia. A maioria opta pela tragédia e sofre em dobro.


A receita não é rir da desgraça alheia, é encarar com leveza, abraçar o visitante indesejado como sugere Rosana Leal nos livros O Alemão Veio nos Visitar e O Alemão Pegou o Bonde. Dona Detinha, mãe da autora, viveu quase 20 anos depois de receber o diagnóstico da doença de Alzheimer. 20 anos é uma vida. A maioria não chega a dez e metade deles passa em cima de uma cama hospitalar. Rosana administrou a doença sem brigar com ela, convidou o alemão para tomar café, passear… Ops, mas não é sobre os livros da Rosana Leal e as lições de vida deixadas por dona Detinha que me propus a escrever, é sobre John. Quem é John? Um ilustre professor universitário apaixonado por Ernest Hemingway.

A luta de John contra o Alzheimer é feroz, porque o Alemão pode roubar todas as memórias dele, embaralhá-las, confundi-lo, enlouquecê-lo, mas as lembranças do escritor, dos seus livros, John as mantém intactas, e quando começa a falar da sua paixão, dos romances (O Velho e o Mar, Por Quem os Sinos Dobram, Adeus às Armas etc), seus olhos brilham e as pessoas param para ouvi-lo. E qual é o grande desejo de John? Conhecer a casa do escritor em Key West, na Flórida. Acontece que John mora em Boston, no outro extremo, e com Alzheimer fica difícil pois os filhos, um casal, não querem ver John com um pé fora de casa, está doente…

Mas John tem uma mulher por quem nutre uma paixão imensa que não o deixa esquecer facilmente de quem ela é. É sua grande âncora, sua referência. John sabe que está perdendo a consciência e conta com Ella para lembrá-lo, quando as coisas estiverem indo de mal a pior, onde guardou sua espingarda calibre 12, e ajudá-lo a apontá-la de baixo para cima na direção do queixo e pá! Estourar seus miolos. Ella diz para ele ficar sossegado que quando chegar o momento, pá! Acontece que Ella só está esperando esse momento para se despedir do mundo, porque seu câncer está avançadíssimo e os médicos admiram que ainda esteja viva.

O filme se chama Ella e John e o diretor, o italiano Paolo Virzi, resolve rir da doença dos dois, abraçá-las e sair com elas pela estrada. Sim, porque se trata de um roadie movie. A cena de abertura é por si só engraçada, o filho chega em casa e descobre que os pais fugiram. Liga para a irmã. O que fazer? Liga para a polícia, passa a placa do carro, como assim? Aqui começa a brincadeira hilariante do casal que se propõe a dirigir um trailer, motorhome, por 2.200km pela costa do Atlântico. Parando de acampamento em acampamento, deparam-se com lugares lindos, a ponto de, em um deles, John, admirando, perguntar para Ella, Estamos no paraíso? E Ella responde que sim. John, preocupado, questiona a mulher, Sabe se aqui em cima tem hambúrguer?     

Como diversão pouca é bobagem, o motorista dessa empreitada é John, mas Ella é fundamental para dar a direção. Numa parada para encher o tanque, Ella se distrai com o telefone, falando com o filho, quando vê o motorhome vai longe, John simplesmente a esquece (tem como não rir?). Ella age rápido para não ficar sozinha pelo caminho. O carro é de 1974, uma raridade, Ella e John acamparam a vida toda, por isso nada do que fazem é novidade e os problemas que surgem pelo caminho já conhecem de cor. Fura um pneu, são assaltados, parados por guardas, cochiladas no volante etc.

Acontece tudo e mais um pouco e o que não dá pra rir dá pra chorar, diz a canção. Prepare seu coração porque arengas acontecerão pelo caminho e da mesma forma que John esquece Ella, Ella cansa e chega uma hora que pensa seriamente em desistir de John, motivos não faltam, basta Ella mudar o botão de comédia do Alzheimer para tragédia.

Os atores, Helen Mirren e Donald Sutherland, dão um show. A visita à casa de Hemingway é um sucesso. A essa altura, os medicamentos de Ella acabaram, as dores infernais tiram sua paz, mas sua jornada foi cumprida. O professor realizou seu sonho e chegou a hora de encontrar a calibre 12 para encerrar o filme com bala de ouro. Nada disso. Ella teve o cuidado de jogar fora os cartuchos porque deseja um final feliz. 

O nome original do filme é The Leisure Seeker, em tradução livre algo como o caçador de lazer, aventura, prazer ou até mesmo vida. Adaptar um título assim é difícil. Para sorte dos tupiniquins, a atuação da dupla é tão fenomenal que em português ficou fácil batizar o filme apenas com o nome dos personagens, Ella e John. O filme é baseado no livro de mesmo nome, de Michael Zadoorian, com certeza um apaixonado pela obra de Hemingway, por isso o filme é um pouco uma alegoria em cima da obra O Velho e o Mar. O velho, aqui, está na estrada em busca de um sopro de vida e a encontra, mas na volta para casa, dada a distância e os percalços, sobra só a carcaça. Filmaço de 2017 mas muito atual. Está na Netflix.

Fotos: Divulgação

Atualizado em 11/10/2021 às 19h17


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Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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