AIDS, Carnaval e os mais velhos

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O Carnaval é uma festa que se originou na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C. Durante o evento os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção.

Luciana H. Mussi *


A festa carnavalesca surgiu a partir da implantação, no século XI, da Semana Santa pela Igreja Católica, antecedida por quarenta dias de jejum, a quaresma. Esse longo período de privações acabaria por incentivar a reunião de diversas festividades nos dias que antecediam a quarta-feira de cinzas, o primeiro dia da quaresma.

A palavra “carnaval” está, desse modo, relacionada com a ideia de deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão carnis valles, que, acabou por formar a palavra “carnaval”, sendo que carnis em latim significa carne e valles significa prazeres.

É muito provável que essas sejam as raízes que relacionam as festas de Carnaval a sexualidade e a todos os cuidados decorrentes dos chamados “prazeres da carne” que, digamos, “provocam”, ou melhor, mobilizam todos nós, em qualquer fase da vida.

Segundo estimativas do infectologista Alfredo Passalacqua, existe um aumento entre 25% e 30% nos casos de transmissão do vírus HIV nesse período. “Não são números oficiais, mas que há um incremento na disseminação do vírus, há”, destaca o médico.

Grande parte das matérias que circulam pela mídia impressa e internet advertem principalmente os jovens quanto aos riscos de contágio e cuidados relacionados às doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a Aids, durante o período do carnaval, mas muito pouco se fala e se escreve alertando especificamente o público idoso.

Localizamos algumas reportagens entre 2011 e 2012 que abordam o tema e seus respectivos cuidados com clareza, desmistificando as questões relacionadas à sexualidade no envelhecimento enquanto processo, como uma fase da vida e ainda o que tudo isso significa na vida do velho ou idoso.

Na reportagem “Dobram os casos de Aids na terceira idade em 10 anos”, de Mariana Versolato, afirma que avôs e avós fazem sexo, sim. E, sem proteção, também pegam Aids. De 1998 a 2008, os casos da doença entre pessoas acima de 60 anos no Brasil mais que dobraram, segundo dados de 2010 do Ministério da Saúde. A via predominante de transmissão é por relação sexual heterossexual, em ambos os sexos.

Os idosos têm ainda a ideia de que a Aids é uma doença de jovens e que estão à margem do risco, segundo o infectologista do hospital Emílio Ribas Jean Gorinchteyn, autor do livro “Sexo e Aids depois dos 50”. (Jornal A Folha de S.Paulo, Caderno Equilíbrio e Saúde, 03/07/2011)

Rodrigo Mesquita na reportagem “Aos 78 anos, mulher soropositiva há 15 acredita que é possível viver com otimismo” aborda também dados relevantes. Segundo a matéria os dados do Ministério da Saúde mostram que, a cada ano, a fatia de novos velhos diagnosticados com Aids só cresce. Para Maria Luísa o diagnóstico não deve impedir que as pessoas procurem viver o melhor possível: “Estou com essa doença há 15 anos, mas nunca me abalei com isso, ajo como se tivesse pegado uma gripe: essa doença pega na cabeça e não vou deixar de viver a minha vida, não vou morrer por causa disso. E não morri: comecei a fazer atividades como ginástica, cooper e natação. Comecei a fazer uma coisa que essa doença não gosta: viver”.

Casos de pessoas mais velhas, soropositivas, fazem parte de uma população que, segundo dados do Ministério da Saúde, está crescendo rapidamente: a de pessoas com mais de 50 anos diagnosticadas com o vírus HIV. Em 2000, 8,64% dos diagnósticos de HIV foram de pessoas nessa faixa etária; em 2010 (até 30 de junho), a fatia chegou a 17,23%.

Para o médico Jean Carlo Gorinchteyn, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, localizado em São Paulo, existem várias possibilidades para explicar o aumento da doença entre os novos velhos. Uma delas seria o fato de a doença ser associada à juventude. “As campanhas publicitárias usam personagens jovens, linguajar jovem, o que faz com que esse público se identifique como um grupo de risco, enquanto os mais velhos se sentem menos vulneráveis”. Maciel concorda: “Descuidando, a gente acaba se distraindo e não se prevenindo”.

Para Eliana Bataggia Gutierrez, diretora da Casa da Aids da USP, outro motivo responsável pelo aumento de novos velhos com Aids é o crescimento dos diagnósticos tardios. “Provavelmente, uma parte dessas pessoas já tinha a doença e não sabia”. Ela também cita o sucesso dos coquetéis de remédios como um motivo de que os pacientes em tratamento ultrapassem os 50 anos de idade.

“Idosos são 60% dos novos casos de HIV em Mato Grosso” é o título da reportagem de Andhressa Sawaris Barboza, na qual afirma que apesar da redução dos casos de Aids no Estado, aumenta a incidência da doença na terceira idade.

