Alunos de Psicologia praticam escutas virtuais da longevidade

Disciplina no curso de Psicologia da PUC-SP permite ver como as redes sociais são utilizadas por quem já passou dos 60 para falarem de si. Os alunos puderam se aproximar das questões relevantes, para entender a longevidade, a partir da voz de quem a vivencia, já que pouco se conhece sobre o que os idosos narram de si nas redes sociais.  

Beltrina Côrte, Ruth G. da C. Lopes e Vera Brandão (*)

 

Doze jovens alunos e doze artigos apontando arqueologias dos diferentes significados do ser velho; verdadeiras narrativas virtuais de homens e mulheres confrontados com o próprio processo de envelhecer compõem a edição 56 da Revista Portal de Divulgação, resultado do investimento dos alunos na eletiva Escutas virtuais da longevidade: vozes dos 60+ inscritas nas redes sociais, oferecida pelo curso de Psicologia, da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde (FACHS) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) à toda universidade.

A proposta da disciplina criada pelas professoras Beltrina Côrte e Ruth Lopes partiu do pressuposto de que as redes sociais têm se tornado uma alternativa de contato com o mundo, contribuindo para o sentimento de pertencimento, fazendo parte do cotidiano para brasileiros com 60 anos ou mais. Sendo assim, as redes sociais são utilizadas por este segmento etário para falarem de si, manter contato com familiares e amigos, dando vazão a “vozes” de quem se confronta cotidianamente com o processo de envelhecimento.

Os alunos puderam se aproximar das questões relevantes, para entender a longevidade, a partir da voz de quem a vivencia, já que pouco se conhece sobre como os idosos usam as redes sociais. Entre as primeiras aulas os alunos trocaram saberes com a blogueira Neuza Guerreiro de Carvalho, convidada especial para falar das narrativas de si, assim como do nascimento do seu blog, chamado Vovó Neuza. Também foi apresentado a eles o cenário demográfico do país e os pressupostos da Gerontologia Social, ou seja: que o envelhecimento não é um problema, mas que tem problemas, assim como a infância e a juventude; e que a doença não é destino da velhice, mas risco que se corre ao longo da vida.

Após essa imersão muito rápida nos territórios do envelhecimento, convidamos os alunos a percorrerem livremente algumas narrativas virtuais de pessoas acima de 60 anos, a fim de dar a conhecer de que falam e, ao mesmo tempo, descobrirem perguntas geradoras de reflexões a respeito desta etapa da existência humana. Esta metodologia interativa procurou estimular que captassem, sistematizassem, classificassem e analisassem, em sites, blogs, vlogs, facebook, Instagram, as narrativas em construção por aqueles que vivenciam a velhice.

Pretendeu-se, neste exercício interdisciplinar de docência (uma jornalista e uma psicóloga como professoras-orientadoras e ambas estudiosas do envelhecimento), contribuir para a formação do futuro profissional, considerando que o mundo cada vez mais virtual, fomenta e determina novos paradigmas, exigindo competência teórica e técnica.

As escutas

Como veremos, as “escutas sociais” permitiram captar a contínua construção de subjetividades. Em “Redes virtuais: uma alternativa à solidão? Relacionamentos na velhice”, Aline Cristina de Lima Lu demonstra, através de um site de relacionamentos para idosos, como se evidencia a busca por um parceiro, principalmente entre as mulheres idosas. Duas hipóteses são lançadas: a velhice traz uma liberdade não experimentada anteriormente para as mulheres? E/ou passam a vivenciar uma vida sexual e social antes reprimida? As redes virtuais abrem possibilidades de sociabilidade e incentivam os idosos a se colocarem de forma mais aberta, como indivíduos possuidores de desejos e afetos.

“Hello, Youtubers”, artigo de Ana Molina, trata da criação no Youtube, do canal ‘Geriatric1927’, por um idoso inglês, o qual compartilha experiências, pensamentos e conhecimentos no universo virtual. Interessante relato de constatações relativas às mudanças físicas que ocorrem em um corpo envelhecido e das novas vivências, muitas vezes acompanhadas de recomendações.

Em “Velhice e Políticas Públicas: Escuta virtual do Blog da Terceira Idade”, André Santos Rabelo ressalta o papel dos direitos dos idosos para a garantia da autonomia, tendo como foco as políticas públicas, tema que considera importante para a atuação dos futuros psicólogos. Três conceitos são abordados na página virtual: dever, ações e acesso.

