Akalanto, agenciando o cuidado com afeto

Maria Conceição aprendeu a cuidar de pessoas idosas na prática há mais de 30 anos. É o que sabe fazer de melhor, e por isso criou a Akalanto para agenciar o cuidado com competência e afeto.


1957, nasce Maria Conceição. Exatamente em Virgínia, sul de Minas Gerais, perto de São Lourenço, Caxambu. Quem foi registrá-la no cartório não sabia o sobrenome de seus pais, e assim ficou registrada Maria Conceição. Foi se dar conta disso, já adolescente.

Tem 10 irmãos, 8 mulheres e 2 homens. Ela é a mais velha. Sua irmã caçula é jornalista e está na Itália. Todas são professoras, mas ela não tinha vocação para tal. Um irmão e um primo moram em São Paulo, o resto em Minas Gerais.

Um dia, ao questionar seu nome, lhe disseram:

– Quer sobrenome? Então se case.

Mas Maria Conceição, filha de Maria Virgínia Belarmino Ribeiro, 86 anos, e Vitor Raimundo Ribeiro (já falecido), não teve tempo para se casar em seus 62 anos de vida dedicados ao cuidado de pessoas.

Saiu das Minas Gerais aos 19 anos para tentar a vida na cidade grande. Veio com um casal de amigos e foi morar em Santo André, município do Grande ABC. Na época fez curso de atendente de enfermagem e, uma vez formada, foi trabalhar na capital.

Como o salário era pouco, começou a fazer plantão, cuidando de uma senhora que tinha tido um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Gostou tanto de atuar como cuidadora, que deixou o hospital onde trabalhava para cuidar da senhora e lá ficou por volta de 5 anos, até ela falecer.

Em 1998 fez um curso de cuidadores num hotel do centro da cidade de São Paulo, ministrado pelo médico Luís Roberto Ramos, um de seus anjos da guarda. O outro anjo, uma mulher, é Maria do Carmo Cunha, duas pessoas que a ajudaram em sua trajetória.

Depois foi cuidar de outra senhora em Alphaville, um bairro nobre dos municípios de Barueri e Santana de Parnaíba, no estado de São Paulo. Ficou 7 anos. Depois foi parar no bairro do Paraíso, mais 5 anos. O lugar em que ela menos ficou como cuidadora foi de 3 anos e outro de um ano e meio.

A última pessoa de quem cuidou, na Baixada Santista, era uma senhora de seus 70 e poucos anos que tinha esquizofrenia. “Ela jogava ovos pela janela, brigava com a vizinhança toda, era agressiva, e não aceitava tomar nenhum remédio. Fui cuidar a pedido de muita insistência do filho dessa senhora que morava em São Paulo e que em nenhum momento me havia dito o que de fato ela tinha. Disse apenas que sua mãe era depressiva”.

Maria Conceição não estava preparada para cuidar de alguém com uma perturbação mental como a dela, não era demência, ela era incapaz de distinguir o que é ou não real. Ela delirava, dizia que escutava coisas, não conseguia saber o que ela sentia, e não tinha motivação para nada. “No começo tinha até medo de dormir com medo dela fazer algo contra mim”, confessa.

E diz: “Mas eu tinha paciência, e sabia que se Deus a tinha colocado na minha vida, era que eu tinha uma missão a ser cumprida. Sabia que os remédios eram essenciais para ela, até que descobri um jeito dela tomar sem saber. Depois de três meses ela era outra pessoa, calma, sociável, amorosa, foi a melhor pessoa que conheci na vida. Lá fiquei por seis anos e meio”.

Assim Maria Conceição nos conta como se fez cuidadora. Na prática.

Chegou a ficar 40 dias e 40 noites dentro de hospital, sem folga, acompanhando uma pessoa idosa, pois ela era a única pessoa capaz de saber se a idosa estava bem ou não. Só de olhar ela já sabia, tamanho o vínculo criado. Esse era o segredo do seu cuidado: o vínculo afetivo que criava com a outra pessoa. Acha que isso falta hoje.

Na época não tinha essa coisa de registro, e Maria Conceição sempre trabalhou sem registro, diz que aceitava as condições sabendo delas. Conta que uma vez, após a morte da senhora de quem cuidava, o filho continuou pagando por mais seis meses. Como ela diz “Eu entrei bem e saí melhor ainda, até hoje, se eu precisar, nenhuma das famílias para quem eu trabalhei vira as costas para mim”.

No fundo ela sabe que nunca conseguiu separar razão do coração…

Surgimento da Akalanto

Maria Conceição vivia indicando cuidadoras para muita gente, até que seu primo, que é contador, lhe questionou:

– Por que você não abre uma agência de cuidadores?

Assim, em 2014, abriu sua empresa, chamada Akalanto Cuidadores. E quer que ela seja uma das melhores no mercado, tanto nos cuidados quanto na prevenção.

Akalanto, porque Maria Conceição gosta de ajudar as pessoas, e quer que sua empresa seja conhecida por “abraçar as pessoas idosas, mais frágeis”.

