Almodóvar, com “Dor e Glória”

Almodóvar é um cineasta angustiado e deprimido pelo processo de envelhecimento e pelo bloqueio criativo. Doenças várias o atormentam com suas dores. Tema recorrente em toda a narrativa de Dor e Glória, filme dentro do filme.


Eu queria me sentir mais confortável com a ideia de o tempo estar passando. Sou ateu, ou seja, não tenho nenhum apoio psicológico. A velhice é um massacre”.*

De acordo com a Antroposofia, a “teoria dos setênios” explica que os ciclos da vida se completam e se renovam a cada sete anos. Neste ano de 2019 Almodóvar chega ao seu décimo setênio. E como um mestre do cinema, faz a memória do seu percurso de vida através da sua linguagem, o cinema. Seu último filme “Dor e Glória” acaba de estrear em São Paulo. O filme concorreu no Festival de Cannes e Antonio Banderas, o protagonista, arrebatou a Palma de Ouro como melhor ator.

A narrativa começa com um corte de quase 60 anos. Na primeira cena, Banderas  mostra um corpo envelhecido, sentado como se estivesse imerso em uma piscina, e a cena corta para uma das belas passagens da infância de seu personagem, o cineasta Salvador Mallo, aos cinco anos. O menino está sentado nas costas da mãe, interpretada por Penélope Cruz, enquanto ela lava roupa num rio, junto com outras mulheres. Esta é a primeira sequência que situa a origem pobre e o intenso relacionamento entre a mãe e o menino Salvador. O mestre Almodóvar faz beleza da pobreza. As lavadeiras estão esfregando as roupas ajoelhadas na beira do rio, rindo e cantando, no meio do verde e debaixo do sol de verão. A família pobre tem que se mudar para outro “pueblo” e mãe e filho passam uma noite dormindo na estação de trem. As cores fortes e os vermelhos, compõem o cenário da estação, como se fosse um set do falecido Zefirelli. Ao chegarem ao “pueblo”, Jacinta, a mãe, se decepciona com a nova casa, uma caverna, que logo se transforma em um observatório das estrelas.  

Jacinta consegue uma bolsa de estudos em um seminário para o menino Salvador. A memória de Salvador Mallo privilegia a sua participação no coral, enquanto foi aluno do seminário. O menino era bom em música.

Almodóvar/Salvador é um cineasta angustiado e deprimido pelo processo de envelhecimento e pelo bloqueio criativo. Doenças várias o atormentam com suas dores. Tema recorrente em toda a narrativa. “Sabor”, o filme dentro do filme, desperta a busca do personagem. O relançamento do filme realizado há 30 anos, conduz Salvador a dois reencontros marcantes, com o ator intérprete do filme, com quem estava rompido e com uma paixão interrompida pelo vício na heroína.

Na maioria dos filmes de Almodóvar as mulheres são as protagonistas. Algumas se tornaram suas musas como Rossy de Palma, Marisa Paredes, Carmen Maura e Penélope Cruz. As mulheres entram na narrativa como cuidadoras e protetoras. Como a mãe do cineasta, interpretada no período de sua infância por Penélope Cruz e por Julieta Serrano, no período da maturidade. Sua secretária Mercedes/Nora Navas, faz o papel de

“Dor e Glória” é um filme dos homens. Um dos poucos, assim como “Má educação”, criação de Almodóvar baseada na memória da sua experiência no seminário. Alberto Crespo, interpretado por Asier Etxeandía, é o primeiro reencontro que abala Salvador Mallo. Protagonista do filme “Sabor”, após 30 anos é procurado por Salvador. Alberto lhe apresenta a heroína, que Salvador passa a consumir para aliviar as dores físicas e a depressão. Ator em decadência, Alberto descobre por acaso um texto de Salvador e insiste para representá-lo em um pequeno teatro de Madrid. Salvador finalmente autoriza a encenação do texto em uma peça, com a condição de que Alberto assuma a autoria da peça, que se torna um sucesso.   

O segundo reencontro acontece por causa do sucesso da peça. Federico, interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, redescobre Salvador, por se reconhecer no texto inspirado na paixão de ambos. Federico vive em Buenos Aires e reconstruiu a vida após deixar o vício em heroína, que dá nome à peça, “Adicción”.

Almodóvar/Salvador é um colecionador e apaixonado pelas artes plásticas. Recebe um folder de uma galeria de arte e a foto de uma aquarela à venda na galeria, que lhe remete a memória do seu primeiro desejo. Emocionado vai em busca da aquarela e tenta localizar o autor. O menino retratado na aquarela é Salvador aos nove anos. A pintura toma a forma de uma das cenas mais emblemáticas do filme. Salvador desfalece de desejo ao ver o belo e jovem pedreiro que trabalha em sua casa tomando banho nu. Salvador ensinava o jovem analfabeto a ler e escrever em troca do seu trabalho.

Muita emoção e beleza na memória da infância entrelaçada com o presente. As cores fortes, o cenário rústico e ao mesmo tempo refinado, as citações musicais das cantoras Mina e Chavela Vargas, trilha sonora da infância e da maturidade, as citações cinematográficas com Marilyn Monroe e Natalie Wood e a perfeita construção dos personagens baseadas em grandes interpretações. “Dor e Glória”, uma ficção auto biográfica de um gênio.

Ficha técnica

Dor e Glória: filme espanhol lançado em 2019

Diretor e autor : Pedro Almodóvar

Produtor: Agustin Almodóvar

Atores: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandía, Nora Navas, Leonardo Sbaraglia, Julieta Serrano

* Almodóvar em entrevista publicada na Folha de São Paulo



Maria do Carmo Guido Di Lascio

Maria do Carmo Guido Di Lascio

Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo/SP. Pesquisadora autônoma sobre temas do envelhecimento. E-mail: mariaguidodl@gmail.com

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