Na rede pública de saúde da Capital, palestras sobre o tema são realizadas nas reuniões de grupos de idosos. De acordo com a coordenadora do grupo de idosos da Policlínica do Planalto, Alice Magalhães, as palestras orientam esse público quanto às doenças sexualmente transmissíveis (DST). Ela conta que quando detectado algum caso, o paciente é encaminhado ao SAE. “Mas é difícil mudar a cultura e os costumes de um idoso, fazer com que eles usem camisinha é uma tarefa complicada”, conta.

“Nem sempre os parceiros querem usar, mas se não quer a gente vai mesmo assim”, conta uma senhora que participa do grupo da terceira idade. A equipe desta reportagem esteve em um local onde é realizado baile para esse público e, de acordo com relatos, ali começam os namoros. “Depois daqui a gente vai pra casa”, conta ela, admitindo ter amigas que, assim, já contraíram doenças sexualmente transmissíveis. “Mas ninguém fala muito disso, fica na intimidade da pessoa”, conclui. (Website Circuito Mato Grosso, 26/07/2012)

A reportagem de Mariana Lenharo “Mais idosos realizam teste de HIV em SP, aponta levantamento” indica que mais idosos passaram por testes de HIV na cidade e no Estado de São Paulo em 2011, em comparação com o ano anterior. O fenômeno reflete, segundo especialistas, mudanças comportamentais nesse grupo, que passou a prolongar a vida sexual com a ajuda de medicamentos contra impotência, como o Viagra.

No Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, o número de idosos testados para Aids passou de 75, em 2010, para 101, em 2011. De acordo com a assistente de gerência do núcleo de DST e do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Angela Maria Peres, esse ainda não é o público principal do núcleo – que costuma realizar mais de 3 mil exames por ano. “Quem sempre nos procurou foi a população mais vulnerável: homens que fazem sexo com homens, travestis, transexuais. Essa população que tem mais de 60 anos só passa a nos procurar quando tem alguma indicação de que o parceiro ou a parceira é HIV positivo”, disse. (Jornal Estado de SP, 20/08/2012).

Nos últimos anos, a terapia de reposição hormonal para as mulheres e os tratamentos para que homens possam prolongar a ereção possibilitaram aos idosos manter a vida sexual ativa, afirma a reportagem “Saúde do Idoso: Sexualidade”.

Para o ginecologista Celso Galhardo, coordenador do Programa Municipal DST/Aids, de São Paulo, é preciso quebrar o preconceito de que o idoso sexualmente ativo é anormal. Segundo ele, não existe uma idade limite para a atividade sexual, já que isso depende do físico do idoso, das condições de saúde, da libido e do erotismo. “Sexo é sinal de saúde”, argumenta.

Podemos, com esta revisão das reportagens que circularam pela mídia, entender que o caminho é longo. Ainda há muito por falar, esclarecer e orientar os mais velhos quanto aos riscos e cuidados que se deve ter com as doenças sexualmente transmissíveis.

É fundamental que os profissionais de saúde vejam seus pacientes idosos, assim como os jovens e adultos, como indivíduos potenciais ao risco de infecção pelo vírus HIV, sem perder de vista o envolvimento da sociedade e adoção de políticas públicas efetivas.

Com o acelerado envelhecimento da população, torna-se fundamental, senão crucial, implementar estratégias para diminuir o estigma em relação à vida sexual das pessoas mais velhas, práticas educativas, bem como incentivar pesquisas relacionando velho, velhice e envelhecimento a Aids.

Numa época como o carnaval, em que vivemos, de forma consciente, uma espécie de “suspensão das normas”, algo parecido com um libertar-se mágico de si mesmo acontece. Assim, nunca é demais lembrarmos os cuidados necessários.

Todos os anos, o Ministério da Saúde – Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais (DST), costuma divulgar campanhas que compreendem duas fases: antes do Carnaval, o apelo é para o uso do preservativo nas relações sexuais. Depois do período da festa, a ideia é estimular a fazer o teste HIV para quem teve relação sexual desprotegida com parceiro casual ou fixo.

Sexo é bom, sexo é saúde. Que fique claro que velhice não é sinal de fim, menos ainda de término dos “desejos e práticas sexuais”. Esse sexo existe efetivamente, não é invisível e menos ainda vazio, como muitos acham. Com carnaval ou sem carnaval, “sexo com camisinha” é, sempre, a melhor combinação e opção.

Referências

BARBOZA, A.S. (2012). Idosos são 60% dos novos casos de HIV em Mato Grosso. Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

BRASIL.GOV.BR (S/D). Saúde do idoso. Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

JORNAL O MOSSORENSE (2012).Transmissão do vírus HIV no Carnaval pode crescer cerca de 30% . Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

LENHARO, M. (2012). Mais idosos realizam teste de HIV em SP, aponta levantamento. Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

MESQUITA, R. (2012). Aos 78 anos, mulher soropositiva há 15 acredita que é possível viver com otimismo. Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

VERSOLATO, M. (2011). Dobram os casos de Aids na terceira idade em 10 anos. Disponível Aqui. Acesso em 01/12/2012.

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