Reconhece que o trabalho de hoje é bem diferente de quando ela começou há mais de 30 anos. Sabe também que as pessoas hoje querem ser cuidadoras porque ganham melhor, mas não têm afeto pelas pessoas que cuidam. Segundo ela, virou moda ser cuidador, são poucos aqueles que realmente cuidam porque gostam do trabalho. Ela sempre gostou, é o que sabe fazer de melhor. Tem muita paciência.

Conta que assim que abriu sua agência, uma cuidadora foi contratada para trabalhar à noite, para cuidar de uma senhora. Mas que no dia seguinte a cuidadora ligou dizendo que não podia ficar porque não podia dormir. Então Maria Conceição pergunta: “como alguém quer trabalhar à noite e ainda dormir no horário em que trabalha?”. Outro caso que ela teve foi de uma outra cuidadora que deixou o trabalho porque tinha que trocar fralda.

São muitos os casos. Reconhece o despreparo de muitas mulheres, afinal são elas a maioria nesse tipo de trabalho. Como também sabe de um monte de lugares caça níquel que oferece curso de algumas poucas horas e a pessoa sai achando que é cuidadora. Por isso Maria Conceição não entende como alguém se diz cuidador, mas não quer fazer o que um cuidador deve fazer. Pena que ela hoje não pode mais cuidar por suas condições de saúde, problemas em seu coração. Ela não pode pegar peso.

Para ela o cuidado é vida. Sabe por experiência própria em mais de 30 anos de atuação como cuidadora que as pessoas de idade são bem carentes e gostam de carinho. Cuidar de uma pessoa idosa é cuidar de um ser humano e não de  um objeto.

Em sua trajetória cuidou de muita gente com Doença de Alzheimer e se a pessoa dizia que era pedra, ela entrava no jogo e não ficava discutindo. Aprendeu que isso torna a relação bem mais leve.

Hoje, ao contratar alguém para sua agência, ela leva em conta a experiência comprovada (e não cursinhos de um dia), atestado de antecedentes, e ainda exige que a pessoa passe por avaliação psicológica. Sabe que tem muita gente que se diz cuidador que não tem condições de ser.

Maria Conceição teve que dar uma pausa na sua empresa por causa de um problema no seu coração, não coisas de amor, mas biológico mesmo. Foi se cuidar em Virgínia, junto aos seus familiares, e todos a queriam por lá, mas a Akalanto não lhe saía da cabeça. Retornou para São Paulo e aqui está.

Ela mora atualmente no bairro da Mooca, em São Paulo, com uma amiga, mas esse lugar é transitório. Para relaxar ela gosta de cozinhar, diz que é uma terapia, e que todos gostam de sua comidinha, como risoto de bacalhau, espaguete de abobrinha, estrogonofe… Gosta de cinema, teatro e de ler romance espírita.

Maria Conceição é Kardecista, embora tenha se formado em um lar de família católica e que ainda vai de vez em quando à missa. Mas acredita fielmente que os encontros das pessoas têm uma missão. Nada é por acaso, nem esta entrevista dada ao Portal do Envelhecimento.

Sobre sua velhice? Ah, Maria Conceição, acostumada a lidar com velhices muito frágeis, acabou associando velhice com fragilidade e diz que não se acha velha, pois considera que ainda pode fazer muita coisa.

Pergunto então à Maria Conceição o que é ser velha e ela responde imediatamente: “velha é aquela pessoa que fica repetindo o tempo todo muitas coisas, que está acamada ou sem condições de viver sua vida sozinha”. E arremata: “a velhice está na cabeça”.

Não é bem o que achamos, digo para Maria Conceição, desenhando para ela que velho ou velha é a pessoa que está vivendo a etapa da velhice, assim como criança é quem está na infância, jovem quem vive a juventude. Simples assim, independente se está doente ou não, afinal, a doença faz parte da vida e nos acompanha desde o nascimento.

Mas isso nossos leitores já sabem.

Pergunto a Maria Conceição se ela quer falar mais alguma coisa e ela diz que gostaria que divulgássemos o curso que a Akalanto Cuidadores está oferecendo para cuidadores:

Oficina de psicoestimulação cognitiva para idosos

Docente: Fabrício Oliveira (colega da Paraíba)

Dia 24 de agosto de 2019, das 8h30 às 17h30

Local: NISS – Núcleo Integrado de Saberes, localizado à rua Capitão Cavalcanti, 171 – Vila Mariana, São Paulo.

Inscrições: https://www.sympla.com.br/oficina-de-psicoestimulacao-cognitiva-e-motora-para-idosos__529544

Serviço

Akalanto Cuidadores

Rua Francisco Cruz, 139,

Vila Mariana, São Paulo- SP

WhatsApp: (11) 99811-0229

contato@akalantocuidadores.com.br

Site: https://akalantocuidadores.com.br/


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/workshop-sindromes-geriatricas/

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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