“A construção do ser velho e do ser jovem”, de Carla Carolina de Jesus Souza, traz à tona a narrativa de uma idosa paulistana que afirma: se sentir velha não é tão dramático. Embora a senhora reproduza discursos negativos de velhices, ela assegura os prazeres de se vivenciar essa etapa da vida e seu papel de deixar um legado a outras gerações, através do relato do cotidiano.

Yngrid Pereira Cavalcante, em “Velhice e Sexualidade. Sou quem quero ser”, trata da análise de depoimentos registrados em vídeos no Youtube, de um programa de auditório argentino, composto em sua maioria de pessoas idosas. Através das narrativas, expressam opiniões, dentre eles a sexualidade ativa e a homossexualidade na velhice. Os comentários permitem entrarmos em contato tanto com as resistência dos familiares, como com o sentimento de felicidade e completude.

Em “Desconstruindo a velhice. Por uma velhice mais autêntica e menos imposta”, Karina Yuri Ono relata três usuárias idosas que partilham pelo Instagram interesses através de imagens, comentários e likes. Ao proporem uma moda sem idade questionam a ‘ditadura’ da estética corporal. Os depoimentos nos colocam em contato com mulheres que também levam uma vida saudável, divertida e ativa, que não aparece nas grandes mídias.

“Blog wedeb90”, de Leandro Azevedo, salienta o fato dos meios virtuais poderem ser facilitadores de uma vida mais conectada e integrada. A sociabilidade da depoente dependente se dá mesmo em seu pequeno quarto, apesar das enfermidades, abrindo-lhe possibilidades inimagináveis e uma velhice ativa.

Luiz Henrique Rey Klein, em “Protagonismo na velhice: uma questão de identidade”, trata de um ‘ponto fora da curva’?! Ele analisa a atuação da Vovó Neuza que ao se atualizar no mundo tecnológico, após o falecimento do marido, cria um blog, onde escreve sobre a própria história e diversos assuntos de seu interesse. Fala da vocação para ensinar e a necessidade de passar seu conhecimento adiante; é um exemplo da identidade que se metamorfoseia entre as condições históricas e materiais.

“A exaltação do corpo e a negação da velhice”, artigo de Luiza Ramoska, analisa um blog em que sua criadora, uma idosa, produz conteúdos principalmente sobre o corpo, dicas de musculação, alimentação consciente e boa forma, o qual ressalta que seguir alguém nas redes sociais tem por objetivo pegar dicas que ajudam a manter um corpo cada vez mais saudável.

“Escuta dos Avós. A Avosidade, o Vínculo, e o Tempo”, de Rafaela Diniz, trata do blog Avosidade, e de como o tema se intensifica principalmente para os velhos. Chama também a atenção para o fato dos avós serem importantes mediadores entre as crianças e o mundo, e essenciais na sua socialização. Assinala que quando os netos se tornam autônomos, e ganham experiência de vida, eles podem ajudar os avós, inclusive com questões inerentes à velhice.

O artigo “Transgênero e velhice: o caso Laerte”, de Tainá Lacroix Rosenkjar dos Santos, mostra como através desse blog o envelhecer trans ganha visibilidade. Além das reinvindicações da militância trans, o tema exige maior aprofundamento na psicologia, pois muitos profissionais desta área acabam reproduzindo em consultório os preconceitos e visões que, geralmente, repelem os indivíduos que passam por essas questões.

“Shirley Curry, uma velha gamer”, de Vitor Joh Kodama, trata de uma senhora de 81 anos que posta vídeos dela jogando games e que declara que o caráter fantástico do jogo Skyrim, a cativa, já que ama aventuras. Além de ter prazer em jogar games, a senhora reconhece que esta atividade mantém seu cérebro ativo.

Contato com leituras críticas

Através dos artigos, entramos diretamente em contato com leituras críticas sobre o impacto do processo de envelhecimento na vida de quem tem mais de 60 anos.

Temos a oportunidade de nos perguntarmos sobre alterações do físico e da saúde, sexualidade, isolamento, discriminação social.

Que visibilidade têm? Quem os lê? Onde transitam?

Os alunos de graduação, ao captarem narrativas dos atores que vivenciam o envelhecimento, os retiram do risco da invisibilidade e têm a oportunidade de dialogar sobre as próprias perspectivas, como seres finitos que são.

 

(*) Beltrina Côrte, Ruth G. da C. Lopes e Vera Brandão escreveram o editorial desta edição para a Revista Portal de Divulgação. As primeiras também foram as professoras que criaram e ofertaram a disciplina.

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Redação Portal do Envelhecimento

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